Indielisboa’12: Entrevista a André Valentim Almeida, realizador de «From New York With Love»

(Fotos: Divulgação)

Após vivenciar os estímulos que um novo país e uma nova cidade oferecem para quem acaba de chegar, o documentarista André Valentim Almeida comprou uma câmara de turista e durante seis meses colheu imagens de Nova Iorque. Autor de um primeiro documentário (“Uma na Bravo outro na Ditadura”) que já teve 15 mil acessos na Internet, desta vez reuniu algumas imagens aleatórias, outras já mais elaboradas, que serviriam mais tarde para montar um quadro das perceções do cineasta sobre a sua nova cidade – ao mesmo tempo que o seu país de origem nunca é abandonado. A estas imagens juntaram-se outras – de filmes que ilustram as suas ideias. Acrescentam-se reflexões diversas – apresentadas em legendas ou em voz off – e tem-se “From New York With Love”, um estimulante exercício de documentário pessoal que é apresentado hoje pela segunda vez no Indie Lisboa.

“From New York With Love” tem duas montagens paralelas, uma de texto e outra visual. Como funcionou esse processo da criação?

Tudo começou com uma câmara de turista. Qualquer pessoa que vai para Nova Iorque gosta de ter imagens da cidade. Eu comprei uma câmara e comecei a captar imagens de forma turística. Não tinha nenhuma ideia daquilo que queria fazer, ia filmando de forma completamente caótica, como qualquer turista – embora com alguns cuidados que vêm do facto de eu ser uma pessoa que trabalha com a imagem e que sabe o que é filmar. Isso foi em 2009. Andei cerca de seis meses a filmar.

Quando é que começou a pensar em fazer algo mais sério com estas imagens?

O processo de adaptação à cidade envolveu muitas nuanças, muitas sensações, muitos pensamentos. Começou a envolver uma forte componente racional – do tipo “eu como português em Nova Iorque, porque é que eu sinto isso etc.”. Comecei então a construir a ideia do que é que poderia fazer com as imagens.

O texto veio depois?

Sim, depois das imagens já feitas é que comecei a pensar no texto, a pensar nos pontos fortes, centrais, que eu queria incluir. Há três personagens centrais, tinha que saber o que é que poderia falar sobre eles. Além disto, de alguma forma queria abordar os eventos seguindo alguma espécie de cronologia. Nesta fase inicial não pensei no texto de forma muito elaborada. Nunca filmei a pensar nas ideias que quereria abordar no texto atual. Por isso a escrita do texto é já um exercício de memória, de olhar para as imagens e ver aquilo que tinha e o que elas me permitiram fazer.

Quando comecei a colocar a voz off já não captei mais imagens. Foi tudo um exercício de olhar para as imagens, para que o tinha, foi um exercício de construção de memória. Reconstrução esta que envolve alguma ficção: há coisas muito documentais, que de facto senti, e outras que são reconstruções daquilo que eu acho que senti na altura. A escrita do guião é um exercício de olhar para as imagens. São um género de imagens que muita gente tem nos seus computadores – mas eu como documentarista achei que seria necessário trabalha-las. Foi um período com muito significado da minha vida e pareceu-me que havia alguma universalização daquilo que eu senti. E há pessoas que chegam para mim e dizem que se identificam, que vivem fora e também já sentiram o mesmo. É um processo que é universal.

Há diversas imagens de outros filmes…

Tecnicamente a montagem foi simples. Em termos de direitos de autor não está resolvido e penso que nunca estará. É um filme que dificilmente encontrará o circuito comercial devido às questões ligadas ao copyright. Aqueles foram filmes que eu fui encontrando e senti necessidade de rever. São específicos sobre estados norte-americanos e sobre cinema. Consegui revê-los sob outra perspetiva porque já conhecia melhor aquela cultura. Principalmente “Janela Indiscreta” fazia todo o sentido ao falar de cinema e “Veludo Azul” por representar a Califórnia daquela maneira muito onírica, onde estranhas coisas acontecem. 

É um filme sobre solidão e sobre ser estrangeiro.

Sim. E o facto de ser português num país estrangeiro acarreta sempre alguma solidão, presumo. Até porque não fui de encontro a portugueses quando cheguei. Pensei que se eu iria para um país diferente eu tinha que me adaptar à realidade. Ir para outro país e procurar portugueses… não acredito que esse seja uma boa estratégia. 

No filme dizes que um emigrante ao invés de ganhar duas nacionalidades perde a única que tem…

Completamente. Muitas vezes as pessoas dizem que quem emigra passa a ter duas nacionalidades, mas acho que a que tínhamos se perde e acabamos por não ser de lado nenhum. Estamos sempre num exercício comparativo – quando estamos em Nova Iorque pensamos em Portugal e vice-versa. É um estranho exercício de perda: quando estamos num sítio só pensamos no que está do outro lado da margem. Por isso ficamos com a síndroma do emigrante, se vê muito – essa relação estranha e mal resolvida. O filme é um pouco a tentativa de resolver isso, desta angústia e desconfortos iniciais. No decorrer do processo encontro alguma serenidade, algum conforto, embora não total.

No filme há uma comparação um bocado brutal que representa Portugal como imobilismo e Nova Iorque como movimento.

(risos) As comparações que eu faço são sempre muito pessoais, pois é um documentário que presume um ponto de vista daquele Portugal que eu vejo. Obviamente Portugal não é tão imóvel quanto isso e nem Nova Iorque tão dinâmica. A questão é que quando eu venho para Portugal eu preciso de algum descanso. Nova Iorque é uma cidade que exige muito, é difícil acompanhar o ritmo. Portanto quando venho aqui necessito desse descanso. Assim usei a minha câmara para filmar aqui algo alusivo a este descanso. Por isso é que Portugal está representado daquela forma. As pessoas dizem ‘ah, mas está tão cinzento’, eu digo que está assim porque é aquilo que eu vejo, aquilo que eu preciso quando venho aqui. 

As pessoas acharam que era cinzento o teu retrato de Portugal?

(risos) Sim, acharam! Mas eu concordo com elas. É assim que eu vejo. O emigrante tem duas fases, uma de quando está lá fora e cria uma imagem de Portugal, uma ideia mágica, e depois, quando se vem de férias e se descobre que o Portugal real não corresponde a estas expetativas imaginadas. Há sempre esse choque, esse confronto, que começa logo no aeroporto… Demora um tempo até nos integrarmos novamente àquilo que é o ritmo da cultura portuguesa. As viagens a Portugal que eu retrato no filme foram pequenas, não tive tempo para essa apropriação cultural. Por isso a minha ideia de Portugal resulta deste confronto.

E lá foi alguma vez confrontado com as ideias que os norte-americanos fazem de Portugal?

Não, por acaso tive sorte porque os americanos não têm ideia nenhuma de Portugal. Eu digo que sou daqui e eles acham que é Porto Rico ou alguma coisa na América do Sul (risos). 

O filme exprime uma espécie de reconciliação tua com Nova Iorque. Demonstra ser uma espécie de aceitação da diversidade…

Sim, eu presumo que há um reconhecimento da diversidade, ao mesmo tempo que encontro de alguma forma o meu papel nesta diversidade. Percebo que é salutar, é bom encontrar gente diferente, assim como descubro de que forma posso me relacionar com as pessoas, como é que posso gostar delas até ao ponto em que eles passam a significar qualquer coisa para mim. Foi esse caminho, essa via sacra que eu percorri, esse percurso permanente. Como é que eu, como português, posso me enquadrar lá – com essa forma enraizada de pensar, essa culpa católica, esse pessimismo que não me é permitido ter lá. Os americanos não permitem que eu seja pessimista, que eu seja derrotista. Eles não permitem! (risos). Quando estou lá tenho que transformar a minha forma de ser. É interessante porque não é uma transformação violenta mas que acarreta algumas coisas boas. Lá sinto-me mais positivo, mais capaz de realizar projetos. 

Portanto tens uma postura mais positiva em relação à América.

Quando cheguei lá tinha um certo ceticismo em relação a eles, depois comecei a percebê-los e de certa forma admirá-los. A perceber a coragem que eles têm, a força de vontade, a forma como eles se relacionam com o trabalho, como percebem que é através do trabalho que conseguem chegar a algum lado. Não se queixam. É claro que às vezes falta cultura, falta sentido histórico. 

Acha que a Internet é o grande meio para contornar os bloqueios das formas tradicionais de distribuição?

Sem dúvida. O meu primeiro filme eu coloquei na internet e já teve 15 000 acessos. Estava disponível na internet e as pessoas ainda hoje vão vê-lo. Não fiz nenhum tipo de publicidade, tudo o que eu fiz foi colocar um link no Facebook e a partir daí as coisas começaram a acontecer. A internet é uma plataforma extraordinária.

Está a trabalhar em algum novo projeto?

Estou a trabalhar num filme sobre o fim do mundo. É também a minha impressão sobre Portugal – muito mais colorida e muito menos cinzenta. De alguma forma estou a me redimir do que fiz a Portugal neste filme (risos). Quero mostrar o que eu gosto em Portugal. O fim do mundo é um pretexto para a exploração daquilo que é o meu país.  

    

 

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