Entrevista a Gael Garcia Bernal, protagonista de «Não»

(Fotos: Divulgação)

A entrevista sucedeu há precisamente um ano, no Festival de Cannes. Mas apesar de ‘Não’ evocar o período que antecedeu o referendo contra Pinochet, em 1988, mantém hoje toda a atualidade. E aquilo que Garcia Bernal se queixa, queixamo-nos nós todos também. É a deceção da democracia. Gael fala, apaixonadamente, sem parar, sobre o filme. Assim fala um homem que antes de ser ator quis ser médico e filósofo.

Apesar de não ser chileno, o que sente ao tomar parte nesta questão tão particular e política?

Não sou chileno mas este é para mim um filme muito pessoal. Desde logo, porque todos podemos fazer paralelos com vários países, realidades diferentes e tempos diferentes. Há um paralelismo com o que se passa no México também. Em 1988 houve um golpe de estado civil. Foi o nosso acordar político. Mas há outro paralelismo. Não é nada que queira impor, mas é uma espécie de investigação na democracia. Há deceções e ambiguidades que se detetam.

Sim, este tempo de crise que vivemos em Portugal é também fértil a que aconteça este extremar de posições.

Sim, este é um filme que questiona o modelo económico imposto por Pinochet. E até agora no Chile ainda não existe uma educação gratuita.

Nota-se uma crise da democracia, não é?

Sim. Um paralelismo com a democracia e o que vejo acontecer com os mais novos. Eles votam e ficam desapontados. Por sinal, depois de rever o filme, fiquei a pensar que no jogo da democracia temos de ser cínicos. É uma representação de uma batalha que lida com questões muito importantes, pessoal e dolorosas. E no final não temos a resultados que queríamos…

Com foi trabalhar com o Pablo. Imagino que não seja nenhum ditador… (risos)

Nãããooo… (risos) Pelo contrário. É um dos realizadores mais colaborantes com quem já trabalhei. E quando vi o ‘Tony Manero’ quis logo trabalhar com ele. Mas quando o conheci fiquei ainda mais fascinado com ele. E só depois li o guião. É fascinante, porque é o tipo de pessoa que nos convida a colaborar no filme. Discutimos tudo entre nós. Foi interessante trabalhar no filme num modelo de campanha política. E onde se diz: “isto não vende!” Ou seja, temos uma campanha de marketing, seguindo as regras da publicidade. E o que acontece depois?

Qual é a sua opinião sobre a América Latina de hoje?

Eu vivo entre o México e Buenos Aires. Posso falar da América do Sul, mas acho que o mundo inteiro vive o mesmo dilema. Na América Latina vive-se uma sensação de identidade. Até porque está mais forte e não pode ser manipulada. Não sei bem por onde vamos, mas não é muito diferente da Europa. Esta crise derrotou o governo anterior, mas não sabe bem o que vai acontecer. Mas é em espanhol que sinto a minha identidade, que eu me quero exprimir mais e contar mais histórias.

Apesar de ser bastante eclético nas propostas que aceita, pois filma bastante nos Estados Unidos.

Pois, os EUA são aqueles que pagam mais (risos). É assim que se pode ganhar a vida sem ter de fazer uma telenovela. Era isso que teria de fazer no México se não tivesse esta independência financeira. Como sabe, no cinema não se paga muito.

Vai participar no projeto de Scorsese, ‘O Silêncio’?

Não sei, vamos ver.

Leu o livro sobre este padre português?

Sim, li o livro. Seria fantástico participar, mas não posso falar num filme que não existe… É melhor não agoirar…

É verdade que quis ser médico antes de ser ator?

Sim, queria ser médico e até filósofo. Mas uma greve de estudantes acabou por me conduzir para a representação. Irónico, não é?

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