Em When Lightning Flashes Over the Sea, Eva Neymann regressa a Odessa — a cidade onde filmou At the River (U reki, 2007), House with a Turret (Dom s bashenkoy, 2012) e Pryvoz (2021) — para captar o quotidiano de uma comunidade suspensa entre a normalidade e o medo. Com uma cidade ferida como cenário, seguimos a guerra nas ausências, nas fachadas destruídas, nos bombardeamentos e silêncios, e na vida das figuras que habitam a cidade portuária ucraniana.
Registando desejos, memórias e esperanças em meio à devastação, Eva Neymann — que esteve à conversa com o C7nema em Berlim — mostra a persistência de sonhar em tempos de escuridão.
Antes de mais, como está Odessa? O filme começa com essa pergunta — “Como estás, Odessa?” — e como começou a planear todas as histórias que vemos? Fez entrevistas, filmou primeiro e depois escolheu as personagens? Já tinha uma ideia definida?
Eu estava na Ucrânia quando a guerra — a grande guerra — rebentou. E, obviamente, percebi logo que tinha de fazer um documento desse tempo e lugar, para captar o espírito, sim, o espírito do momento. E claro, encontrei-me com amigos, falei com eles, com a minha tia e com familiares também.
Mas a protagonista mais importante do filme é a própria cidade. Por isso decidi ir para a rua, tentar ver o invisível, ouvir o que não pode ser ouvido, conhecer pessoas, contactar com elas, abrir-me e esperar que também se abrissem. E assim foi, tudo de forma espontânea.

Espontânea, portanto — encontrou pessoas que acabaram por se tornar o filme, tal como as vemos nele.
Sim, e a maioria dos protagonistas que se vêem no filme foi também a primeira vez que eu os vi.
Foi mesmo espontâneo. Registei o nosso encontro. Não estava nada preparado.
Nada foi preparado. Mas depois, durante a montagem, havia um guião? Ou uma espécie de tratamento que já tinha em mente?
Bem, escrevi um tratamento, claro — porque o filme precisava de financiamento. Para os fundos, tive de preparar uma proposta, tão boa quanto consegui. Mas sabia que a vida é sempre mais rica do que aquilo que se pode prever ou esperar.
Portanto, acabou por ser diferente. Desde o início sabia que haveria muitas personagens e que não haveria uma ligação directa entre elas. A única ligação é a cidade.
Eu caminho pela cidade. Essa estrutura estava clara. Mas quem iria encontrar? Com quem iria falar? De que forma? E sobre que temas? Quis deixar-me surpreender.
Durante quanto tempo filmou?
Comecei a filmar no outono de 2022 e continuei até 2024. Alguns encontros duraram apenas dez minutos. Outros, algumas horas. Talvez tenha visitado certas pessoas uma segunda vez.
E as personagens já viram o filme?
Algumas sim.
E o que disseram?
Gostaram. Espero ter tratado todos os protagonistas com respeito. Nunca os comprometeria com nada que não quisessem mostrar ao público.
Está tudo bem. Gostaram do filme. Aqueles que o viram… Só a minha tia disse que o filme era demasiado pesado.
A família é sempre… complicada (risos)
Sim, a família critica sempre. Seja o que for.
Como é fazer um filme, um documentário, num lugar em guerra — onde pode cair uma bomba ao seu lado? Como se vive e filma assim todos os dias?
Bem, foi arriscado, mas as pessoas à minha volta estavam no mesmo risco. As pessoas vivem lá. E se quero fazer um documentário, tenho de viver com elas. Todos têm medo. Eu também. Mas há algo de estranho nisso: acabamos por nos habituar. Há bombardeamentos à noite — é terrível, é mesmo terrível. Não se pode imaginar. Mas na manhã seguinte, simplesmente continuamos.
Saímos para a rua, tomamos café, marcamos compromissos, planeamos aniversários, casamentos, tiramos selfies, ouvimos música, compramos bilhetes para concertos, e por aí fora. É estranho, mas é assim.
Acabou por se tornar normal?
Não diria que se tornou normal — tornou-se uma loucura. E todos enlouqueceram. Sim. E toda a gente está consciente de estar a enlouquecer. É isso.

E como é para si ver esta guerra continuar? Ainda há esperança de que acabe?
Acho que há sempre esperança. O objetivo do filme é manter e dar esperança.
E claro que eu também a tenho. Mas, para além disso, não me sinto suficientemente competente para fazer uma declaração política.
Mas, enquanto cineasta, vai continuar a trabalhar sobre estas questões ligadas à guerra, ao quotidiano em tempos de guerra?
Enquanto cineasta, antes e depois deste filme, trabalho sobre a humanidade. Apelo à humanidade. Tento fazer o meu melhor para preservar a dignidade — do cinema, dos protagonistas e também do espectador. E não é preciso filmar durante uma guerra para ter isso no foco.
Há planos para exibir o filme na própria cidade?
É uma questão complicada. Eu adoraria. E os cidadãos de Odessa gostariam de o ver, tenho a certeza. Mas não sei se é possível, porque os protagonistas falam russo. Quase todos. Só uma pessoa fala ucraniano. Uma fala iídiche. Há também uma mulher da Geórgia.
Mas não é permitido mostrar filmes em russo. Talvez haja uma hipótese, porque não é uma produção ucraniana, é estrangeira. Por isso talvez seja possível fazer legendas em ucraniano e então seria viável. Mas não tenho a certeza.
Falando agora de estética: como operadora de câmara que vai para a rua filmar, como construiu o seu estilo, a sua forma de filmar? É pura intuição?
Só intuição. Na maioria das vezes, estou errada.
E como sabe que a outra escolha seria certa?
Não se sabe. Não há como saber. É pura intuição. E muitas das coisas falharam, não consegui filmá-las. É assim. Mas adoro observar. E fico totalmente feliz. É por isso que amo o documentário.
Faz-me feliz ver pequenos milagres acontecerem diante da câmara — e poder fixar o tempo. É maravilhoso. Dá-me… não sei — adrenalina.
E vive por essa adrenalina.
Sim. Talvez seja isso.
Há muitos realizadores que adoram quando acontecem “acidentes” no set. Mesmo na ficção, deixam os actores improvisar e tentam capturar esses momentos.
Sim. Eu faço não só documentário, mas também ficção. E nos filmes de ficção tendo a querer controlar o set, controlar tudo.
Mas o documentário ensinou-me que a vida é mais rica do que aquilo que eu posso imaginar ou controlar. Preparo-me sempre a fundo, mas sei que a vida é mais rica — e isso é maravilhoso.
Então prefere documentário a ficção?
Não posso dizer isso. Mas saber que a vida é mais rica dá-nos esperança — não só no cinema, mas na vida.
Voltando à questão da língua: as personagens falam russo, georgiano… portanto, não sabe o que esperar se o exibir lá. Estava consciente disso antes?
Sim.
E mesmo assim avançou. Foi uma decisão difícil ou óbvia — simplesmente fez o filme que queria fazer?
Fiz o filme que queria fazer. Para mim não faria sentido de outra forma. Adoro fazer cinema, mas o objetivo não sou eu. Nem o filme. Só quero fazer o filme que tenho de fazer. E odeio estar sob pressão.
Claro, existe essa tensão no ar — por causa da guerra, da língua, de tudo isso — mas continuei a esperar. E continuo a esperar. Ainda tenho esperança de que funcione.
Falou de “milagres”, desses momentos que acontecem nas ruas — tentou também escapar à imagem da vítima, da Ucrânia como vítima?
Sim. Sempre. Não só neste filme, mas neste em particular quis evitar ver as pessoas apenas como produtos das circunstâncias.
Porque assim o artista usa a situação para fazer arte. Eu quis fazer o contrário — dar validade à pessoa através do poder da arte.
Já tem um novo projecto? Está a trabalhar em algo?
Secretamente.
Ah, é supersticiosa?
Sim, sou. Quero apelar à humanidade. Planeio um documentário, pela primeira vez, não em Odessa — talvez em Berlim — e o meu apelo continuará a ser à humanidade.
O tema vou mantê-lo em segredo, não o quero divulgar. Também tenho um projeto de longa de ficção — e esse nada tem a ver com a guerra.
Portanto, a vida continua.
Sim.

