Julio Bressane apresenta Pitico no Festival do Rio, um ensaio fantasmagórico sobre Hermes Ayres Azevedo, com Paulo Betti no papel principal.
Pouquíssimos realizadores latino-americanos mantêm uma presença internacional tão regular como Julio Bressane. Recentemente, o cineasta levou ao Filmfest München, na Alemanha, Pitico – Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) – Historiador da Província, novo ensaio poético de uma obra que há mais de cinco décadas circula por festivais estrangeiros.
Ao longo desse percurso, Bressane passou por Cannes com Filme de Amor (2003), apresentado na Quinzena dos Realizadores, por Veneza com Cleópatra (2007) e A Erva do Rato (2008), além de Locarno e outros festivais europeus. O seu cinema tornou-se uma referência da cinefilia internacional pela forma como cruza invenção formal e pensamento sobre os próprios signos do cinema.
Pitico mantém essa investigação, mas aproxima-a agora do terror. O protagonista é Hermes Ayres Azevedo, historiador apaixonado pela pequena cidade do interior onde vive e leitor de cartas e documentos antigos. Procura nas palavras memórias, emoções e vestígios de vidas desaparecidas, numa relação que o filme estende também às árvores e ao espaço que o rodeia.
Quando Pitico morre, essa presença não desaparece por completo. Bressane transforma então a fantasmagoria que há muito atravessa a sua obra num verdadeiro filme de fantasmas, com o historiador a assombrar as personagens de Josie Antello e Cláudio Mendes. A mudança faz-se sem quebrar a quietude do filme, construída através de silêncios prolongados e de uma economia sonora que dá a cada voz, respiração ou gargalhada um peso quase sobrenatural.
A engenharia sonora é assinada por Bressane, Rodrigo Lima e Damião Lopes, este último também responsável pela edição de som e mistura. Na imagem, Pablo Baião trabalha com enquadramentos rigorosos que fixam corpos, árvores, interiores e vazios sem procurar ornamentação.
Paulo Betti interpreta Hermes num registo contido, quase coreográfico, deixando que o rosto e o corpo substituam muitas vezes aquilo que o diálogo não explica. O resultado aproxima Pitico de uma reflexão sobre finitude, permanência e sobrevivência das imagens.
Há um antecedente próximo nesta deriva espectral. Em janeiro, Bressane abriu a Mostra de Cinema de Tiradentes com a curta O Fantasma da Ópera, onde a figura do fantasma já servia para pensar aquilo que permanece depois do desaparecimento. Em Pitico, essa ideia ganha agora uma dimensão historiográfica: os mortos continuam presentes através do que escreveram, imaginaram e deixaram para trás.


















