10 da manhã, Hotel Tivoli, em Lisboa. É-me apresentado Christophe Barratier, realizador do filme Les Choristes. Simpático, apertou-me a mão e sorriu, falando em francês. Fala a língua? Um pouco, muito pouco… Apreensiva quanto a fazer a entrevista em francês, perguntei-lhe sobre a possibilidade de nos entendermos em inglês. Com ar cordial, mirou-me e confessou que tinha maior fluência em espanhol… e foi nesta língua (que fala perfeitamente) que seguiu o nosso diálogo.
Os Coristas foi a tua primeira longa-metragem; antes tinhas feito uma curta e trabalhado em produção. Foi difícil essa passagem?
Trabalhei em produção, de facto, e realizei anúncios. É sempre complicada essa transição porque é difícil fazer o primeiro grande filme. É verdade que já era conhecido no meio do cinema e tinha a confiança de atores de renome, como Gérard Jugnot (Mathieu). Essa confiança ajudou-me muito a obter financiamento. Mas em França é sempre complicado fazer cinema: convencer a produzir um filme não é fácil, e há sempre os olhos postos no estrangeiro. Tive a sorte de esta ser considerada uma película “barata”, o que facilitou o financiamento.
Este filme foi um remake do de 1945, La cage aux rossignols…
Bem, não é bem um remake… quer dizer, é a palavra certa, mas eu não o considero um remake, foi mais uma inspiração muito livre. Quando vemos os dois filmes há coisas parecidas, de facto: a base é a mesma, um homem que ensina música numa escola e que faz as crianças cantar. Mas o original é muito mais católico na mensagem, e o meu trabalho com as crianças é totalmente diferente. Vejo o meu filme como a minha história, porque quando vi o original fiquei surpreendido com o paralelismo com a minha vida. Eu fui uma criança que, embora não tivesse sido abandonada, vivi com a minha avó no campo, porque os meus pais eram divorciados e atores que viajavam muito. Para eles era mais fácil não me levarem atrás. Durante quatro anos vivi com a minha avó e, como muitas crianças que não vivem com os pais, estava um pouco deprimido, triste, sensível… Até que encontrei um professor de música. A música mudou a minha vida. Esse homem deu-me confiança em mim mesmo e no meu talento, ajudou-me a entrar no Conservatório e foi o meu mentor. Assim, Os Coristas parte do primeiro filme, mas é também a minha história.
Foi então assim que tiveste a ideia de o fazer?
Não, não… Eu estava a realizar a curta e depois anúncios. Procurava escrever um argumento, mas quando escrevia era sempre sobre a minha infância. A união da música com o cinema era inevitável. O processo criativo acabou por ser natural.
Escreveste dois temas para a banda sonora. Inspiraste-te na tua experiência musical?
Sim, claro. Sei escrever música e escrevo de vários estilos. Já compus música clássica, mas também, quando era guitarrista, escrevia canções ao estilo de Bob Dylan ou Hotel California (canta). Tenho vasta experiência em compor, nem que seja só para mim. Quando trabalhei com Bruno Coulais, ele disse-me que faltavam duas músicas das seis previstas e pensei: “vou fazê-las eu mesmo!”. Foi um acaso, mas também por falta de dinheiro: escrevi todas as letras porque não podia pagar a alguém para o fazer.
Também escreveste o guião, em parceria com Philippe Lopes-Curval. Como foi essa experiência?
O guião escrevi eu; com o Philippe trabalhei os diálogos. Não foi difícil, mas deu muito trabalho! Trabalhámos durante 16 meses, com quatro versões diferentes. É mais ou menos o tempo normal para um guião. O habitual é um ano, ano e meio. Já em Hollywood demoram quatro ou cinco anos. Por isso a qualidade dos guiões americanos é geralmente muito boa: trabalham-nos durante muito tempo.
A escola onde se passa a ação é muito peculiar. Tiveste muitos problemas em encontrá-la?
Sim, absolutamente. Nos registos da época, a escola era mais normal, pequena, até bonita. Mas eu queria transmitir a ideia de prisão: grande, pesada, com muros altos que faziam as crianças parecer minúsculas. Vi muitos locais, mas sempre fui atraído por castelos. Depois da Segunda Guerra Mundial havia muitos órfãos e crianças cujos pais não tinham como sustentá-los. O governo francês alugava castelos abandonados para instalar escolas. Quis mostrar isso: sessenta crianças confinadas num castelo que mais parece uma fortaleza.
E como foi trabalhar com tantas crianças, sem experiência de representação?
É preciso dar-lhes confiança. O mais difícil foi com as que tinham papéis de destaque, como Jean-Baptiste Maunier (Morhange). Ele é cantor, mas nunca tinha representado. Tive sorte em encontrá-lo apenas três meses antes da rodagem. Fizemos muitas leituras do guião para lhe dar tempo, contexto e personagem. As crianças são como os animais: é preciso paciência e preparação (risos). Além disso, só podíamos filmar seis horas por dia. Mas confesso: é mais fácil trabalhar com crianças do que com certos atores!
Quais foram as maiores dificuldades da rodagem?
A primeira semana foi duríssima. É como ser capitão de um navio enorme: gerir crianças, adultos, técnicos… e o calor. Filmámos no verão de 2003, que foi infernal em França. Estava muito nervoso, mas a partir da segunda semana encontrei um ritmo normal. É como no provérbio: depois da tempestade vem a bonança.
Grande parte da ação remete a 1949, em flashback. Porque situaste o filme em 2004?
Porque não queria que fosse só a história de 1949, mas também a de um homem a recordar a infância. É uma análise, quase uma terapia. Esse homem, agora rico e famoso, quase não se lembra do professor que foi tudo para ele. Para mim, era importante mostrar como pequenas passagens marcam uma vida. Isso tocou o público: identificam-se com as crianças, sobretudo por estarem “presas”. Quis também mostrar às crianças de hoje como era naquela época e lembrar os adultos do passado.
Pepinot, o menino que espera o pai todos os sábados, é uma personagem muito marcante. Como surgiu?
É muito simples: eu mesmo esperei muitas vezes o meu pai à porta da escola. E ele nunca me foi buscar. A história do Pepinot é, em parte, a minha.
O filme foi selecionado para festivais como Montreal e Karlovy Vary. Esperavas esta receção?
Mais do que os festivais, importa-me o público. Os Coristas foi vendido para cerca de 60 países, de Taiwan a Portugal, do Brasil ao México, até à América do Norte. Em França, quando há um grande êxito, parece algo apenas “nacional”. Mas ver o filme espalhar-se assim é ótimo — e posso viajar com ele para países que nunca conheci!
E que impressão tiveste de Lisboa?
Adorei! Acordei às 6h30 para passear um pouco. França e Portugal têm uma relação íntima, sobretudo pela emigração dos anos 70. Tenho muitos amigos portugueses em França que me perguntam por que nunca tinha vindo cá… Desta vez não posso ficar mais, porque sigo para Faro. Mas quero voltar!
O sucesso de 8 milhões de espectadores em França deixou-te pressionado para o próximo filme?
Quando fiz Os Coristas nunca pensei nesses números. Agora, sim, se começar a pensar nisso é uma má ideia (risos). É mais fácil fazer um segundo filme depois de um êxito do que de um fracasso. Claro que sinto expectativa — os outros têm-na em mim e eu em mim mesmo.
Quais são os teus próximos projetos?
Ainda não acabei com Os Coristas: estamos na fase de promoção na América do Norte e no Japão. Mas já escrevo o próximo: passa-se nos anos 30, num bairro popular de Paris. Três homens, desempregados há muito, decidem criar um music-hall e ser artistas. No início é um desastre, mas pouco a pouco melhoram e chegam ao sucesso.
Quando lhe disse que tinha visto o filme numa sessão normal, aberta ao público, foi a minha vez de ser bombardeada com perguntas: “Gostaram? Aplaudiram? Estava muita gente? A sério que gostaram?” Barratier parecia um dos seus coristas! Despediu-se com um simpático beijo na face e comentou para a organização: “Entendemo-nos muito bem em espanhol!”
Cátia C. Simões

