Estreado mundialmente na Berlinale, de onde saiu acompanhado por elogios, Allegro Pastell atravessou o Atlântico para integrar a programação do Festival do Rio e tem ainda duas sessões na cidade: segunda-feira, 5 de outubro, às 17h45, no CineCarioca José Wilker 2, e sexta-feira, dia 9, às 16h15, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 3.
A realizadora alemã Anna Roller, revelada nas longas-metragens por Dead Girls Dancing (2023), conversou com o C7nema, no bar do hotel Grand Mercure Copacabana, sobre esta adaptação do romance de Leif Randt e sobre a anatomia afetiva de Tanja e Jerome, um casal millennial que tenta conciliar independência e compromisso. Roller prepara já a sua próxima longa-metragem, Manatee.
Interpretados por Sylvaine Faligant e Jannis Niewöhner, Tanja e Jerome vivem entre Berlim e Maintal, sustentando a relação através de mensagens, visitas e uma sofisticada gestão da própria liberdade. Quando chegam à casa dos 30 anos, porém, o conforto começa a revelar as suas fissuras. Roller filma essa crise recusando os mecanismos tradicionais da comédia romântica. Allegro Pastell é antes uma espécie de análise terapêutica do amor contemporâneo, na qual até as cores, as roupas, as casas, os ruídos e os silêncios parecem cuidadosamente administrados pelas personagens.
Nesta conversa, Anna Roller explica o olhar de crónica que atravessa a narrativa e fala sobre conforto, privilégio, relações contemporâneas e a construção visual de um filme em que até a aparente espontaneidade foi cuidadosamente pensada.
O filme nasce de um romance e o som tem nele uma importância invulgar. Como encontrou uma tradução cinematográfica para a escrita de Leif Randt?
É interessante começar pelo som, porque em todos os meus projetos anteriores fui eu quem escreveu os argumentos e normalmente escrevo muito sobre as paisagens sonoras. Para mim, o som é aquilo que pode afetar emocionalmente o espectador de maneira mais intensa. Aqui, o autor do romance escreveu também o argumento, o que foi uma situação muito pouco habitual para mim. Tentei encontrar uma tradução para a maneira muito específica como ele escreve, utilizando as ferramentas que tenho no cinema. Isso inclui, obviamente, as imagens, mas também o som. Tudo neste filme é muito pensado, muito cuidadosamente construído. Não é uma representação naturalista das pessoas em Berlim.
Tanja é escritora e Jerome é web designer. São duas profissões ligadas a gramáticas específicas, uma da palavra e outra da imagem. Ao mesmo tempo, parecem tentar desenhar uma relação perfeita. Que ideia de perfeição perseguem?
Procuram uma coisa praticamente impossível, mas que reconheço em muitas pessoas da minha geração. Querem segurança e liberdade ao mesmo tempo. Querem que alguém se comprometa completamente com elas e esteja presente, mas, simultaneamente, querem conservar a liberdade para explorar. Para isso funcionar, seria necessário muito trabalho, muita conversa e estar em contacto com os próprios sentimentos. É justamente aquilo que lhes falta. Quando estão juntos, não falam realmente sobre o que sentem. Só encontram as palavras quando escrevem aqueles e-mails cuidadosamente construídos. Há uma palavra importante nesse universo: conforto.
Até que ponto o conforto pode também ser uma prisão?
No livro, “conforto” era realmente uma palavra muito importante. É algo que só pessoas muito privilegiadas podem estabelecer como objetivo principal, porque outras estão simplesmente preocupadas em conseguir pagar a renda, por exemplo. Tanja e Jerome vivem dentro dessa pequena bolha privilegiada, muito preocupada também com as superfícies e com determinadas superficialidades. E, de certa maneira, o objetivo deles é evitar o conflito.
Podemos chamar a Allegro Pastell uma história de amor? Há amor, mas o filme parece mais interessado em analisá-lo do que em romantizá-lo. O que há de romântico aqui?
Não é uma rom-com, de modo nenhum. Acho que é muito mais uma análise do amor, quase uma análise terapêutica, do que propriamente uma história de amor convencional.
O cinema de Hollywood ensinou-nos que uma relação enfrenta um conflito e prova a sua força ao superá-lo. O seu filme recusa essa estrutura. Como falar de amor numa época em que relações, amizades e até conceitos de família parecem cada vez mais fluidos?
Aquilo que conhecemos dos filmes de Hollywood é essa ideia de que uma boa relação encontra um conflito e depois consegue chegar a uma solução. Uma relação que funciona é aquela que supera o conflito. Essa é a grande narrativa de Hollywood. O que tentei fazer foi aquilo a que chamo um filme “fatia de vida”. Mostra um estado, um momento muito específico destas pessoas, que são definidas também por serem millennials, por estarem a chegar aos 30 e poucos anos. No caso de uma mulher, existe ainda a questão decisiva de saber se terá ou não filhos. O filme não quer oferecer uma solução para a história de amor no final.
Essa “liquidez” acaba por ser o próprio motor da relação?
Sim. E só depois de a relação terminar é que eles conseguem chamar-lhe uma história de amor. Enquanto vemos o filme, nem sequer sentimos que estejam loucamente apaixonados. Tudo é muito atenuado. Não existe uma grande amplitude emocional. Isso está também no título, Allegro Pastell: “pastel” significa que não existem cores excessivamente brilhantes. Tudo é moderado, tudo é confortável. Até quando consomem drogas, tudo permanece controlado. Não há excesso. Não há pico.
Berlim e Maintal não funcionam apenas como cenários. A geografia participa na dramaturgia e parece explicar até a maneira como estas personagens constroem a própria imagem. Como funciona essa estrutura geográfica?
Tanja vive em Berlim, em Neukölln-Kreuzberg, uma região onde também existe muita pobreza. Mas pessoas com determinados privilégios transformam aquilo num estilo de vida: preferem estar ali, numa zona mais áspera, em vez de viver numa área elegante. Depois sentam-se num café onde há Wi-Fi e podem beber um cappuccino. O conforto reaparece.
Em contraste, existe Maintal, nos arredores de Frankfurt, onde Jerome vive na casa dos pais. Só que ele redefine até o facto de morar com os pais como um determinado estilo de vida. Coloca mobiliário sofisticado naquela casa e reinventa a vida no bungalow. Como estão tão obcecados com superfícies, os lugares onde vivem dizem muito sobre a maneira como se veem.

Há muito cinema jovem interessante a surgir da Alemanha, mas simultaneamente ouvimos falar de uma indústria em dificuldades. Como vê esse paradoxo?
Existe muito cinema excelente, sobretudo cinema jovem. Veja-se Mascha Schilinski com Sound of Falling, que conseguiu reconhecimento internacional apenas com a sua segunda longa-metragem. Há muito talento. Mas a realidade é que a indústria não está assim tão bem. Se os grandes projetos já encontram dificuldades, torna-se ainda mais difícil para os pequenos, porque o dinheiro disponível vai primeiro para as grandes produções.
Ao mesmo tempo, vejo pessoas a regressarem a uma abordagem mais artesanal. Neste verão, por exemplo, rodei um filme praticamente sem orçamento, mas com muitas pessoas talentosas dispostas a participar na experiência. Fazer cinema é incrivelmente caro e neste momento não existe muito dinheiro disponível. Apesar disso, há imensa gente que quer continuar a fazer filmes.
Visualmente, Allegro Pastell parece económico, mas essa aparente simplicidade é muito construída. Como chegou a essa linguagem?
É curioso usar a palavra “naturalista”, porque eu não vejo o filme dessa maneira. Trabalho há bastante tempo com o meu diretor de fotografia, Felix Pflieger, e procurámos uma linguagem visual que fizesse sentido em relação à escrita do romance, uma espécie de tradução. Falámos muito sobre planos que parecessem um aquário para o qual estamos a olhar. Existe aquele mundo, as personagens vivem dentro dele e nós, espectadores, conseguimos espreitá-lo. Mas não pertencemos àquele mundo. Não estamos ali com uma câmara na mão a acompanhá-las. Existe sempre um olhar exterior.
E isso passa também pelas cores?
Muito. Para mim, é fundamental a colaboração entre todos os departamentos que constroem o aspeto visual: direção de arte, maquilhagem, figurinos. Queríamos que tudo fosse estilizado sem parecer artificial. Conversámos muito sobre as paisagens cromáticas. Há mundos em tons pastel, mas também escolhas muito específicas de vermelho e azul para as duas personagens. Queríamos algo estilizado e cuidadosamente construído, mas sem que isso saltasse aos olhos do espectador.
Em Berlim, por exemplo, toda a gente veste preto. Essa seria a versão naturalista. Nós criámos outra coisa porque o filme também funciona como memória. Passa-se em 2019 e é como se eles estivessem a olhar para trás, para uma história a que agora chamam “a sua grande história de amor”.
Depois de Allegro Pastell, para onde segue o seu cinema?
Rodei neste verão um filme experimental, novamente com Jannis Niewöhner, que interpreta Jerome, e com Katharina Stark. E espero filmar no próximo ano Manatee, um projeto sobre um grupo de mulheres que trabalha em cuidados paliativos, acompanhando pessoas que estão a morrer.

