Depois de ter realizado «André Valente» (2005) e «Daqui Pra Frente» (2007), Catarina Ruivo regressa com Em Segunda Mão, um filme marcado por representar a última participação no cinema do falecido Pedro Hestnes.
No filme, seguimos Jorge, um escritor de literatura erótica, que, após ouvir um tiro no quarto ao lado da pensão onde está, se vai transformando pouco a pouco na pessoa que pensa que aí se matou.
O c7nema teve a oportunidade de falar com Catarina Ruivo por ocasião do IndieLisboa 2012. Aqui ficam as suas palavras
Como surgiu a ideia para realizar este filme e em particular o conceito da troca/roubo de identidade?
O argumento foi escrito em duas fases, a primeira ideia surgiu num sonho. Eu estava em Paris para a estreia do meu primeiro filme “André Valente”, a dormir num hotel e acordei a meio da noite com o que me pareceu ser o som de um tiro no quarto ao lado, e não sei se já acordada ou ainda a sonhar pareceu-me ouvir através da parede o som de uma voz saída de um gravador que dizia “Parabéns André, espero que tenhas uma boa vida”. Já não dormi, achei que era um bom inicio para um filme. Cheguei a Lisboa e escrevi as primeiras dez cenas do guião de uma só vez. Mais tarde comecei a pensar já com o António Pedro Figueiredo sobre o que era esta história e quem era este homem. E quis falar sobre o desejo que às vezes nos assombra de sair de nós, de ser outro, um outro que julgamos feliz, porque a felicidade, achamos, está sempre onde não estamos – Ali, ali a vida é jovem e o amor sorri (Fernando Pessoa, Não sei se é sonho, se realidade). Mas e se conseguíssemos, seríamos felizes? E passávamos a ser esse outro, ou seríamos ainda nós? O que é que nos faz ser nós?
Não se preocupa com a leitura que se pode fazer de uma masculinidade retrógrada que se sente presa com as relações amorosas e a família?
Jorge é alguém que no fundo ainda não começou a viver, que olhou sempre para o mundo como um espectador e que tem uma visão idílica do amor. A Laura por quem Jorge se apaixona não existe, é uma projecção do que ele deseja. Mais tarde quando já vivem juntos, Laura não aceita Jorge como ele é, quer antes moldá-lo à imagem que tem do que um homem deve ser. Jorge sente-se preso na sua nova vida familiar, porque Jorge e Laura nunca se chegam a conhecer e a solidão a que ele tentou fugir mantém-se. Ambos estão presos a imagens idealizadas da vida e dos outros.
Como foi trabalhar com tantos atores conhecidos (Cintra, Grosso,…)? Já tinha os atores em mente quando escreveu o argumento em parceria com o António Pedro Figueiredo?
A maioria dos atores deste filme são pessoas com quem eu já tinha trabalhado e as personagens foram escritas desde o início a pensar neles.
Esta foi uma das últimas produções do Pedro Hestnes. O que sente hoje em dia ao vê-lo em cena?
Fiz o meu primeiro filme com o Pedro ainda no conservatório e quis sempre voltar a filmar com ele. Fomo-nos encontrando ao longo dos anos, vi-o envelhecer e perder o cabelo mas manter sempre aquele ar de adolescente que não controla muito bem o corpo nem está à vontade no mundo. O Pedro dá às personagens que representa um desconforto, uma inadequação, mas ao mesmo tempo uma fragilidade e uma candura quase infantil. Escrevi este personagem a pensar no Pedro. Para mim nunca foi uma questão fazer este filme com outro ator.
A morte do Pedro é uma coisa tão brutal que não sei falar sobre isso.
Até que ponto é importante para o Em Segunda Mão a participação no IndieLisboa?
Acho que os filmes existem na medida em que são vistos. Os festivais nacionais e internacionais são uma grande oportunidade de aumentar a visibilidade dos filmes.
Como vê o cinema português no que se refere à sua imagem junto do grande público?
Como Jorge e Laura (neste filme): os dois não se conhecem e o seu desencontro resulta de uma série de equívocos e ideias feitas.
Como encara o futuro do cinema português a indefinição em relação ao futuro no que diz respeito aos apoios do ICA?
Estamos no início de Maio e este ano os concursos ainda não abriram, é todo um sector que fica paralizado. O efeito é o mesmo que fechar várias fábricas. Acho grave o desinvestimento deste governo na Cultura, em alturas de crise é importante pensar: os filmes, o teatro, a arte, para além de nos emocionar ajuda-nos a pensar e a pôr questões.
Tem algum novo projeto em mente? Um projeto de sonho?
Já estou a escrever um novo argumento, mas ainda é muito cedo para falar sobre ele.
(entrevista originalmente publicada em maio de 2012)

