Entrevistas com Carla Chambel e Paulo Pires, protagonistas de «Quarta Divisão»

(Fotos: Divulgação)

São raras as apostas no cinema policial em Portugal e o novo filme de Joaquim Leitão vem colmatar essa lacuna. Nos papéis principais estão Carla Chambel, a desempenhar uma inspetora policial durona e obstinada, e Paulo Pires, pai do menino desaparecido que dá início a história e cuja investigação policial vai revelar que ele é mais do que parece. Os atores conversaram com o C7nema sobre a entrada no projeto, a construção das suas personagens e a abordagem temática do filme. Com a paralisia da produção nacional, nenhum deles tem projetos cinematográficos no momento, mas Paulo Pires entra na produção espanhola “Un Suave Olor a Canela”, ainda sem data de estreia.

Entrada no projeto

Carla Chambel: O Tino (Navarro, produtor) e o Quim abriram um casting. Não sei quantas pessoas o fizeram. Penso que eles já teriam uma ideia mais precisa daquilo que queriam e selecionaram algumas pessoas para o fazer. Eu fui uma delas. E fiquei ansiosamente à espera, até porque não sabia do que se tratava a história, pois não tinha lido o argumento. Tivemos acesso a algumas cenas para preparar mas não ao guião todo. Também me foi dado um briefing da personagem, que era central e interpretá-la seria naturalmente um grande desafio.

(Quando soube da resposta) Foi uma surpresa. Fiquei muito feliz. Eu já tinha trabalhado com o Quim e sabia que de alguma forma ele já conhecia o meu trabalho, a minha natureza, a forma como trabalhar comigo. Mas, ao mesmo tempo, eu sempre achei que seria um pouco improvável ser escolhida porque não é um papel que habitualmente me entreguem para as mãos. Ou seja, uma mulher mais dura, mais crua, mais cerebral. Eu estou habituada a receber mais papéis românticos, doces, maternais. Fiquei muito feliz por ter essa possibilidade de contrastar o meu percurso com um papel importante e tão diferente. E voltar a trabalhar com o Quim é muito bom.

Paulo Pires: Quando me ligaram da produtora eu fiquei muito contente porque já conhecia o Joaquim Leitão. Já tinha trabalhado com ele, gosto muito dele como realizador e, portanto, fiquei logo muito feliz. Depois recebi o guião e também gostei muito, achei que ele era um ponto de partida muito interessante para um filme.

As personagens

Carla Chambel: Embora o espectador só venha a acompanhar a vida profissional dela, eu não entendo que aquilo seja ela. Eu construí a personagem a pensar que é uma fase da sua vida. Não sei se ela tem pais, irmãos, namorados. Acho que ela não tem namorado naquela altura, está naquela fase totalmente dedicada à profissão, empenhada numa missão de chegar sempre à verdade até onde ela consiga ir.

Mas acho que há ali qualquer coisa, um pano de fundo, uma nuvem qualquer, sobre a qual são dados vários sinais ao longo do filme e onde percebemos que, embora ela seja uma pessoa muito correta e em defesa da verdade, por vezes tem reações e fala de coisas que percebemos que a perturbam e interferem às vezes com as decisões mais corretas. Isso dá uma riqueza à personagem que não é habitual no cinema português. Ela não é linear, ela é humana. Tem defeitos e qualidades.

Paulo Pires: Quando li o guião também impressionado com a dureza daquele personagem e com o percurso dele. Era um desafio no bom no sentido, pois ele não era vazio. Antes pelo contrário: apesar de se trabalhar numa grande contenção ele vivia um grande conflito interior – pois além de ser o vilão da história, com todas as maldades e a carga negativa, ele acabava por ser também uma vítima. Ele não era um bandido qualquer, tinha uma relação de afeto muito forte com o filho. Não é só um agressor como também um agredido – pela própria família que também é vítima dele.

Um filme policial com uma temática social

Carla Chambel: O filme está centrado num problema atual, que são as dificuldades financeiras da polícia. Quando começa eles estão numa manifestação pelos seus direitos. Percebemos que eles vivem em dificuldades, inclusive sem ter dinheiro para comer. Depois existe a questão do desaparecimento de crianças, que é o tema mais fulcral – para a seguir caminhamos para outros, como a pedofilia e a violência doméstica.

Acho curioso que o filme aborda a violência doméstica não de uma forma estereotipada, mas sim numa versão transversal. Temos um caso num extrato social mais baixo, mas, depois acabamos por presenciar num meio (da elite) onde não é muito habitual falarmos – nem na comunicação social. Acho também muito interessante que o público possa abrir uma janela para essa realidade que existe e que é muito mais comum do que nós imaginamos.

Paulo Pires: As coisas não são óbvias conforme muitas vezes parecem. Gostei muito da história, da forma como se lança esse ponto de partida – primeiro contar a história de uma criança que desaparece, mas depois ela tomar vários caminhos e fazer o espectador pensar “é aqui que se vai resolver”? Mas não, continua e vai para outro sítio. Portanto, o filme sob esse ponto de vista também é muito interessante.

E produzir um filme deste género não está só na abordagem, na tentativa de apenas fazer um policial à americana, não está concentrado apenas no efeito, mas no conteúdo. Não é preciso ver um carro a explodir, não faz falta ao filme. Pelo menos como espectador acho que nada disso faz falta. Além do mais “4ª Divisão” está centrado não só na investigação mas também em questões que, no fundo, preocupam a nossa sociedade. Fala em pedofilia, em violência doméstica.

Cinema em Portugal

Carla Chambel: A sustentabilidade do cinema português passa por não estar dependente de um só financiador. Mas para isso teriam que se estimular os mecenas, que seriam as empresas, que tinham de acrescentar o investimento na cultura como uma das suas diretrizes. As multinacionais, por exemplo, que têm dinheiro a rodo e não sabem o que fazer dele, poderiam ter essa abertura. Acho também que tem que haver esse equilíbrio entre o cinema dito mainstream e o de autor porque se o cinema comercial leva as pessoas às salas pode ajudar a despertar no público a curiosidade para ver algo mais autoral. Um não vive sem o outro e é importante haver cinema mais leve, comédias, assim como filmes mais documentais. Desde que tenham qualidade qualquer registo é bem-vindo.

Paulo Pires: Os meus dois primeiros trabalhos foram no cinema e é aquilo que eu mais gosto de fazer. Não escondo. Tenho imensa pena que o cinema em Portugal esteja tão parado. Apesar das dificuldades para se filmar em Portugal, curiosamente tem-se feito coisas boas. Em festivais, por exemplo, tem funcionado muito bem. Este é um exemplo de um tipo de cinema que se pode fazer em Portugal, um filme policial.

Un Suave Olor a Canela

Paulo Pires: É um filme que fiz em Espanha que ainda não estreou e deverá ir ao Festival do Cairo. Aqui faço um italiano que é dono de um restaurante e tem uma relação de amizade com uma artista plástica. São dois mundos completamente diferentes, onde não chega a existir uma relação amorosa porque nada se consuma. Ela é muito introvertida e ele é mais extrovertido, muito social, muito dado aos prazeres da comida, da conversa, de um bom vinho, da música. Foi uma experiência muito gira.

 
 
 
 
 
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