Entrevista a Luís Alves, realizador de «A Cova»

(Fotos: Divulgação)

A propósito do lançamento da curta-metragem “A Cova” no Youtube, o c7nema falou com o realizador Luís Alves – um realizador que também é cinéfilo e um dos mais ativos e presentes criadores independentes do nosso país. «A Cova» revela-se uma proposta curiosa e singular: num plano-sequência de 12 minutos seguimos como dois irmãos – rufias e criminosos – tratam de fazer desaparecer um cadáver… mas depressa percebem que a sua situação é bem mais complicada do que o pensavam.

Com Ivo Canelas no principal papel, «A Cova» estreou no Fantasporto mas encontrou consagração nos festivais emergentes de curtas-metragens que tem vindo a conquistar público no nosso país: venceu o Shortcutz Lisboa (abril 2011), recebeu o 2º prémio no Farcume (Festival de Curtas-Metragens de Faro) e foi o grande vencedor dos Prémios CinEuphoria 2012.O c7nema falou com o realizador Luís Alves a propósito do lançamento do filme no Youtube, esta semana (podem vê-lo no fim da entrevista).

De onde surgiu a história de ‘A Cova’?

A ideia surgiu daquelas situações à «Goodfellas» ou «Sopranos», dois canalhas que têm de despachar um cliente. Pensei, que interessante seria fazer uma curta apenas sobre isso e levar ao limite essa situação, com alguns “twists” e se possível profundidade dramática. Então basicamente fiz uma sinopse da história, que posteriormente trabalhei com o Rodrigo Sousa. Mas a história não estava a funcionar em pleno, então certo dia tropecei no «Rope» do (Alfred) Hitchcock e fez-se luz: a curta tem de ter o máximo de suspense para que resulte. A partir daí, reescrevi o guião todo assente nessa premissa, e na 8ª versão, finalmente consegui um guião sólido para poder filmar.

A ideia de fazer o filme como plano-sequência surgiu logo de inicio ou foi algo que surgiu a meio de projeto?

Logo no início. Esse era o meu objetivo e não havia concessões quanto a isso. Levar a forma a um extremo de tensão e sufoco sem um único corte. Parece-me que acrescenta um elemento ‘voyer’ e aumenta o realismo da narrativa. Para os atores também é bom, pois obriga-os de forma muito intensa, a focarem-se totalmente nos personagens e no momento que elas vivem.

Como vês o sucesso que o filme tem tido em festivais, mostras e junto da comunidade crescente de fãs de curtas-metragens?

Com muita satisfação. É importante, para todos os envolvidos e que acreditaram na produção do filme e é bom porque mostra ao público que o nosso cinema não é só hermetismo e composição.

Dirias que há um novo cinema independente em Portugal, que surgiu na Internet (em sites, blogues e nas redes sociais) e em mostras mais informais como o Shortcutz?

Creio que sim. Com a democratização do meio, qualquer pessoa com uma canhara de filmar e um software de edição, consegue fazer um filme. Só há é a velha questão: temos uma boa história para contar?


Como foi trabalhar com o Ivo Canelas?

Um sonho. O Ivo é um ator muito criativo e acima de tudo, genuíno. A intensidade com que casa com o personagem é impressionante. Tanto ele, como o Afonso e o Augusto foram de uma generosidade e entrega totais. Nós filmámos de madrugada,  ao nascer do Sol, com catering mínimo, num ambiente um pouco hostil e sem luxos. E por eles, eles estavam no melhor dos mundos, pois sentia-se a energia criativa no set, como sendo o denominador e o interesse comum.

Tens algum novo projeto?

Vários. Estive para filmar outra curta, chamada «Branco», agora em fevereiro. Basicamente é uma sátira sobre um ex-fuzileiro em guerra contra o sistema. Como tenho de encontrar um novo protagonista e como será um filme de produção muito exigente, vou filmá-la apenas lá para abril. Entretanto vou filmar outra história mais pequena, mas que a mim é muito pessoal e creio que pertinente sobre os tempos que vivemos.

Para quando uma longa-metragem?

Quando o ICA deixar. Mas mais a sério, fazer curtas independentes, são experiências que dependem totalmente da generosidade e disponibilidade das equipas e elencos. A nível de produção é um exercício muito desgastante. Tenho uma longa sobre um “gangue” de criminosos dos anos 80, que irá ser submetida ao ICA(ou FICA). E tenho ainda outra longa que ando a escrever. 
Como vês o panorama do cinema português atual, nomeadamente a crise do ICA ?

Acho que tal como a crise financeira, tratou-se de uma bolha que tinha de rebentar. O cinema nacional é muito mal visto pelos olhos do nosso público, e isso é um facto que há que encarar. Isso e uma certa irresponsabilidade financeira, criou aquela imagem do realizador “parasita”. O que nuns casos pode ser verdade, mas que noutros me parece extremamente injusto. Se mudar, que mude para melhor, e que se dê finalmente oportunidades ao sangue novo que aí anda, pois há muito talento e boas historias para contar neste país.

 

 

 
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