Guillermo del Toro diz as verdades do seu “Pinocchio”

(Fotos: Divulgação)

Hoje é noite de Frankenstein (1931) no ecrã colossal do Palácio de Congressos de Marrocos, na véspera de Guillermo del Toro explicar ao Festival de Marraquexe como manteve o livre-arbítrio na sua versão do Prometeu Moderno, de Mary Shelley (1797-1851), para a Netflix — sem que o streaming determinasse o que deveria (ou não) fazer. Essa explicação será dada na manhã deste sábado, no que promete ser a mais concorrida sabatina da secção Conversas do evento, onde, há sete anos, o mexicano detalhou pela primeira vez os seus planos para transpor para o audiovisual a criatura celebrizada por Boris Karloff (e mais tarde por Robert De Niro).

Foi também em solo marroquino que Del Toro falou abertamente sobre Pinocchio (2022), a animação que acabou por lhe valer mais um Óscar, em 2023. Na ocasião, em 2018, o Frankenstein que orbitava os seus pensamentos era ainda o anti-herói da DC Comics, da Liga da Justiça Sombria e do Creature Commandos. A ele caberia a tarefa de realizar um filme de heróis para a Warner, mas o projeto não avançou. Del Toro preferiu aprofundar-se, afinal, na criatura de carne morta e eletricidade, agora interpretada por Jacob Elordi, com projeções já asseguradas nos festivais de Veneza e San Sebastián. Ainda assim, neste fim de semana em Marraquexe, é um boneco de madeira inspirado na literatura italiana aquele que mais desperta fascínio na revisão da sua obra, coincidindo com a homenagem que lhe será prestada através de uma distinção honorária.

“Neste momento, precisamos mais do que nunca de metáforas. As religiões constroem-se através de parábolas e, numa era dominada por guerras de narrativas e fake news, uma parábola humanista pode devolver complexidade ao mundo”, disse Del Toro ao C7nema num hotel em Marraquexe, durante a génese do seu Pinocchio. “Essa marioneta sempre me fascinou por encarnar a imperfeição — não apenas pelo ato de mentir, mas por ser uma espécie de Frankenstein de madeira, um monstro daqueles que eu adoro.”

Lançada mundialmente no BFI London Film Festival, em outubro de 2022, a versão fúnebre de Pinocchio assinada por Del Toro, a partir do texto de Carlo Collodi (1826-1890) e das ilustrações de Enrico Mazzanti (1850-1910), passou ainda por Mar del Plata antes de chegar à Netflix — plataforma que viabilizou os recursos de produção do realizador de The Shape of Water (2017), vencedor do Leão de Ouro nesse ano. Tal como no romance anfíbio protagonizado por Sally Hawkins, que lhe garantiu dois Óscares, Del Toro insiste num olhar humanizado sobre criaturas consideradas monstruosas, ao passo que revisita com dureza personagens reais marcadas pela intolerância, como Benito Mussolini, presente nesta releitura ambientada durante a II Guerra Mundial — tal como acontecia em Pan’s Labyrinth (2006), exibido em Marraquexe no sábado e também apresentado em competição em Cannes.

A reinvenção de Collodi evoca o gesto de Francis Ford Coppola em Drácula de Bram Stoker (1992), quando retirou a capa expressionista de Bela Lugosi e ofereceu a Gary Oldman uma interpretação existencialista e ultrarromântica. Sai o visual ensolarado da Disney, com fardas escolares e brilho infantil: entra um universo telúrico, sombrio e visceral, absolutamente coerente com a estética de Del Toro.

Correalizado por Mark Gustafson, Pinocchio (2022) apoia-se numa direção de arte exuberante e numa minúcia artesanal que atravessa toda a obra do cineasta, de El espinazo del diablo (2001) a Crimson Peak (2015). A técnica de stop motion, animando objeto a objeto, fotograma a fotograma, eleva ao máximo o detalhe dos bonecos e a densidade emocional da narrativa — potenciando uma fábula onde impera a inquietude autoral. O resultado, pensado para os prémios da Academia, não apaga a recente versão de Matteo Garrone, com Roberto Benigni no papel de Geppetto, lançada na Berlinale de 2020, embora evidencie, por contraste, a ausência de identidade autoral na adaptação assinada por Robert Zemeckis para a Disney+.

“O mais assustador para um cineasta não é adaptar-se a um novo meio, mas ser impedido de trabalhar por falta de condições. Levei este projeto a vários estúdios e ninguém quis”, afirmou Del Toro em Cannes, durante a secção Lições de Cinema, ao lado do compositor Alexandre Desplat.

Antes disso, em Marraquexe, o realizador já antecipava ao C7nema: “A Netflix mostrou interesse em Pinocchio e eu segui em frente. Vivemos uma transformação inevitável do audiovisual, mas o streaming não vai destruir o Cinema — tal como não o fizeram o som, a cor, a televisão ou o VHS. O único medo que realmente conta é o de perder a liberdade.”

Com banda sonora assinada por Desplat, Del Toro confia a Ewan McGregor a voz e a alma de Sebastian J. Cricket — o Grilo Falante — narradora singular da história. É através do seu olhar que acompanhamos a solidão de Geppetto (David Bradley), que tenta recriar uma filha a partir de um tronco de madeira para preencher o vazio deixado pela morte do jovem Carlo, vítima dos bombardeamentos no conflito entre as forças do Eixo e os Aliados.

O Festival de Marraquexe termina neste sábado.

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