Entrevista a Wim Wenders, o aclamado cineasta e Presidente da Academia Europeia de Cinema

(Fotos: Divulgação)

Falámos com o realizador de Pina sobre a importância do cinema europeu, do futuro e do 3D. Wenders acredita numa nova forma de linguagem com o 3D. Mas mais para o cinema independente do que para os blockbusters, que só o arruínam. 

Desde 1996 que preside a Academia para além de manter um trabalho regular como realizador. E Pina, o seu filme mais recente, estreou há pouco tempo na Europa. De que forma gere o seu tempo entre estas duas actividades?

O meu trabalho de Presidente da EFA é honorário. Mas implica outras actividades ao longo do ano. E o ano passado ainda foi mais activo, pois estive várias vezes em Bruxelas a promover aulas obrigatórias sobre a linguagem das imagens para crianças. É algo que temos promovido a alto nível na Europa. Para além disso, envolvo-me em toda a organização dos Prémios do Cinema Europeu. No entanto, isso ainda me deixa tempo para fazer filmes.

E dar aulas.

Qual o balanço que faz quando olha para todos estes anos à frente do EFA?

A partir de amanhã entramos no 25º ano, portanto um quarto de século. Quando fundámos esta organização, não passava de um mero clube de realizadores. Éramos menos de 20 membros. Mas depressa chegou a uma centena. Este clube era então a autoridade que atribuía os Prémios do Cinema Europeu. Foi aí que decidimos transformá-lo numa Academia europeia, hoje já com mais de 2500 membros. Quando me lembro dessa primeira reunião em 1988, e as expectativas de criar um Prémio do Cinema Europeu, acho que o resultado superou largamente os nossos sonhos.

Ao pensar em prémios de cinema, temos sempre os Óscares como referência. Apesar de todo este percurso, pensa que os Prémios do Cinema Europeu poderão chegar perto do estatuto dos Óscares?

Sempre fomos comparados aos Óscares, o que me parece um pouco injusto, pois os Óscares começaram 50 anos mais cedo. Por outro lado, os Óscares são um evento nacional. No nosso caso, temos um prémio internacional. Por outro lado, na Europa existem mais de 50 nações produtoras de filmes. O que é muito. É muito difícil de comparar este evento multicultural e multilinguístico com os Óscares. Desde o início soubemos que o EFA seria muito diferente. É mais uma festa de família. Nós também temos o Filme Europeu do Ano, Melhor Actor, Actriz, Argumentista, Compositor, etc. É até bastante semelhante aos Óscares. Só não é tão competitivo. Não podemos comparar maçãs com laranjas. 

Existe agora uma moda no cinema de conversão para 3D. Como vê essa moda?

A conversão artificial não se compara ao 3D real. Quando se filma em 3D é algo fisiologicamente correcto. Está mais próximo do que vêm os nossos olhos. Todos os esforços que vi de conversão são dolorosos para a visão e de resultado duvidoso.

Mas vê um futuro no 3D?

Eu já entrei nesse futuro. E de olhos bem abertos. Estou convencido que será mais o futuro de filmes independentes e menos convencionais do que o futuro de blockbusters. Foram eles que quase arruinaram esse futuro, ao repetirem sempre a mesma fórmula. Está a tornar-se maçador. Não a usam como uma nova linguagem mas apenas como uma atracção. O 3D tem de ser usado como uma nova forma de linguagem. E ainda temos de inventar as histórias. Pessoalmente, serão os documentários e os filmes independentes que terão o futuro do 3D.

Foi uma coincidência ter feito um documentário em 3D ao mesmo tempo que o Werner Herzog?

Nenhum de nós sabia o que o outro estava a fazer. Eu tinha este projecto há 20 anos. Só não o fiz antes porque não tinha as ferramentas. Só o descobrimos quando percebemos que ambos os filmes tinham sido programados para o festival de Berlim deste ano.

Wim Wenders 

Vai continuar a filmar em 3D?

Sim, já fiz três curtas-metragens. E estou a preparar um documentário. Mas o meu projecto é fazer uma ficção em 3D.

No entanto, muita gente declara que a realidade do cinema é em 2D. Mas nós vemos em 3D… Como vê esta ferramenta?

Temos o 3D como um parque de atracções e o 3D algo desconhecido, mais natural e elegante e não movido por efeitos.

Qual é para si o melhor exemplo de 3D?

O exemplo maior tem sido Avatar…

Gostou de Avatar?

Gostei e vi-o inúmeras vezes. É uma grande obra-prima. Acho que Pina também deixou o seu marco. Ainda não vi o filme do Scorsese (Hugo), mas ouvi muitas coisas boas. Estou curioso com a nova vaga de cinema 3D.

Falando do futuro, tem vários projectos em diferentes fases de desenvolvimento. Por esclarecer-nos um pouco do seu andamento?

Continuo a trabalhar em 3D, estou a preparar um documentário e um filme de ficção. Se tudo correr bem deverei começar a rodagem no final do ano que vem. 

É a adaptação do Murakami?

Não. Miso Soup teve de ser cancelado por falta de financiamento. No entanto, depois do terramoto, do tsunami e do desastre nuclear já não queria contar esta história. Ficou obsoleta. 

O projecto que menciona é então Everything Will Be Fine?

Exacto. Everything Will Be Fine é o filme que, se tudo correr bem, deverei rodar no final do verão.

Sucintamente, qual é a sua opinião sobre a forte selecção dos nomeados deste ano do EFA?

Acho que será difícil de encontrar uma selecção tão forte. Há sempre favoritos, mas este ano diria que existem seis favoritos. Coda um deles pode ganhar. Cada um tem as suas qualidades, as suas forças. É incrível este alto nível de escolha do cinema europeu. E todos têm tido um bom sucesso internacional.

Pode comentar brevemente as escolhas para o prémio Discovery, que representam um pouco o futuro do cinema europeu?

A possibilidade de termos um prémio para o primeiro filme foi durante muito tempo um projecto pessoal. Todos os anos conhecemos novos realizadores e procuramos motivá-los a fazer mais filmes, mas também a participar na Academia. É um prémio interessante porque nos permite olhar para o futuro. E é curioso ver como alguns dos vencedores do início estão agora a concorrer para novos prémios.

 
 
Paulo Portugal, em Berlim 
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