“Parecia aquele tipo de casa onde ninguém fazia perguntas. Era velha, precisava de obras, mas parecia um bom início para John. Mas, a partir do momento em que se mudou, tudo mudou. As pessoas começaram a desconfiar dele, dizendo que era estranho. A verdade é que John sempre tivera pesadelos… horríveis! A vizinha avisou-o para abandonar a casa. Ele não ouviu e, agora, pode ser tarde demais. Os pesadelos pioraram e as portas já não o levam onde antes levavam.”
— Fantasporto 2006
Esta é a premissa de Lie Still, um filme realizado por Sean Hogan e descrito pelo c7nema como “complexo e misterioso – e muito bem executado, especialmente tendo em conta que é uma produção tão modesta”.
Depois da passagem pelo Fantasporto, o filme segue agora para o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Bruxelas. O c7nema falou com o argumentista e realizador Sean Hogan, que explicou como surgiu a ideia do filme, o processo de produção e deixou no ar futuros projetos.
Qual a história por trás de Lie Still e quando surgiu a ideia?
Escrevi Lie Still no verão de 2001. Falava muitas vezes com o Navin, o produtor, sobre fazermos um filme de baixo orçamento juntos, mas sem nunca discutir uma ideia concreta. Entretanto, terminei outro guião e logo depois surgiu-me esta história, muito clara na minha cabeça, e percebi que seria relativamente barata de concretizar. Escrevi o argumento em poucos dias e só depois o mostrei ao Navin. Até aí, ele não sabia de nada — nem eu sabia se estaria interessado. Felizmente gostou e aceitou que podíamos trabalhar nisto juntos. Depois começou o longo processo de o tornar realidade.
Foi complicado encontrar dinheiro e reunir a equipa?
Sim, foi um processo demorado. O Navin estava ocupado com outros projetos, e eu aproveitei esse tempo para realizar curtas e rever o guião — que, na verdade, nunca mudou muito.
Sempre soube que seria uma produção quase de “guerrilha”, com pouco dinheiro e amigos envolvidos. Tínhamos algumas poupanças de trabalhos em vídeo, mas o Navin estava determinado em dar-lhe o máximo de profissionalismo possível. Por isso, procurámos investidores.
O problema é que não há grande tradição de cinema independente no Reino Unido, e muitos não acreditavam que conseguíssemos fazer o filme com tão pouco orçamento. Cheguei a duvidar que avançasse. Mas conseguimos. Quando o financiamento surgiu, foi relativamente fácil montar a equipa técnica e o elenco. O argumento agradou e rapidamente reunimos pessoas talentosas.
Que realizadores e filmes o inspiraram em Lie Still?
São muitos. Admiro Cronenberg, Scorsese, Lynch… mas, para este filme, havia influências muito específicas. Inspirei-me em clássicos de casas assombradas, como The Innocents e The Haunting. Um filme americano dos anos 70 foi muito importante: Let’s Scare Jessica to Death. Polanski também esteve sempre presente na minha mente — sobretudo The Tenant e Repulsion, pela atmosfera paranoica e a tensão psicológica.
Depois há Phantasm, pela relação sonho/realidade (e pela figura do Tall Man), os filmes de Val Lewton e algumas obras mais recentes do horror japonês. Também me marcou a adaptação televisiva da BBC de M.R. James, Whistle and I’ll Come to You. E claro, The Shining. Curiosamente, até Last Tango in Paris foi uma referência.
Está satisfeito com o resultado final?
Em parte. Não conheço ninguém que fique totalmente satisfeito com o próprio trabalho. Gostava de ter tido mais tempo e dinheiro, mas acho que todos deram o seu melhor. O Stuart Laing, no papel principal, teve de carregar o filme e fez um grande trabalho. O diretor de fotografia, Peter Sinclair, também esteve excelente.
No fim, estou orgulhoso do que conseguimos. Não foi fácil, mas provámos que era possível. O próximo será melhor — pelo menos é sempre essa a ambição.
[Spoiler de Lie Still]
De onde veio a ideia das pessoas dentro do televisor?
Muitos pensam logo em Poltergeist, mas honestamente não me lembrei desse filme quando escrevi a cena. A minha ideia era criar uma espécie de purgatório ou limbo para as almas que morreram naquela casa. Inspirei-me em histórias sobre gravações em cassetes em quartos vazios, onde surgiam vozes estranhas. Pensei: porque não através de uma televisão? Pareceu-me assustador. Infelizmente, durante a produção, outros filmes usaram ideias semelhantes… mas às vezes acontece.
[Fim do Spoiler]
Quais são as regras para fazer um bom filme barato como Lie Still?
A primeira foi óbvia: centrar a ação num único local. Assim, não precisávamos de andar a mudar de espaço com toda a equipa.
Depois, queria fazer um terror mais sugestivo, à maneira de Val Lewton. Não só porque acho eficaz, mas também porque efeitos especiais e gore são caros e complicados com pouco orçamento. Evitámo-los sem prejuízo para a história.
Acima de tudo, é preciso ter um bom guião e bons atores. Muitos filmes independentes falham aí. Se a base é sólida e as interpretações credíveis, o público envolve-se — e esquece-se do orçamento reduzido.
Tem já novos projetos?
Sim. Fui abordado para alguns trabalhos, estou a ver o que avança. Entretanto, terminei um novo guião, Undergrowth, que descrevo como um cruzamento entre Vertigo e H.P. Lovecraft.
Também estou a trabalhar em Corpses for Dogs, que será um terror mais realista. Vamos ver o que acontece.
Conhece algum filme português?
Infelizmente não. No Reino Unido é difícil ter acesso a filmes estrangeiros. Conheço Manoel de Oliveira de nome, mas nunca vi nada dele. Talvez me possam recomendar alguns títulos…
(O c7nema recomendou Coisa Ruim e Alice.)

