As aventuras de alienígenas lésbicas no Planeta Terra e o romance entre uma tímida vendedora de cartões e uma mulher que ela não desconfia ser de outro mundo. Enquanto isso, dois “homens de negro” procuram a intrusa e discutem os seus problemas.
Este é a estranha premissa de “Codependent Lesbian Space Alien Seeks Same” de Madeleine Olnek, adaptação ao cinema de uma peça de teatro muito fora de vulgar. Rodado em preto e branco num ambiente descontraído, a estreia nas longas de Madeleine – que passou pelo Festival de Sundance – promete surpreender o público do Fantasporto por ser a comédia romântica pink do cinema fantástico.
Como surgiu um projeto tão estranho como «Codependent Lesbian Space Alien Seeks the Same»?
Inicialmente era uma peça e o público adorava. Isso deu-me um nível de confiança grande na hora de filmar esta história.
Queria fazer uma comédia romântica moderna, uma sincera e divertida história de amor lésbico, com elementos de ficção científica abordados de formato estereotipada.
Em palco trabalhávamos para que quem visse a peça pensasse que estava a ver um filme. Na versão cinematográfica foi bem mais fácil tirar vantagem das convenções do cinema de ficção científica: o “kitsch” do “low budget” é uma linguagem própria.
Qual foi a inspiração desta história?
Para este filme inspirei-me muito, e de forma extensiva, no folclore de ficção científica. Ao ler sobre a cultura OVNI dei com muitos casos de «Homens de Negro»– a começar nos anos 50, quando as histórias começaram a espalhar que cada vez que havia um encontro alienígena essas figuras negras do governo surgiam logo de forma intimidatória para te silenciar.
Encontrei mesmo um dado estatístico que afirma que, apesar da maioria dos Americanos não acreditarem nos OVNI, acreditam que existe uma unidade secreta do governo especializada em encobrir as visitas extraterrestres. Esta contradição divertiu-me e fez-me pensar sobre uma outra: como os americanos que suspeitam do governo e que até não querem nenhum governo são os mesmos que querem que esse governo se intrometa na vida homossexual. Os agentes governamentais no filme perseguem de forma muito intrusiva o romance da personagem principal, a Jane, e um extraterrestre, e isso é, derradeiramente, uma experiência muito estranha para ela, que de repente está sob escrutínio, mas também para um dos agentes, que também tem alguns assuntos da sua vida pendentes.
Eu queria que esta parte da história mostrasse o que nos afeta a nós, gays de todo o mundo, pois após estarmos finalmente confortáveis com a nossa sexualidade e no momento em que já pensamos que isso não é assunto, de repente damos com uma situação em que estamos de novo sob escrutínio e sujeitos a um voto ou uma nova lei negativa para os nossos interesses amorosos. De certa maneira, esta situação sente-se como um filme de ficção cientifica dos anos 50, no sentido em que a homofobia é vista como uma experiencia retro, tão assustadora como ridícula.
Porque escolheste filmar em preto e branco?
Eu queria lembrar as pessoas da típica ficção científica dos anos 50 assim como os filmes românticos indie dos anos 90: comédias relacionais com micro-orçamento filmadas a preto e branco como «Clerks» e «Go Fish». O preto e branco também parece fazer justiça a Nova Iorque, provavelmente devido ao cinema no início de carreira do Woody Allen.
Quão difícil é a transição de realizar curtas-metragens para longas?
É muito difícil. Eu não tinha a mínima noção – fazer uma curta (e eu fiz várias que passaram pelo Festival de Sundance e por todo o mundo) é como um poema, um único poema. Fazer uma longa-metragem é como escrever um romance inteiro: é um processo longo, muito longo e muitas vezes chegamos a um ponto onde não sabes se vais conseguir chegar ao fim. Foi uma experiência muito educativa. Quando realizava curtas e ia a festivais, sempre sentia que os realizadores de curtas-metragens eram tratados como a mesa das crianças. Porém, quando finalmente acabei a minha longa, eu percebi porque os realizadores de longas metragens eram tratados com tanto respeito.
Tem novos projetos?
Sim, estou no processo de edição de algo – mais uma vez é complicado. Não vou dizer sobre o que é, para além do facto de se tratar de uma comédia.
O que pode esperar o público do Fantasporto?
A audiência deve esperar uma noite de risos e em esquecer os seus problemas, pelo menos durante os 76 minutos do filme. O meu principal objectivo era entreter. Eu costumo dizer às pessoas que o meu filme chama-se «Extraterrestres lésbicas para toda a família», por isso sintam-se à vontade em trazer as crianças, são todos bem vindos.
Vai estar presente no festival? Conhece o Porto?
Eu não conheço o Porto mas parece uma cidade linda nas imagens que vi na Internet. Estou aberta à possibilidade de visitar a cidade em qualquer altura, se alguém quiser uma sessão ao vivo de perguntas e respostas deste filme louco.
Mas a sério. Estou honrada por estar na seleção deste festival e espero que o publico goste do filme. Também podem «gostar» de nós no faceboook e deixarem as vossas mensagens- vamos adorar ler as vossas palavras.

