A atriz americana encontrou-se em outubro passado com a imprensa internacional, durante o festival de cinema de San Sebstian, para receber um prémio de carreira e ainda esclarecer todas as questões sobre a longa gestação do projeto «Albert Nobbs», que agora protagoniza, produz e assina o guião. E, como se esperava na altura, concedeu-lhe uma nova nomeação para o Óscar.
É verdade que interpretou Albert Nobbs no teatro ainda na década de 80? Como confronta esse papel passado este tempo?
Sim, é verdade, representei o Albert Nobbs em palco, num espetáculo off Broadway, em 1982, há quase 30 anos. Foi uma peça adaptada de uma short story muito minimalista e pura. Por isso, este exercício de recriar agora esse papel é espantoso.
É verdade também que interpretou um pequeno papel masculino em Hook, de Steven Spielberg, como pirata?
Na verdade tinha tido a oportunidade de visitar o set de rodagem porque o Robin Williams é meu amigo e o Steven Spielberg acabou por me desafiar a fazer o papel de um pirata. Eu aceitei. Colocaram-me pelos no peito e uma barba. Foi muito divertido. Mas durante todo esse tempo nunca ninguém descobriu que era eu.
Nota-se em muitos papéis seus um certo toque masculino. No entanto, já teve a oportunidade de dizer que nunca quis ser homem porque sente pena deles. Posso perguntar-lhe porquê?
Não sei se ainda sinto pena dos homens. É daquelas declarações feitas vinte anos antes e que nos perseguem a vida toda. Na verdade, continuo a achar que as mulheres são muito mais complexas e os homens não têm que lidar com metade daquilo que nos cabe. Tenho, por isso mesmo, muito orgulho em ser mulher.
Acha que é mais fácil sobreviver em Hollywood sendo um homem ou acha que uma mulher inteligente tem as mesmas oportunidades?
É uma boa pergunta. Mas acho que é mais fácil um homem sobreviver em Hollywood. Uma mulher com 33, 34 anos torna-se mais problemática. Nesse sentido, acho que não houve muitas mudanças. Não há assim muitas histórias interessantes para mulheres maduras. Felizmente tenho tido a sorte de ter bons papéis para interpretar.
É uma performance brilhante, integralmente merecedora de mais uma nomeação para o Óscar. Como vê essa exposição e como equilibra o seu papel de atriz, argumentista e produtora no filme?
Foi uma experiência incrível fazer este filme e chega a ser surreal estar aqui a apresentar Albert Nobbs, porque levou 15 anos a fazer. Há dez anos quase que conseguimos fazer o filme. E nos últimos cinco anos tenho sido a principal guionista e adorei esse trabalho e a colaboração com os outros guionistas. Quando à produção, tinha já feito algum trabalho para televisão, mas este é o primeiro para cinema, mas foi uma equipa fantástica. E sem um cêntimo de Hollwyood.
Como definiria uma pessoa como Albert Nobbs?
Acho que esta é uma história sobre sobrevivência. Há pessoas que neste mundo são invisíveis e marginalizadas e que não têm direitos. Esse é o mundo de Albert Nobbs. Apesar de ter lugar na Inglaterra vitoriana, acaba por ter uma forte correspondência atual.
Como encara uma nova nomeação aos Óscares?
Seria maravilhoso. A última já foi há tanto tempo…
A Meryl Streep é uma pessoa da sua geração e uma amiga e que já ganhou todos os prémios. O que costumam falar nestas alturas dos Óscares?
A Meryl não é uma amiga íntima e apenas trabalhámos juntas em «A Casa dos Espíritos». Mas não costumo falar sobre Óscares. Normalmente só falo nisso quando se torna realidade.
Como lida com todo este processo em que hoje se tem de fazer campanha para os Óscares?
Fazer este filme foi um sonho tão longo e com um grupo tão bom. Agora essa campanha não é feita por mim. Eu fiz o meu trabalho.

