Alvo de uma retrospectiva recente no Brasil, denominada “Ghibli Fest”, Hayao Miyazaki foi uma bússola artística para que as cineastas Maïlys Vallade e Liane-Cho Han transformassem Amélie et la Métaphysique des Tubes – vencedor do Prémio do Júri Popular em Annecy – num estudo sobre as bênçãos que o tempo nos oferece, a cada viragem de estação, de outono em outono, de verão em verão. O espectro existencialista desta animação fez dela um íman de elogios na sua passagem por Cannes, em maio. Já o encanto que reside no olhar enternecido de Amélie tem tudo para arrebatar o Troféu Cidade de Donostia para a longa-metragem, em exibição na secção Perlak do Festival de San Sebastián. A expectativa ganha força com a altíssima pontuação alcançada pelo filme no ranking de adesão do público.
“É da cor que nasce a narrativa, no intuito de criar uma experiência sensorial sobre a euforia infantil, a partir de uma menina que acredita ser o centro do seu mundo, até que os paradoxos da condição humana comecem a emergir no seu quotidiano”, afirmou Maïlys em entrevista ao C7nema, no festival espanhol, onde o filme de animação esgotou sessões. “Há muito que anseio fazer algo em stop-motion, mas ainda não foi o caso, embora o meu próximo trabalho siga essa técnica, de que gosto imenso. No caso de Amélie, a influência do cinema de animação japonês exigiu um traço próximo do Impressionismo, com um grafismo que evocasse, em certo ponto, o uso do guache. A imersão a que a trama aspira segue o colorido das quatro estações e o modo como estas afetam a personagem.”

Amélie et la Métaphysique des Tubes é uma adaptação literária com a participação de Loïse Charpentier, Victoria Grobois e Yumi Fujimori em seu elenco de vozes. O enredo vem do livro de Amélie Nothomb sobre miscigenações cultuais e as magias que cercam os intercâmbios entre povos. A protagonista não se leva a sério, mas sofre com isso. Até aos dois anos e meio, Amélie descreve-se como um tubo digestivo, inerte e vegetativo. Então, surge o acontecimento seminal que a mergulha na micareta de descobertas que é ser criança. Durante os seis meses seguintes, ela descobre a linguagem e aprende a lidar com os pais, com os irmãos e com as irmãs. Acha um paraíso no jardim e, lá, demarca paixões: o Japão (onde nasceu e onde vive) e a água. Delimita também quais são as suas aversões, entre elas, um peixe: a carpa.
“Não existem tabus culturais em foco, mas há um debate sobre demarcação identitária e sobre pátria”, diz Maïlys, que teve um orçamento estimado em cerca de 9,3 milhões de euros para ser aplicado do filme, cuja génese começou em 2018. “A realização, em si, levou 14 meses. Em França, contamos com profissionais que trabalhavam de diferentes locais, a procurar a criação de uma identidade gráfica, apesar da pluralidade de olhares. O Japão, com os seus desenhos de uma metragem longa, permitiu que o mundo visse novas formas de animar. Isso influenciou novas gerações. Isso serviu de inspiração para a França, que encontra fomentos de suporte ao cinema que nos estimular a inventar com liberdade”.
San Sebastián segue até o dia 27 de setembro.

