Com mais de dezasseis anos dedicados ao jornalismo, ao documentário e à produção de media, o fundador do Alef Multimedia, Mohammed Sawwaf, tornou-se uma das vozes decisivas para que muitas das histórias de apartheid, guerra e genocídio em Gaza chegassem ao Ocidente. Durante este tempo, tem filmado, arquivado e transmitido narrativas que, de outra forma, ficariam soterradas sob a destruição — um trabalho que funciona tanto como testemunho urgente de um território onde durante muito tempo estava interdita a presença de jornalistas internacionais, bem como de resistência de um povo que se recusa a ser apagado da história.
Na nossa memória ainda permanece Eleven Days in May (2022), assinado conjuntamente com Michael Winterbottom, sobre os 11 dias de bombardeamentos no território palestiniano de Gaza, em maio de 2021. Gaza mudou muito desde então, sobretudo após os ataques de 7 de outubro de 2023, perpetrados pelo Hamas em Israel, e a resposta absolutamente desproporcional que se seguiu, reduzindo tudo a cinzas e contabilizando mais de 60 mil mortos, grande parte deles crianças.

Torna-se assim urgente que Mohammed Al-Sawwaf, também responsável por títulos como Sperm Smuggling (2015), continue a mostrar ao mundo o que se passa no território e aos palestinianos, mesmo que o seu corpo esteja hoje violentamente marcado pela agressão israelita e já conte mais de 48 familiares mortos no conflito, incluindo o pai, a mãe e irmãos.
Gaza’s Twins, Come Back to Me, o seu novo filme, nasce de uma das fases mais violentas e desumanas da história recente do território. Em fevereiro de 2024, enquanto recuperava lentamente de ferimentos graves provocados num joelho por um ataque israelita, o jornalista e documentarista recebeu uma notícia: dois bebés gémeos tinham sido deixados numa ala hospitalar no sul de Gaza, separados da mãe, Rania, retida no norte após a divisão militar da Faixa. Com a sua equipa também dividida entre norte e sul, ele decide avançar, filmando ele próprio — durante 16 meses — a luta de Rania para reencontrar as crianças; no sul, outros membros da equipa, sob orientação do montador Salah Alhaw, registam o crescimento dos gémeos.
O resultado é um documentário que abandona qualquer intenção de construir metáforas ou comentários. Gaza’s Twins, Come Back to Me vive com a família durante longos meses, acompanha o crescimento dos bebés entre explosões, tendas improvisadas e fugas sucessivas; observa, em paralelo, a espera interminável da mãe, presa no norte, exausta, faminta, sem notícias, consciente de que o tempo trabalha contra ela. Originalmente, Rania teve trigémios, mas um não sobreviveu.
“A história impunha-se”, disse Mohammed ao C7nema numa conversa via Zoom, novamente ferido — desta vez num ombro — por mais um ataque israelita. “Desde os primeiros dias da guerra, a nossa estratégia foi sempre que cada pessoa em Gaza agora é uma história para um filme. Toda a gente que se mexe, toda a gente que respira, já é uma história. Queremos apenas registar a história da pessoa, o que vemos no terreno. Descemos ao terreno e construímos mais confiança porque sentiram que aqueles que filmavam as suas histórias não vinham de fora nem estavam confortáveis.”

Nesse sentido, e ao filmar em Gaza e mostrar a violência dos ataques, a certa altura, a ética e o instinto coincidem. “As histórias delas são também as nossas histórias. E pelo menos não somos vítimas pobres que estão só a ser mortas. Existe uma justiça em filmar e contrariar a invisibilidade.”
O modo como filma nasce dessa identidade partilhada: não há fronteira entre quem filma e quem é filmado. Todos perderam familiares. Todos foram feridos. Todos carregam a mesma respiração tensa quando um drone se aproxima e se ouve uma explosão. Por isso, o método torna-se orgânico: “Liga a câmara e fica perto das pessoas. Não deixes que sintam a câmara. Deixa filmar”.
Os ataques sucessivos distraíram-lhe a família, a casa, os arquivos, as ruas por onde crescia, e tornaram-no uma figura em permanente deslocação — e, ainda assim, “nesse momento eu vi que ou me rendia à morte, à ferida ou a outro bombardeamento, ou cumpria o meu dever”. E o dever, para ele, é simples: registar. Estar lá: “Pelo menos as pessoas iam morrer e ninguém ia vê-las. Porque não há jornalistas nem ninguém com uma câmara em Gaza”. Esse é o ponto de partida de Gaza Twins, a história guiar a câmara e nascer um filme com o final imprevisível: “O nosso dever é elevar as vozes das pessoas e contar as suas histórias”.

A trabalhar num novo projeto, Gaza Year Zero, Mohammed conta que nasceu da mesma insistência vital. “Este filme partiu-me o ombro há dois dias”, diz ele, sem ironia. Filma com atores não-profissionais, gente que perdeu casas, familiares, cidades. Filma quando há cessar-fogo; pára quando recomeçam as bombas. Monta ao mesmo tempo que filma porque “não sabemos se vamos continuar ou não… se a guerra vai continuar ou não… se, Deus nos livre, vamos perder alguém”.
O cinema, para ele, é uma arquitetura precária construída no meio de ruínas reais e isso torna Gaza Year Zero um projeto muito complexo — um retrato da instabilidade absoluta da vida no território. Como explicou, “o que torna tudo mais difícil é o ambiente. Estamos em Gaza. Não há estabilidade, as pessoas estão sempre a deslocar-se.”
O caos é tão grande que “até o protagonista mudou porque já não conseguia continuar”, obrigando a equipa a procurar outro intérprete em plena guerra. A rodagem avança aos solavancos, “sempre que havia um cessar-fogo, filmavam. Quando não havia, paravam.” Muitos atores perderam familiares, e quando o cessar-fogo terminou, “dispersaram. Cada um foi para sítios diferentes.”
No meio do caos, destruição e sem tempo para processar o luto, apesar de tudo, a palavra que permanece no território é esperança. “Se não fosse pela esperança, não estaríamos a viver… talvez a esperança seja o que mantém o povo de Gaza vivo, e nos mantém a falar uns com os outros, e nos mantém a fazer filmes.” A esperança — essa obstinação silenciosa — torna-se, no fundo, a verdadeira estrutura e alma dos seus filmes: aquilo que continua a existir quando tudo o resto ameaça desaparecer.
Gaza Twins teve a sua estreia mundial no Festival de Cinema de Documentários de Amesterdão (IDFA).

