Entre fantasmas reais e amores impossíveis, o ato de crescer — o mundo de “Gioia Mia”, duplo vencedor em Locarno

(Fotos: Divulgação)

Conhecida principalmente pelo seu trabalho como diretora de casting, a italiana Margherita Spampinato surpreendeu no último Festival de Locarno ao sair com dois prémios na bagagem: o Prémio Especial do Júri CINÉ+ e o Pardo para a Melhor Atuação, atribuído à magnífica Aurora Quattrocchi, na secção competitiva Cineasti del Presente.

Um feito ainda mais significativo se pensarmos que Gioia Mia é a sua estreia como realizadora nas longas-metragens — um salto ousado, mas profundamente amadurecido, que não surge do nada. A sua trajetória já contava com um par de curtas-metragens que antecipavam o seu olhar sensível sobre a memória, a identidade e os mundos íntimos da infância e da velhice: Tommasina (2009), um retrato tocante de uma nonagénaria com Alzheimer que insiste em viver como se tivesse dezoito anos; e Segreti (2011), uma delicada imersão no universo secreto de uma menina de nove anos, onde o jogo e o mistério se confundem com a realidade.

Nico (Marco Fiore) é forçado a passar um verão com Gela (Aurora Quattrocchi)

Foi em Gioia Mia que Margherita uniu a experiência acumulada ao longo de tantos anos a escolher atores com a sua própria voz de autora. A história acompanha Nico (Marco Fiore), uma criança citadina, rebelde e imersa no ritmo acelerado da tecnologia, obrigada a passar o verão na Sicília ao cuidado de Gela, uma tia idosa, solteira, profundamente religiosa, que vive isolada numa casa antiga, repleta de silêncios, lendas e rituais — e sem wi-fi, sem ecrãs, sem escape.

Este afastamento não é por escolha, mas por necessidade: Nico deixou de ter a sua habitual babysitter, e a família vê na tia uma solução para o verão e a sua transição para a adolescência. No entanto, aquilo que começa como um exílio forçado transforma-se, pouco a pouco, num encontro transformador, para Nico e para Gela. Entre conflitos geracionais, choques culturais e múltiplas resistências, emerge uma ligação profunda entre dois seres aparentemente opostos — unidos, surpreendentemente, pelo lamento de amores impossíveis e saudades que teimam em não confessar.

É um filme completamente autobiográfico”, explicou ao C7nema a cineasta, assumindo a forma intemporal dos temas que aborda. “É tanto a minha infância como a do meu filho, que tem dez anos. É inspirado tanto na realidade de hoje como na realidade da minha infância.”

Aurora Quattrocchi em Locarno

Com exceção do papel entregue à magnífica Aurora Quattrocchi, todas as outras personagens exigiram um processo de casting. É na figura de Gela que Margherita explora as marcas de um amor não concretizado devido às pressões da época, uma ideia que nasceu do seu próprio passado, quando visitava na Sicília muitas senhoras que se diziam primas da minha avós. “Era criança, mas via, percebia — porque as crianças apercebem-se de tudo: eram casais, mas não podiam viver plenamente, à luz do dia, o seu amor. Quando eu cheguei a esse mundo, era a luz dos olhos delas, num reflexo do desejo de maternidade, que não conseguiam cumprir. Isso sempre me fascinou. E, de facto, o menino protagonista do filme, quando chega a esse mundo, capta imediatamente aquilo que não se pode dizer com palavras, mas que é evidente para todos. Ele sente, descobre.”

Já quanto ao amor de Nico pela babysitter — uma vertente de extrema importância no filme —, também fascinava profundamente Margherita, que entende o quão dramáticas são as separações das crianças das babysitters, e como esses sofrimentos são muito subestimados. “São amores complexos”, diz-nos. “Quando uma criança tem dez anos e, de repente, é separada da pessoa que a criou, sente isso como um verdadeiro trauma. E, por outro lado, não poderia ser de outra forma: numa idade em que um rapaz está a entrar na puberdade, e uma jovem rapariga dorme com ele, este tipo de situações ambíguas é, cinematograficamente, muito interessantes. Isto também retrata bem a sociedade atual, onde as babysitters se tornam figuras de referência importantes, pois muitas vezes os pais não têm tempo para os filhos. Hoje em dia, o tempo é um verdadeiro luxo.”

Nico (Marco Fiore) e Rosa (Martina Ziami)

Olá, adolescência — e o primeiro beijo

Na sua viagem para casa da tia, Nico está a processar a perda de alguém próximo, mas, enquanto sofre com essa ausência, o rapaz vai fazendo novas amizades. Entre elas está Rosa (Martina Ziami), a neta de uma das vizinhas de Gela, que o convida a brincar no pátio do prédio e, quiçá, a explorar algumas habitações locais onde, segundo ela, existem fantasmas.

O beijo dado à Rosa é exatamente uma marca da superação desse luto”, afirma Margherita. “O amor pela babysitter coincide também com a perda da sua primeira infância e o início da idade adulta. Este beijo parecia-me bonito como despedida da infância.

E quanto ao medo pelo desconhecido — retratado pelos “espíritos” que fomentam os mais diversos comentários por parte das anciãs do prédio —, ele estimula a imaginação das crianças, mas também a sua curiosidade, levando-os a investigar. Essa ideia de integrar elementos da superstição em confronto com o real nasceu num episódio caricato no prédio da cineasta, quando estranhos barulhos eram atribuídos a espíritos, mas que, na verdade, estavam associados a uma senhora de 102 anos que andava com um andarilho. “Quando aconteceu no meu prédio, achei isso genial, porque toda a gente ficou preocupada a falar de espíritos. E depois era só uma coisa tão pequena, tão banal.”, recorda: “As idosas, mesmo descobrindo o mistério, vão continuar convencidas de que os espíritos existem. Claro que vão ouvir outros ruídos e vão recomeçar com as suas superstições. Não lhes interessa descobrir o mistério — acreditam que os espíritos existem. Neste caso, gostei que fosse a criança a descobrir, a perceber o que há por trás desse medo.”

O Futuro

Já a trabalhar num novo projeto, Margherita prefere manter o silêncio sobre os detalhes do enredo, mas adianta que, desta vez, nem idosos nem crianças estarão no centro da sua atenção.

Gioia Mia já tem distribuição garantida no Brasil (Pandora Filmes), e tudo indica que em breve chegará também às salas comerciais em Portugal. E chega com mérito: pela profundidade intemporal da sua história, pela sensibilidade na evolução emocional das personagens e pelo diálogo que estabelece entre modernidade e tradição, razão e fé, luto e amor renascido.

Mais do que um retrato da infância ou a velhice, Gioia Mia é um filme sobre transmissão — sobre aquilo que se perde com o tempo, e sobre o que, apesar de tudo, ainda resiste e pode ser partilhado entre gerações.

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