Entrevista a Michel Hazanavicius, o realizador de «O Artista» (The Artist)

(Fotos: Divulgação)

Fascinados com a maravilha que acabáramos de ver, tivemos ainda a oportunidade de partilhar essa emoção com o realizador e atores. Oportunidade para conhecer os bastidores do filme do ano. Agora venham os Óscares.

É curioso vermos este filme mudo a preto e branco, sobretudo numa altura de algum domínio do 3D e dos efeitos especiais. É algo de que sentimos falta, não concorda?

Sim, concordo. Na verdade quem determina o que devemos ver hoje são as estações de televisão, pois são quem tem o dinheiro. E porque sabem exatamente como reage o público. E sabem que se for exibido um filme a preto e branco, as pessoas logo mudam de canal. Por isso não investem nesse formato. O que me levou a variar o tipo de financiamento. 

Foi difícil de encontrar esse financiamento?

Muito difícil. Tive de transmitir confiança aos investidores e encontrar esse equilíbrio no mercado sobre o que poderemos oferecer. É uma combinação estranha. Por isso, temos de encontrar um produtor certo.

Foi o que sucedeu consigo?

Sim, sim. Devo muito ao produtor Thomas Langmann. Ele apostou muto dinheiro no filme. 

Até que ponto este projeto foi um desafio para si? Isto porque é muito difícil fazer este tipo de filme e, sobretudo, fazê-lo bem, como é o caso. 

Obrigado. Para mim, o maior desafio foi toda a parte da escrita do guião. 

Até porque nem existem, diálogos...

Sim, por isso tem de estar tudo bem descrito. Uma boa história é o esqueleto do filme. Os diálogos são a maquilhagem, mas primeiro temos de ter os ossos. Os diálogos podem ser feitos em duas semanas. Mas a estrutura é outra coisa. A história de um ator do cinema mudo era perfeita.

É inevitável pensar nos clássicos desse período. Houve algum filme em particular que o tivesse inspirado?

É claro que tenho a minha cultura do cinema desta época e tenho obviamente os meus preferidos. E vi, de facto, muitos filmes. Mas não para uma referência, mas para compreender o que poderia ou não fazer, quais seriam as armadilhas e a liberdade. Peguei em sete ou oito filmes que mostrei ao diretor de fotografia, ao designer de produção, ao guarda-roupa. Depois, pedi-lhes para se esquecerem de tudo. Há várias parte inspiradas em diversos filmes. Nesse sentido, não tenho problema em me apropriar-me de alguns elementos.

Pode explicar um pouco a intenção de incluir pequenos filmes dentro do filme?

Existiam várias formas de pegar neste projeto. Inicialmente, pensei num filme de espionagem, muito ligeiro, como o Phantomas, o Mandrake. Depois, com o aparecimento do cinema sonoro, quis pegar numa sequencia de ação com musica muito forte. Mas em que o Jean Dujardin diz, logo início, quando está a ser torturado: “Não falarei!”

É interessante vermos o Malcolm McDowell fazer de figurante. Como foi que ele entrou a bordo do projeto?

Foi realmente um privilégio poder ter o Malcolm McDowell participar no filme, mesmo como figurante. Estava a fazer o casting do filme. Um dia o diretor de casting disse-me que o Malcolm McDowell sabia que estava a fazer este filme e que queria encontrar-se comigo e queria participar. Eu não poderia recusar. Encontrámo-nos e gostei da energia dele. Mas não tinha nada de relevante para lhe propor. Mesmo assim ele gostou… Não lhe poderia dizer que não…É realmente um prazer ver este filme, até porque não é apenas um filme feito em 1927. É feito hoje como se fosse 1927.

Que tipo de atenção aos detalhes teve de ter para que o filme tivesse o mesmo realismo?

É uma boa pergunta, porque convenço as pessoas que é um filme antigo, mas na verdade não é. É feito hoje. Por exemplo, a forma como se usava a música não podia ser feita hoje em dia. Porque em muitos casos era demasiado monocórdica. Aí confesso que fiz batota. A música foi composta como a fazemos hoje. E usei 90 anos de sofisticação narrativa para que se parecesse com a daquela época. O mesmo com a forma como os atores interpretam, como se usa a luz, os efeitos especiais. Nesse sentido, usei as ferramentas de hoje.

Teve também um excelente diretor de casting. O Jean Dujardim é perfeito no papel, bem como a Bérénice. 

Não é só o diretor de casting. Eles são meus amigos. A Bérénice é a minha mulher e o Jean é meu amigo. 

Mas incluo todos os figurantes, parecem ter todos caras de época..

Sim, isso é verdade. Descobri algo que não sabia possível, descobrir essas caras. O mesmo com o estilista de cabelo, o maquilhador. Até porque alguns dos melhores planos não são com os protagonistas, mas os planos do público anónimo, nas salas de cinema ou na rua. Foi algo que desenhei.

A sério?

Fiz tudo em story board

Porque quis ser realizador?

Foi o que sempre quis ser. Tive a oportunidade de sê-lo. É difícil explicar. Quando era jovem quis se realizador.

Frequentou alguma escola de cinema?

Não, nem sequer quis tentar. Comecei a trabalhar na televisão e depois fui seguindo. Isso é algo que podemos fazer em França. Vamos fazendo as nossas curtas metragens. Acho que é a melhor maneira de começar.

Lembra-se do primeiro filme mudo que viu?

Quando era miúdo havia muitos cinemas e um deles era especializado em filmes mudos. Fiquei aterrorizado com o Laurel e Hardy. Acho que era muito agressivo. Mas adoro o Buster Keaton. Lembro-me de me rir muito com ele. Gosto também muito do Miúdo, do Chaplin, e também As Luzes da Cidade.

É claro que é difícil não pensar em Serenata à Chuva, quando vemos este filme. 

Acho que vi esse filme quando escrevi o guião. Acho que tem algumas cenas semelhantes, mas é muito diferente. A atriz também é parecida com a desse filme, é verdade…

 
 
 
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