Ivo M. Ferreira: “’Projecto Global’ é um alerta para os perigos da cegueira ideológica”

Grande produção — em orçamento e dimensão — quando colocada lado a lado com a maioria dos filmes portugueses estreados todos os anos, Projecto Global estreou na Competição Big Screen do Festival Internacional de Cinema de Roterdão. Chega agora às salas de cinema português a 23 de abril

“Foi muito bom libertar o animal”, confidenciou o realizador Ivo M. Ferreira, de filmes como Cartas da Guerra (2016) e de séries como Sul (2019) e O Americano (2024), que apresentou o projeto pela primeira vez em 2017, no Festival de Macau. “É um filme caro. E, claro, o facto de tratar determinadas questões morais e neste tema específico não era propriamente o mais óbvio para financiar um filme.”

Ivo M. Ferreira

Protagonizado por Jani Zhao, Rodrigo Tomás e José Pimentão, Projeto Global é ambientado no Portugal dos anos 1980, um período marcado pelo desencanto pós-Revolução dos Cravos, em 1974, e pela crise do 25 de Novembro de 1975. A euforia revolucionária ficara para trás e o país vivia tempos turbulentos. É neste contexto que emerge a FP-25, um grupo armado de extrema-esquerda cujos membros enveredam por um caminho feito de assaltos, violência, amizade, amor e vidas na clandestinidade.

“Sabemos que é um tema sensível da nossa história recente, ainda com feridas abertas. Acreditamos, no entanto, que o Cinema também pode ajudar, de forma singela, a pensar essas feridas. Virão polémicas, à esquerda e à direita, mas acreditamos que este filme vem da paz e caminha para a paz”, afirmou o realizador nos Encontros do Cinema Português, em 2024, aquando da apresentação da produção a exibidores.

Ano e meio depois dessa primeira apresentação, Ivo M. Ferreira sublinhou ao C7nema que não faz filmes para uma audiência específica. “Faço filmes primeiro para o meu gosto e para o das pessoas à minha volta”, justificando assim a possível irritabilidade que o filme possa gerar nos diferentes campos do espectro político. “Essa irritabilidade pode existir porque não há bons nem maus claros. Existe uma violência moral. O espectador não é guiado, não é conduzido a uma leitura única, mas também não lhe é retirada a responsabilidade de escolher.” E acrescenta: “Se houver irritação, talvez seja porque as pessoas escolheram coisas que as irritam.” Deixa, no entanto, uma coisa bem clara: “Nunca passou pela minha cabeça fazer algo apologético ou antidemocrático. Nada disso. Longe disso. O filme mostra violência associada a um desnorte moral, a uma perda de bússola.”

Apesar de ter escrito o guião com Hélder Beja a partir de uma investigação científica que será publicada em livro — editado pela Tinta-da-China e da autoria do historiador Francisco Bairrão Ruivo — o cineasta explica que “o filme é completamente livre” e afiança que aquilo que vemos é ficção. “Houve investigação em arquivos judiciais, conversas com polícias e com ex-operacionais. Isso foi fundamental. Muitas histórias tinham um lado quase burlesco. A conferência de imprensa na praia, por exemplo, é real. Esses elementos foram usados, mas depois tudo foi tratado livremente. As personagens não correspondem a pessoas reais. É ficção pura, mas embebida em investigação.”

Segundo o realizador, “a sociedade da época estava profundamente polarizada”, lembrando que antes do 25 de Novembro de 1975 existiram tentativas de golpe e vítimas mortais, num período que “não foi tão pacífico como muitas vezes gostamos de pensar”. Para Ivo M. Ferreira, a polarização social tende inevitavelmente a produzir ódio e violência, e é precisamente nesse ponto que o filme se assume como um gesto pacifista: “um alerta para os perigos da cegueira ideológica”.

Destacando o grande esforço da NOS Audiovisuais para uma estreia em larga escala já no próximo mês de abril, o realizador sublinha que todo o projeto foi pensado e filmado com o Cinema em mente, tanto no trabalho das sequências de ação, como na recriação da época, evitando quaisquer “oportunismos”. “Quando se instrumentalizam morais, o Cinema desaparece”, explica. “Trabalhámos muito a partir da iconografia da época, da fotografia — Alfredo Cunha, por exemplo —, de álbuns de família e da memória. Há uma cronografia muito ligada à fotografia. Depois, cada departamento afinou: guarda-roupa, som, arte. Tinha de cheirar à época, mas também à minha memória, ou à memória inventada da minha infância.”

Link curto do artigo: https://c7nema.net/xmzn