Notabilizada pela sua atuação num dos filmes mais controversos da década de 2020, Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental, onde interpreta uma mulher cuja vida é virada do avesso após a divulgação de um vídeo sexual com o marido, a atriz romena Katia Pascariu volta a atrair a atenção no novo filme de Ivana Mladenović, Sorella di Clausura, em competição pelo Leopardo de Ouro no Festival de Locarno.
Mais uma vez “dando o corpo ao manifesto” e com uma atuação profundamente marcante, Katia encarna Stela, uma mulher de 36 anos que se apaixona — até ao nível da obsessão — por um músico dos Balcãs depois de o ver na televisão. Determinada a conhecê-lo, aceita a ajuda de Vera, uma estrela glamourosa. Os seus mundos colidem quando Vera promete libertar Stela da sua vida miserável, levando-a para Bucareste, onde gere uma empresa de produtos sexuais.
Numa conversa franca com o C7nema, Katia Pascariu confrontou com as camadas mais profundas do seu ofício: o que a move, a lealdade a histórias verdadeiras, a confiança mútua com realizadores visionários e a coragem de habitar personagens complexas, muitas vezes à margem.
O que é que a atraiu para este projeto?
Em primeiro lugar, foi a Ivana. Já conhecia o trabalho dela como realizadora. Não sei se já nos tínhamos encontrado pessoalmente, mas nunca tínhamos trabalhado juntas. Já tinha visto os filmes dela e admiro muito o seu trabalho, especialmente o seu estilo. Mais até do que a técnica, admiro a coragem dela. Isso foi especialmente evidente em Soldiers. Story from Ferentari (2017), um projeto muito pessoal. Aliás, eu tinha lido o livro antes, e cheguei a pensar: será que é possível fazer um filme a partir disto? E ela conseguiu fazê-lo de forma brilhante. Então, quando me falaram em participar num filme dela, fiquei logo muito interessada.
Como foi a sua abordagem ao papel desta mulher que vive obcecada com um cantor?
No início, li apenas algumas cenas para a audição. Tivemos várias reuniões — acho que comecei com uma ou duas cenas, depois deram-me mais algumas para ler. Só mais tarde é que tive acesso ao guião completo e à história por inteiro. Li o manuscrito, sim. E foi aí que tudo começou a fazer sentido.

E como é a sua abordagem aos papéis que lhe oferecem? Estudou a psicologia da personagem? Qual é o seu método como atriz para encarnar uma personagem destas?
Ligo-me ao papel, mas não acredito muito em mergulhar de cabeça em estados extremos. Quero dizer, não acredito que isso funcione para mim. Quando há ataques de loucura ou coisas muito intensas, acaba por ser demasiada pressão. Mas estou habituada a trabalhar com histórias reais. Faço muito teatro social e político, e nesses projetos estamos envolvidos desde o início na investigação: fazemos entrevistas, conhecemos pessoas, partimos de histórias verdadeiras, de problemas reais.
Sinto que há uma responsabilidade muito grande quando se trabalha com uma história real, especialmente se a pessoa ainda estiver viva. Mas, ao mesmo tempo, acho que isso dá um terreno mais rico e mais seguro. Tens direções mais concretas, mais possibilidades criativas. Há sempre um ponto de apoio: o real. Na vida real, as coisas são muitas vezes mais loucas do que na ficção.
Por outro lado, quando algo é real podes estabelecer limites claros — e, a partir daí, expandir-te em várias direções. Não tens de inventar a partir do nada. Tens de recriar, de tornar aquilo teu, e depois deixar que viva dentro de ti, no teu corpo.
É esta a minha abordagem mais íntima. Além disso, claro, confio muito no realizador. Se for um realizador único, é para ele que me volto. Se for uma equipa, procuro o diálogo com quem criou o projeto. Neste caso, foi sobretudo com a Ivana.
Tínhamos as diretrizes da história real, tínhamos experiências que nem estavam no manuscrito, tínhamos o guião. E aí chega o meu momento: tirar qualquer coisa dessa combinação, fazer emergir algo a partir de tudo isso.
E teve tempo para isso? Foi um processo longo?
Tivemos muita sorte, porque, ao contrário do que acontece normalmente em cinema — pelo menos nos filmes em que participei até agora, que não são tantos —, tivemos tempo para ensaiar. Foi muito importante, especialmente porque trabalhamos com atores não profissionais. Senti que era minha responsabilidade cuidar muito da harmonia, porque é isso que nos prepara, que cria unidade.
Não foi como se eu tivesse criado uma personagem em casa e depois fosse apresentá-la aos outros. Foi um processo de harmonização, de encontrar o equilíbrio entre nós. E isso foi muito bom.
Além disso, o que mais alimenta o meu trabalho são as coisas que o realizador diz — não diretamente, tipo “a personagem é isto ou aquilo”, mas indiretamente, através de ações, metáforas espontâneas que surgem numa conversa sobre algo aparentemente irrelevante. É aí que percebo a “vibração” que eles procuram. Entendo mais do que simples descrições realistas e concretas.
Por isso, ter tido tempo foi essencial. Pude relaxar, deixar que a personagem — a Liliana — se instalasse. Se tivéssemos começado logo a filmar, teria sido mais difícil. Precisava de tempo para deixar as coisas assentarem.
Infelizmente, ainda não tive oportunidade de ver o seu trabalho em teatro…
Estou à espera da sua vinda a Bucareste!

Vou aparecer, sim. Prometo…
Os seus filmes, em especial o Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental e este Sorella di Clausura, são projetos muito ousados. Como atriz, estabelece limites?
Acho que tenho alguns limites, mas não têm a ver com a atuação. Têm a ver com as relações humanas. Se eu tiver uma boa relação com as pessoas com quem trabalho — o realizador, os colegas, toda a equipa —, então avanço. Afinal, é isso que uma atriz faz: entrega o corpo e a alma.
Para mim, não é problema fazer qualquer coisa. Sou aberta a tudo. Mas digo: “Gosto do guião, confio em ti, tu confias em mim — vamos fazer.” E tenho tido a sorte de sentir confiança suficiente para saber que, se existir algo que não me faça sentir bem, não o farei. Nunca faço coisas só porque sim, se não me sentir confortável.
Também tenho tido sorte em termos de trabalho. É importante, porque se não tiveres trabalho suficiente, não consegues viver. E eu tenho tido trabalho suficiente para sobreviver, e trabalho com pessoas em quem confio — e que confiam em mim.
Quanto aos limites artísticos, não os coloco. Acho que todos os atores procuram os desafios mais difíceis. Adoro quando leio um guião e penso: “Meu Deus, como vou fazer isto? Como vou encontrar isto?” E se alguém quer trabalhar comigo, isso já me dá confiança. Digo: “Tu gostas de mim, acreditas em mim — então eu também acredito em ti.”
Mas dada a sua “entrega do corpo ao manifesto”, como vimos no filme de Radu Jude e este da Ivana, existe uma certa atenção mediática sobre si. Como lida com isso?
Lido muito bem. Foi como os meus 15 minutos de fama — e depois voltei ao meu mundo do teatro. Muitas pessoas disseram: “Agora tens de fazer isto, tens de fazer aquilo…” Mas, na verdade, gosto de fazer o que gosto.
Na Roménia, as opções são limitadas, especialmente no cinema. Faço sobretudo teatro e, de vez em quando, tenho a sorte de trabalhar com pessoas muito interessantes, em projetos que me atraem. Há outros realizadores que não querem trabalhar comigo, e tudo bem. O mercado, mesmo o comercial, não é assim tão grande.
Ontem falava com uma atriz francesa que faz sobretudo teatro, mas de vez em quando também aceita papéis no cinema. Ela disse algo muito interessante: quando se trata de cinema, é muito mais exigente na escolha das pessoas com quem aceita trabalhar.
É outro nível — há muito dinheiro envolvido, não só para os atores, mas também uma responsabilidade maior. No teatro, podes experimentar, podes ir a um encontro, começar um projeto com uma equipa pequena, discutir as coisas. Mas no cinema, o filme fica. Permanece. Para sempre.
E isso é divertido para mim, porque, quando vou a um festival com uma peça de teatro, ainda estou a trabalhar. Mas quando vou com um filme, não faço nada — só aproveito. Respondo a perguntas, sim, mas não é como atuar. É muito mais descontraído.

Mas tem deixado a sua marca no cinema…
Tive a sorte de trabalhar com pessoas incríveis. Com a Ivana, claro. Também com o Eugen Jebeleanu, embora tenha sido um papel mais curto e um período mais breve. Foi muito bom. Um pouco com o Cristian Mungiu também, mas foi muito fugaz. E com alguns realizadores mais jovens, muito interessantes.
Mas com o Radu e com a Ivana foi diferente — uma relação mais intensa, com muitas discussões. Admiro os dois imenso. Obviamente, com a Ivana foi diferente: é mais próxima da minha idade, é mulher, e houve talvez uma intimidade maior. Mas com o Radu também senti confiança. E é isso que mais me ajuda: sentir que alguém confia em mim.
Com a Ivana, aliás, ela deve ter contado a mesma coisa — tínhamos todo o material em vídeo, mas quando começámos a filmar, saltámos da sala de ensaio para o set real. Durante uns dias, ainda estávamos a tentar encontrar a “vibração” do filme. Não era exatamente vida real, era realista, mas não um pedaço de realidade. Tínhamos de encontrar o equilíbrio.
Foi muito bom trabalhar com o Marius Panduru, que foi muito mais do que um diretor de fotografia. Deu exemplos, deu feedback, trabalhou intensamente com a Ivana. E quando encontrámos o nosso ritmo no set, tudo se tornou mais claro.
Estava sempre presente a nossa responsabilidade para com os personagens reais, para com a história verdadeira, mas também para com o enquadramento [político, social, económico] — um momento muito complicado do nosso país. Acho que toda a história da Roménia é complicada, mas tínhamos o nosso ponto de vista. Queríamos que ele emergisse, sem magoar quem não devia ser magoado, e magoando quem devia ser.
É por isso que acho que nunca poderei ser realizadora. Um realizador tem de carregar com tudo isso, de gerir todas essas camadas. Eu só tenho de cuidar de mim — é muito mais fácil.
E agora? Tem novos projetos em cinema ou teatro?
Por agora, só em teatro. Mas as coisas são bastante espontâneas, espero que venham muitos filmes na minha direção. No teatro, infelizmente, funcionamos de forma pouco saudável na Roménia — temos um período muito intenso no outono, em que temos de estar em vários sítios, com muitas atuações, e depois há fases em que estamos mais livres, sem tantos espetáculos.
Mas, falando de projetos, acho que aquilo para o qual estamos a preparar-nos é para uma série de protestos. O que está a acontecer… mesmo que a imagem oficial seja de que evitamos um governo de extrema-direita, é que o nosso governo neoliberal está a fazer coisas muito estúpidas, especialmente na educação e na cultura — e na economia, claro, também não está nada bem, tudo em nome da austeridade.
Sou português, sei bem do que está a falar. A palavra austeridade persegue-nos…
Ah, sim, exatamente. Admiro muito Portugal. Se não fosse atriz, seria um lugar onde gostaria de viver. Mas como atriz… não é tão fácil. Adoro Portugal, acho fantástico, mas também está complicado agora. Li um pouco sobre a situação em Lisboa, os preços da habitação, a vida…
E temos atualmente um governo também com forte cunho neoliberal…
Pois, nós escapámos aos extremistas de direita, mas acho que nas próximas eleições continuaremos por este caminho. E acho que na cultura precisamos de reagir mais. Na saúde, as pessoas saem à rua, protestam. Na educação, também. Mas nós, na cultura, somos mais lentos. Tentamos reagir entre nós, mas espero que em breve sejamos mais afoitos publicamente, porque estão a fazer coisas muito estúpidas às instituições — e, no fim, ao público.

