Muitas efemérides se amontoam no caminho de Lírio Ferreira, a ocupa-lo nos próximos meses, em que tira os seus dois documentários mais recentes do forno. Tem “O Menino d’Olho d’Água”, feito em dupla com Carolina Sá, sobre o músico Hermeto Paschoal (lançado no IDFA2024, em Amsterdão), e tem ainda “A Última Banda de Rock”, com foco no conjunto Cachorro Grande. Lá se vão 30 anos desde que ele e o também realizador Paulo Caldas repaginaram os anais da História acerca do cinema de Pernambuco com “Baile Perfumado”, que começou a ser tirado do papel há três décadas e estreou em 1996.
Há 20 anos, ele visitou os Orizzonti de Veneza com “Árido Movie”. Há 10 anos, passou pela Berlinale com “Sangue Azul”, depois de ter conquistado o troféu Redentor de Melhor Filme e de Melhor Realização no Festival do Rio. Antes de rever todos os feitos da sua carreira, o cineasta pernambucano ocupa-se de novo da ficção ao lançar “Serra das Almas”, que estreia nesta quinta-feira no circuito comercial brasileiro. Cercada de elogios quando lutou por láureas na Première Brasil, em outubro, a produção recebeu o Prêmio Netflix na Mostra de São Paulo.
O nome que serve de título à longa-metragem vai além de um simples cenário. Ela se torna uma metáfora poderosa para os caminhos tortuosos da vida, numa narrativa que evoca filmes de culto de Sam Peckinpah (como “The Getaway” e “Bring Me The Head Of Alfredo Garcia”). Na trama, um roubo de joias idealizado por grupo de amigos desajustados, entre eles o “bicho solto” (metáfora de agressividade) Gislano (Ravel Andrade, em feroz atuação), descamba para uma comédia de erros que envolve tanto um político corrupto (Bruno Garcia) quanto uma vaca. Na “Serra das Almas” de Lírio, ressecada na fotografia dionisíaca de Pedro von Krüger, um senso muito peculiar de “dignidade” faz-se notar numa repórter idealista que persegue um escândalo (papel de Julia Stockler); num motoboy de passado nebuloso (Vertin Moura, numa atuação meticulosa); e numa jovem cantora cansada de desilusões (Mari Oliveira).
Na conversa a seguir, Lírio explica ao C7nema como foi operar as cartilhas do thriller e adianta detalhes sobre “Rabo de Foguete”, um projeto em andamento, com produção de Gláucia Camargos, inspirado pelas memórias do dínamo da poesia e crítico de arte Ferreira Gullar (1930-2016) em tempos de exílio.

Existe um lugar para heroísmo em um filme como o “Serra das Almas”? Se sim ou se não, o que seria um “herói” no seu olhar cinematográfico?
O “Serra das Almas” é um filme essencialmente sobre o poder, sobre a passagem do poder, e acho que, obviamente, os heróis serão aqueles que vão se fazer na transição Todas as personagens do filme, tanto femininas quanto masculinas, de uma certa maneira são desajustadas. Pode ser que o desajuste seja ético. Pode ser o desajuste moral. Pode ser um desajuste psicológico ou existencial. Não existe nenhum personagem equilibrado ao ponto de conduzir todas as coisas.
Como se deu a construção das sequências de ação de “Serra das Almas”?
Foi construído com toda a vontade de ver cinema… um cinema como arte coletiva. Fomos assessorados por uma turma muito bacana e contamos também com uma entrega dos atores e das atrizes do filme. Para mim, era uma coisa muito nova essa de ter cena de ação, ter cena de tiro. É uma coisa que eu fui aprendendo muito com toda a equipe e o elenco, que se doou nessa função. Foi de uma aprendizagem total. Houve um ensinamento no processo do tempo disso aí. Há coisas que você aprende na filmagem, na hora da direção, numa construção junta com o elenco. Depois, continua-se a construir na montagem, onde há um tempo diferente.
A sua produção documental é vasta. De que forma a realidade contagia a ficção?
Eu considero muito bacana essa coisa de fazer ficção e documentário ao mesmo tempo e, não necessariamente, separar uma coisa da outra, porque o grande barato hoje é você passar dessas fronteiras. No documentário, fascina-me muito a perspetiva de saíres de um ponto partida, mas não saber exatamente qual será o ponto de chegada, sem ter um controle do que virá. A ficção tem uma coisa um pouco mais amarrada com roteiro (argumento), mas que você pode até dar uma esquecida. É o risco e a dúvida que move esse barato todo.
O que esperar do seu projeto de filme sobre o poeta Ferreira Gullar? Dá para falar alguma coisa dele?
O que é esperar de um filme é esperar e ele fica pronto. Espera é uma coisa muito maravilhosa. É um privilégio jogar um olhar sobre esse recorte da vida do Ferreira Gullar, num momento político muito forte do Brasil, num momento em que ele entrou na clandestinidade.

