Após alguma indefinição nas últimas séries e de demasiada exposição na publicidade, e talvez por causa da participação do elemento mais carismático num programa de rádio político, a equipa do “Gato Fedorento” resolveu seguir o formato de um conhecido programa diário da televisão norte-americana, vencedor de prémios, o “Daily Show”, e adaptá-lo às presentes eleições; mas algo correu mal.
O programa, chamado “Gato Fedorento Esmiúça Os Sufrágios”, acaba por, ao contrário do que o seu nome poderia sugerir, não explorar nenhum tema, limitando-se a procurar o ridículo das situações ou a piada fácil, ao contrário do original que, apesar de também ser humorístico, procura enquadrar e explicar as notícias e as suas consequências. As intervenções dos elementos “menores” desta equipa desigual são acabrunhadas e despropositadas – se de facto a motivação era fazer uma sátira política – ficando-se por um humor infantil e pouco desenvolvido.
Por último ficam as entrevistas efectuadas aos candidatos, onde um visivelmente atrapalhado Ricardo Araújo Pereira, dividido entre a irreverência que o programa pretende e um respeito quase submisso, acaba por ser presa fácil para os comunicadores profissionais que são os políticos, com todas as suas equipas de consultores atrás, ficando o que poderia ser uma entrevista incómoda num mero exercício de relações públicas.
Com toda uma equipa de jornalistas que a SIC tem ao seu dispor, parece-me que seria mais fácil fazer um programa maior, mais complexo e mais adulto. O problema é que, tendo em conta o desinvestimento generalizado na política por parte da população e que as audiências deste programa são maiores que as dos debates entre os candidatos, este acaba por, de uma forma inconsequente e perversa, servir para aumentar a desilusão do público, aumentando o conceito de “circo” que muita gente tem do tema e a descrença no sistema político democrático contribuindo para uma maior abstenção e por um maior controlo da máquina mediática dos partidos, que servem outros interesses, em vez de aumentar a posição crítica do eleitor.
Irreverência seria arriscar fazer um programa que não minimizasse os temas e os espectadores, que desenvolvesse a media literacy de quem o visse e desconstruísse os mecanismos de decepção e engano utilizados.
Este gato já está morto, uma marioneta nas mãos de interesses privados, e o fedor aumenta a cada dia.

