Euphoria: geração milenar irrequieta

(Fotos: Divulgação)

O meu corpo é uma jaula que me impede de dançar com aquele que amo, mas a minha mente mantém a chave“, ouvimos num ponto climático de Euphoria via tema dos Arcade Fire, um dos muitos e muitos aqui tocados em modo playlist, e talvez o que melhor possa resumir a ambição que esta série de Sam Levinson a partir de um original israelita (mais uma, sim) se propõe.

 [pequenos spoilers]

A partir deste ponto, o espectador já viu de tudo: pilas como porventura nunca se mostraram numa série mainstream – a aproximar a obra do babanço de um Larry Clark, sim, mas a conferir também uma vertente bastante realista; um voiceover omnipresente, 95% do tempo entregue à protagonista interpretada pela estrela-Disney-à-procura-de-esfregar-as-mãos-no-lodo-classe-2019 Zendaya, que tende a irritar quem não for à bola com este dispositivo narrativo; e claro, uma plena demonstração do efeito que o vício em narcóticos pode trazer nas pessoas, neste caso em adolescentes com hormonas aos saltos. 

Sim, Euphoria é facilmente rotulável pelo seu piloto como a “série dos putos drogados e excitados à procura de ligações“. O Kids para a geração dos ecrãs. Mas continue-se a assistir, e, de facto, o que começa a sobressair é de facto como a ansiedade, cada vez mais proeminente, numa sociedade pós-11 de setembro, pós-tiroteios semanais nos Estados Unidos em escolas, cinemas ou discotecas, pode desencandear este tipo de escapes em quem de facto nunca teve memória de tempos mais felizes (Rue, a personagem principal, nasceu um par de dias após a queda das torres gémeas, conforme nos é dito pela própria logo nos primeiros minutos do episódio piloto). 

Claro que eventualmente, tudo isto se transforma numa grande novela adolescente, um reality show viciante que para alguns possa estar mais próximo do que queiram admitir, mas uma novela com referências tão “retro” como My So-Called Life e Ms. 45 (de Abel Ferrara).

Temos inevitavelmente a certo ponto uma dinâmica de policial que vai circular em torno de um atleta e do seu pai que têm problemas de controlo de raiva, não pela ameaça terrorista externa mas por uma ameaça interna à sexualidade imposta pela sociedade, a frustração em não poderem viver de acordo com as suas fantasias – algo que acabam por invejar em Jules (Hunter Schafer), que acaba também por ser o objeto de afeição de Rue, e que é alvo de uma das pequenas reviravoltas que a série reserva logo no primeiro terço. Temos o gangster temível, todo tatuado na cara, que deixa num impasse cardíaco todos os que se cruzam com ele. Temos a avantajada que vai-se rebeliar e emancipar através de shows de cam.

Dito isto, e fazendo um “pandan” estranho com a relativamente bem comportada Booksmart (primeira obra de Olivia Wilde, também deste ano), Euphoria mostra uma selva milenar onde geeks e populares deixaram de ter lugares separados, mas sim estão mais juntos que nunca pela ansiedade e depressão que os une a todos, o tal corpo que se sente não sendo deles. Esta expressão é usada uma vez pela personagem transgénero da história, mas bem vistas as coisas, todas as personagens principais com direito a mini-biopic introdutório (para não falar do pai e da mãe de dois deles) estão numa luta na qual sentem que o corpo lhes está a trair. Corpo ou mente, claro, porque afinal é ela que tem a chave…  

E na altura de encontrar um diagnóstico final para esta euforia, podemos pelo menos felicitar Sam Levinson e companhia pelo olhar sempre colado ao adolescente, onde os adultos estão por lá mas não são propriamente vozes da razão, evitando assim um moralismo fácil que outras obras do passado possam ter caído. E isso é mais refrescante, e mais importante, do que possa parecer.

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