Estreado nas salas nacionais na passada quinta-feira, Arco, de Ugo Bienvenu, é uma das pérolas do ano, conquistando as audiências não apenas pela extraordinária beleza visual e delicadeza do traço, mas sobretudo pela forma profundamente emotiva com que conta a história de um rapaz de 10 anos, oriundo do ano 2932, que, inadvertidamente, viaja no tempo através de um arco-íris até 2075.
Nesse mundo do futuro mais próximo, já em colapso ambiental e completamente robotizado, ele conhece Iris, uma menina da mesma idade marcada por uma enorme fragilidade afetiva. A história constrói-se a partir da amizade que nasce entre os dois, refletindo-se sobre a solidão e o ambiente que os rodeia, em especial nas vicissitudes que o mundo adulto lhes impõe. É nessa ligação humana que Arco encontra a sua força e arte.

Orgulhosamente assinado em 2D, Arco surge como um dos títulos bem posicionados na corrida aos Óscares, contando entre os seus produtores com Natalie Portman, cuja intervenção foi decisiva para a sua conclusão. “Ninguém acreditava no filme”, contou Bienvenu ao C7nema, em Paris. “Diziam que não funcionava, pois não tinha antagonistas, violência ou conflito clássico. Trabalhámos com o nosso próprio dinheiro, ficámos sem nada e tínhamos apenas 45 minutos de filme. Quando o nosso agente mostrou o material à Natalie Portman e à Sophie Mas, elas perceberam imediatamente o potencial e ajudaram-nos a terminar. A partir daí, os distribuidores começaram a competir entre si.”
Para o cineasta e autor de banda desenhada, a escolha da animação em 2D esteve longe de ser nostálgica, mas próxima de uma posição estética, ética e profundamente humana. “O desenho ensinou-me muito sobre a vida”, explicou-nos, sublinhando que o que faz um bom desenhador não é a capacidade de reproduzir algo com exatidão, mas a qualidade dos seus erros: “É aí que nos reconhecemos. Nos erros. Na vida, falhamos muito mais do que acertamos. E aquilo que nos torna humanos — e belos — é a qualidade dos nossos erros. Nunca fazemos nada de forma perfeita. Não somos deuses. E é aí que nos reconhecemos uns aos outros. É isso que nos faz acreditar nas coisas.”
A crítica à animação 3D, e sobretudo à inteligência artificial, surge como consequência direta desse pensamento. Para ele, o 3D trabalha sobretudo com as limitações da máquina, e não com as fragilidades humanas. “Sempre preferi as incapacidades humanas às incapacidades da máquina”, afirma, posição que se radicaliza quando aborda a IA: “A imaginação não é só escrever livros ou fazer filmes. Imaginamos constantemente: a cozinhar, a viver, a amar. A IA diz-nos: ‘não se preocupem com o imaginar, nós tratamos disso’. Isso é profundamente perigoso.”

Esse perigo, defende, não é apenas artístico, mas também social. Bienvenu acredita que a inteligência artificial poderá gerar uma nova divisão de classes: de um lado, quem continuará a consumir cultura feita por humanos, que se tornará um bem cada vez mais exclusivo; do outro, aqueles que terão o seu imaginário moldado por conteúdos gerados por máquinas e algoritmos. “A ficção serve para partilhar experiências do mundo e preparar-nos emocionalmente para a vida. Se deixarmos isso às máquinas, vamos criar uma ruptura gigantesca. (…) A tecnologia começou por nos libertar tempo. Mas transformou-se em algo que nos interrompe constantemente. As ideias desaparecem. Passamos a ser guiados por estímulos externos, como máquinas. Isso levanta uma questão grave: estaremos a tornar-nos robôs, enquanto damos aos robôs a liberdade de ser humanos?”
A ficção científica surge, assim, como território natural e o autor trabalha no género há mais de uma década. Na verdade, Bienvenu vê Arco como uma resposta direta a um mundo que, desde cerca de 2019, lhe parece saído “de um mau filme de ficção científica“: “Figuras como Elon Musk usam narrativas da ficção científica dos anos 1950 para construir mitologias contemporâneas. Tudo o que existe no mundo foi desenhado pelo ser humano. Se queremos algo melhor, temos de começar por imaginá-lo.”

E apesar de estarmos perante um objeto claramente optimista, o filme não nasce de qualquer ingenuidade ou romantismo. Pelo contrário. “É otimista porque sou profundamente pessimista”, admite o cineasta, acrescentando que o desejo de ter filhos moldou de forma decisiva o seu pensamento. “Não queria que eles chegassem a um mundo sem luz.” Criar luz e esperança, diz, é mais difícil do que criar escuridão. “Criticar é fácil. Imaginar é difícil. Quis estar do lado das crianças que constroem castelos de areia, não das que os destroem.”
Visualmente, Arco reflete um percurso de vida marcado por passagens e experiências por múltiplas culturas: Bienvenu cresceu na Guatemala, no Chade, no México, na China e nos Estados Unidos. As cores desses territórios, a banda desenhada franco-belga, o impacto de Dragon Ball Z na infância e um certo modernismo europeu fundem-se num estilo retro-futurista, impossível de reduzir a uma única influência.
No fim, a ambição de Arco vai além do seu próprio sucesso. “Se isso inspirar outros realizadores, já valeu a pena”, conclui.






