Ao longo de mais de 40 anos, o haitiano Raoul Peck tem construído uma obra marcada pela desmontagem das narrativas oficiais e pela recusa de uma História consensual. De Haitian Corner (1987) a I Am Not Your Negro (2016), não esquecendo obras como Moloch Tropical (2009), O Jovem Karl Marx (2017), Exterminate All the Brutes (2021) e Ernest Cole: Lost and Found (2024), Peck afirma-se sempre como alguém que vê o cinema além de um espaço de entretenimento ou de mero comentário, mas como ferramenta cívica de análise ao tempo e às estruturas de poder.
Orwell: 2+2=5, que estreia esta semana nas salas nacionais, prossegue essa investigação ao entrar na vida e pensamento de George Orwell, partindo da escrita de 1984, concluída em 1949, pouco antes da morte do autor. Longe de uma mera leitura histórica ou literária encerrada, o filme interroga a origem de conceitos como a novilíngua, a vigilância permanente e o duplo pensamento, mostrando como essas ideias, frequentemente esvaziadas ou instrumentalizadas, falam sobre o presente com uma inquietante precisão.
Recusando a ideia de um cinema “engajado” como exceção, e defendendo que toda a prática artística é, inevitavelmente, política, Peck falou em Paris ao C7nema sobre a erosão da democracia, o papel do cinema na construção de pensamento crítico e dos projetos que prepara para o futuro. Entre eles, um filme sobre Jovenel Moïse, antigo presidente haitiano, e outro sobre Mário Pinto de Andrade e Sarah Maldoror.
O seu trabalho é extraordinário e está sempre a ir contra a História oficial. Contra a narrativa oficial. Esse é o seu trabalho enquanto cineasta, cidadão e homem?
Para mim, esta é uma discussão constante que tenho há quarenta anos com pessoas, jornalistas, financiadores, com quase toda a gente. Vivemos como se cada um de nós fosse apenas jornalista, cineasta, produtor, professor — e não cidadãos. Como se isso pudesse ser separado.
Não é algo que se possa dizer assim: “Ah, eu sou cineasta”, “Ah, eu sou escritor”, e depois viver todos os dias coisas que decidem a vida não apenas das pessoas do teu país, mas de todo o lado. Para mim, democracia significa que és um cidadão empenhado. Tens de participar. Tens de dar. Não apenas quando votas, mas todos os dias. Fazes parte de toda a máquina. Há uma responsabilidade.
A democracia não é um bem de consumo. Não vais a uma loja dizer: “Quero dez quilos de democracia para os próximos dez anos e fico bem.” Não funciona assim.
Tens de lutar por ela todos os dias…
A própria definição de democracia é formar cidadãos informados que participam nos assuntos da cidade. Não é algo que se escolhe aos bocadinhos.
Se não fizeres o teu trabalho, tudo colapsa — como está a colapsar agora. E o colapso não é Donald Trump. Trump é a aceleração. Isto vem de longe: Clinton, Tony Blair, Berlusconi, Sarkozy. As pessoas não querem ver. Foi uma degradação lenta, ao longo de quarenta anos, o reinado do consumismo.
O consumo funciona como uma adição. O cérebro deixa de funcionar bem. Cobres uma adição com outra. Compras, compras, compras. A revolução digital tornou isso ainda mais fácil. Nem precisas de sair de casa. A tua vida fica cheia de coisas, de objetos. É o mesmo no cinema e na televisão. Estamos intoxicados. “Binge watching” — uma palavra que nem existia antes. Isso tem consequências em todos os níveis.
Nunca acreditei que isto aparecesse de repente. Luto contra isto desde que comecei a fazer filmes. Perguntavam-me: “És um cineasta engajado.” E eu respondia: isso quer dizer que é o meu trabalho estar empenhado e que os outros podem estar à vontade? Quer dizer que 90% da indústria está desligada e faz entretenimento, enquanto eu faço o trabalho difícil? Isso é fácil de dizer.

Olhando para o privilégio, muitos crescem a pensar que tudo lhes é garantido — até a democracia. Agora temos extrema-direita um pouco por todo o lado e as pessoas acham que vai ser só uma pequena mudança. Não vai.
Os seus filmes funcionam como alerta e como resistência. Acredita que ainda somos capazes de mudar o que está a acontecer?
Não sei. O que faço é garantir que faço filmes que constroem uma base. A maioria dos meus filmes fala de estruturas, das fundações, de como interpretar a História, a política, a sociedade, o capitalismo, a democracia.
O meu trabalho mínimo é oferecer essas estruturas claras, essas narrativas claras, ligar os pontos. Posso dar um exemplo: quando fiz I Am Not Your Negro, que circulou pelo mundo inteiro, vi que em alguns países as pessoas começaram a discutir a sua própria história. Na Austrália, falou-se dos aborígenes.
Em Portugal também cresceu a discussão sobre a herança colonial…
Sim, mas em França muita gente disse: “Isso é um problema americano.”
Para mim ficou claro: se pensam assim, então tenho de contar a história inteira. Foi aí que fiz Exterminate All the Brutes. Ao fazer esse filme percebi que um dos grandes problemas é que todas as civilizações cortam a relação com a sua história de origem ou inventam uma nova.
A Europa construiu a ideia de que tudo começa na Grécia e em Roma. Não começa. Começa no Egipto. Os filósofos, os matemáticos, foram aprender lá. Mas isso não convém. Nos Estados Unidos, inventaram a história dos peregrinos. Apagaram o genocídio de cem milhões de indígenas. Dizem: “Não é a nossa história.” Mas é. Os nazis aprenderam com vocês.
Não existem dez mil histórias. Existe uma só história, vista de diferentes pontos. Somos uma só raça humana. Quanto mais compreendes os grandes movimentos, mais percebes porque estamos aqui. Tento sempre, através dos meus filmes, ligar esses pontos, dar a imagem geral para que as pessoas compreendam o que lhes está a acontecer num momento específico.
É nesse contexto que surge Orwell: 2+2=5 no seu trabalho?
Sim. Orwell é um dos raros escritores que expôs toda a caixa de ferramentas — não só do capitalismo, mas do fascismo, de todos os regimes autoritários. Ele mostrou como funciona um sistema de poder, os perigos do poder sem limites.
Ele não falava apenas da União Soviética ou da Alemanha nazi. Fazia uma análise geral das sociedades, da sua tendência para dominar, para ganhar poder e mantê-lo. É universal. É profundamente humanista. Em 1984, ele diz claramente: isto pode acontecer na Europa. Em sociedades modernas.
Por isso não o uso como instrumento. Tento dar espaço ao que ele realmente quis dizer. Durante a Guerra Fria, uma expressão que ele mesmo inventou, usaram-no. A CIA financiou a primeira adaptação de Animal Farm. Ele morreu muito jovem, aos 49 anos, poucos meses depois de 1984 ser publicado. Não teve tempo de defender as suas ideias. A direita e a esquerda usaram-no como quiseram.
Ele escrevia de forma clara, com palavras simples, para que todos entendessem. Mas muitas vezes as pessoas escolhem não entender e usam isso como propaganda.
Esquecer a História ou dar outro nome aos factos é para si uma forma de censura?
Claro que é. É uma forma dominante de manter a superioridade. A minha própria história, a história do Haiti, é um exemplo disso. Uso um livro fundamental em Exterminate All the Brutes chamado Silencing the Past, do Michel-Rolph Trouillot.
Se silencias o Haiti e a Revolução Haitiana, impedes as pessoas de compreender o que veio depois. O Haiti foi a primeira revolução de escravos bem-sucedida, a primeira verdadeira república humanista das Américas. Graças ao Haiti, muitos países da América Latina libertaram-se. Bolívar veio ao Haiti duas vezes buscar armas, soldados e apoio político.
Mas essa história foi apagada. Também o papel do Haiti no desenvolvimento do capitalismo foi silenciado. A derrota de Napoleão no Haiti permitiu aos Estados Unidos acumular capital, expandir-se e criar bancos. Sem o Haiti, o capitalismo moderno não existiria da mesma forma. Por isso, tiveram de silenciar essa história.
Silenciar, reescrever, atacar a linguagem — é isso que Trump faz. É isso que Orwell explicou. Atacam o presente e reescrevem o passado. As pessoas ficam sem estabilidade, sem identidade. Todos os novos regimes fazem isto: atacam a ciência, as universidades, a História e a realidade. Destroem a linguagem. E sem linguagem, perdemos a capacidade de pensar.

Falando do Haiti, está ainda a trabalhar no documentário sobre o Jovenel Moïse?
Sim. Trabalho nele há quatro anos. Sei completamente o que aconteceu. Falta fechar algumas pontas. Quero terminá-lo este ano. Foi uma investigação longa, com pessoas de muitos países. A história é clara. É o mesmo modelo que vimos noutros casos. Houve mercenários colombianos e algo que eles não esperavam: foram presos.
Há um julgamento no Haiti e outro em Miami, previsto para março. Estou à espera disso para fechar a investigação.
E tem mais algum projeto na mente?
Sim, vários. E tenho um projeto para o qual espero encontrar um parceiro português. É sobre o Mário Pinto de Andrade, uma das figuras fundadoras da revolução angolana. A família pediu-me para o fazer. Conheci-o, conheci a Sarah Maldoror. Será um documentário criativo, uma grande história de amor entre dois militantes políticos.






