Morreu o prolífero ator francês Michel Piccoli

(Fotos: Divulgação)

Participou em mais de 230 filmes.

Morreu o lendário Michel Piccoli, ator de longa carreira que trabalhou com cineastas como Luis Buñuel, Jean-Luc Godard, Marco Ferreri e até mesmo Manoel de Oliveira. A notícia foi avançada pela Agence France-Presse e pelo jornal Le Figaro, através das declarações dos seus familiares. Tinha 94 anos.

Vindo de uma família de músicos, Michel Piccoli tornou-se uma das figuras francesas mais reconhecidas do cinema, como também do teatro. Estreou-se no grande ecrã em 1945, como figurante em Um Sino na Montanha (Christian-Jaque, 1945), prosseguiu em pequenos papéis até à chegada da década de 60, onde assumiu papéis secundários de relevância em filmes como O Baile dos Espiões (Michel Clément e Umberto Scarpelli, 1960), o épico romano A Rebelião das Escravas (Carlo Ludovico Bragaglia, Vittorio Cottafavi e Peter O’Cord, 1961), Quando Nasce o Ciúme (Stellio Lorenzi, 1962), uma pequena participação em Adieu Philippine (Jacques Rozier, 1962) e O Dia e a Hora (Renée Clement, 1963).

Foi com Jean-Luc Godard e o seu Desprezo (1963) que Piccoli atingiu o reconhecimento. A partir daí, ainda na década de 60, seguiram-se trabalhos com Luís Buñuel (Diário de Uma Criada de Quarto, A Bela do Dia, A Via Láctea), Costa-Gavras (6 ª. Testemunha), Paul Vecchiali (Dinheiro Amargo), Roger Vadim (Queda no Abismo, ao lado de Jane Fonda), Alain Resnais (A Guerra Acabou), Agnès Vardas (Páginas Íntimas), novamente com Renée Clemente (Paris Já Está a Arder?), Jacques Demy (As Donzelas de Rochefort), Marco Ferreri (Dillinger Morreu), Alain Cavalier (A Chamada), Mario Bava (Diabolik) e Alfred Hitchcock (Topázio).

A Grande Farra (La Grand Bouffe, 1973)

Já nos “loucos” anos 70, Piccoli assume-se como um dos atores franceses de pedigree, sendo mais seletivo nos seus papéis e colaborações. Aqui contam-se as presenças pontuadas na filmografia de Claude Sautet (As Coisas da Vida, O Estranho Caso do Inspetor Max, César e Rosália, Os Inseparáveis, Entre Duas Mulheres), Claude Chabrol (A Década Prodigiosa, Núpcias Vermelhas) e a continuação com Luis Buñuel (O Charme Discreto da Burguesia, O Fantasma da Liberdade) e Marco Ferreri, neste último contando com alguns dos seus filmes mais controversos, Liza, A Submissa (1972), A Grande Farra (1973), Não Toques na Mulher Branca (1974) e A Última Mulher (1976).

Acrescenta-se ainda o protagonismo em Geração Estragada (1977), de Bertrand Tavernier. A sua capa de sedutor colocou-o ao lado de algumas das mais cobiçadas atrizes da indústria francesa, e não só, desde a sua eternizada cumplicidade com Catherine DeNeuve, passando por Romy Schneider, Jane Birkin, Stéphane Audran e Valentine Tessier. Para além disso, tornou-se parceiro de longa data de estrelas como Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi e Gérard Depardieu.

Na década seguinte, chegou a consagração, com prémios nas principais certames da Europa como em Cannes (Prémio de Ator em 1980 por Salto no Vazio, de Marco Bellocchio) e Berlim (partilhou o Prémio de Interpretação em 1982 com Une Étrange Affaire, de Pierre Granier-Deferre). Já nos Césares, conseguiu as suas primeiras nomeações com Une Étrange Affaire e La diagonale du fou (Richard Dembo, 1984). Neste período trabalhou com Ettore Scolla (A Noite de Varennes), Liliana Cavanie (Atrás da Porta), Youssef Chahine (Adieu Bonaparte), Leos Carax (Má Raça), Jacques Doillon (A Puritana), e novamente com Jean-Luc Godard (Paixão), Jacques Demy (Um Quarto na Cidade), Claude Lelouch (Partir e Voltar).

A Bela Impertinente (La Belle Noiseuse, 1991)

Nos anos 90, Michel Piccoli contrariou a tendência da ascensão das produções televisivas como resposta à decadência da indústria cinematográfica francesa desta época, sendo que a sua presença no pequeno ecrã foi escassa. Possivelmente, foi com esta sua resistência que Agnès Varda o considerou como personificação da sétima arte no seu filme-tributo dos 100 anos do cinema em Les Cent et une Nuits de Simon Cinéma (1995).

Uma das suas participações mais emblemáticas aconteceu também nesta década, como o pintor Edouard Frenhofer na A Bela Impertinente (Jacques Rivette, 1991) e na sua versão reduzida Divertimento (1993), em que reproduzia as curvas do corpo de Emmanuelle Béart. Trabalhou ainda com Louis Malle (Os Malucos de Maio, cujo seu desempenho recebeu um prémio especial em Veneza), Jean-Claude Brisseau (L’ange noir), Sergio Castellitto (Libero Burro), Raoul Ruiz (Genealogias de um Crime) e em 1996 reúne com Manoel de Oliveira para protagonizar Party, dando inicio a uma nova cumplicidade.

Já no novo milénio, colaborou com Bertrand Blier (Les Acteurs), Claude Miller (A Pequena Lili), Theodoros Angelopoulos (A Poeira do Tempo), Nanni Moretti (Habemus Papa), Bertrand Bonello (De La Guerre), Otar Iosseliani (Jardins no Outono) e Hiner Saleem (Sous les Toits de Paris), com qual foi distinguido como Melhor Interpretação no Festival de Locarno de 2007), e fortaleceu ainda o seu trabalho com os cineastas Raoul Ruíz (Aquele Dia, e o póstumo e finalizado por Valeria Sarmiento, Linhas de Wellington), Jacques Rivette (Não Toquem no Meu Machado), Alain Resnais (Vocês Ainda Não Viram Nada), Leos Carax (Holy Motors) e Manoel de Oliveira (Vou Para Casa, Espelho Mágico, Belle Toujours).

Belle Toujours (Manoel de Oliveira, 2005)

Michel Piccoli foi também dirigido por uma das suas parceiras de ecrã, Jane Birkin, em Boxes (2007), e acrescenta-se a sua aventura na realização, iniciando-se em 1991 num segmento de Contre l’oubli (ao lado de Jean-Luc Godard, Chantel Akerman, Jean-Michel Carré, Jane Birkin, Jacques Doillon, Claire Denis, entre outros), um gosto que o acompanhou em outras quatro obras: a curta Train de Nuit (1994), E Então (1997), La Plage Noire (2001) e C’est pas Tout à Fait la vie dont J’avais Rêvé (2005).

O ator ainda recebeu um prémio honorário na edição de 2011 dos European Film Awards.

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