Yorgos Lanthimos dá um presente de grego, no melhor sentido, em Locarno

(Fotos: Divulgação)

O cineasta grego apresentou a curta Nimic

Às vésperas da esperada projeção de Era uma vez… em Hollywood na praça pública, no que promete ser um evento de proporções lacrimejantes… e de polémica, dado o teor do novo filme de Quentin Tarantino, o 72º Festival de Locarno viu uma curta-metragem se tornar a sensação mais disputada desta sexta-feira, graças ao nome por trás da sua realização: no caso, o nome Yorgos Lanthimos. Neste ano em que chegou aos Oscars, nomeado por A Favorita à estatueta de melhor realização, o cineasta grego de 46 anos traz ao evento suíço Nimic, uma experimentação de 12 minutos, com Matt Dillon no papel central. É a história de um inusitado encontro de um violoncelista com uma força estranha, em pleno metro.

Prefiro sempre pensar que o tipo de cinema que faço é uma reflexão sobre a justiça e sobre escolhas. E vejo o inusitado como uma comédia“, disse o cineasta ao C7nema em Veneza, em 2018, quando Nimic ainda estava no papel.

Uma fila -se formou na porta do La Sala, com a plateia ansiosa para ver o realizador de A Lagosta (Prémio do Júri de Cannes, em 2015) exercitar-se num formato diferente, tensionando fronteiras morais. “No cinema, é preciso coragem de arriscar estar com realizadores que transgridem as normas“, disse Dillon ao C7nema, antes das filmagens.

Na seleção competitiva de 2019, a sexta-feira foi dedicada ao amor, com dois concorrentes de forte potência na direção. De um lado veio a história de amor assolada por dilemas de luta de classe, Douze mille, de Nadège Trebal (França). Do outro lado, chegou uma imersão nos dilemas da fé católica mezzo italiana, mezzo argentina) Maternal, de Maura Delpero. Este último foi ovacionado, sobretudo pelo desempenho da atriz Lidiya Liberman no papel de uma freira dedicada a cuidar de mães solteiras na América do Sul. O humor das crianças que integram o elenco é contagiante.

Do que já foi visto até agora, pouca coisa neste festival desconsertou tanto a cidade e os visitantes estrangeiros quanto A febre, de Maya Da-Rin. Mergulho existencial nos dilemas de um índio de Manaus, o concorrente brasileiro segue arrebatando elogios e incandescendo debates sobre a erosão das tribos. Ele abriu a competição oficial, na quinta-feira, apoiado no talento de um elenco encabeçado por Regis Myrupu, no papel de Justino.

Nas telas, vemos Manaus como uma cidade industrial cercada pela Floresta Amazónica. Nela, Justino, um indígena Desana de 45 anos, trabalha como vigia no porto de cargas. Desde a morte da sua esposa, a sua principal companhia é sua filha mais nova, Vanessa, com quem vive em uma casa na periferia. Enfermeira num posto de saúde, Vanessa é aceite para estudar medicina em Brasília e terá que partir em breve. Com o passar dos dias, Justino é tomado por uma febre forte, sem explicação aparente. A moléstia aparece quando ele passa a ser investigado pela equipe de RH do porto, por ter (supostamente) dormido em serviço. Durante a noite, uma criatura misteriosa segue os seus passos, rondando o seu ambiente. Durante o dia, ele luta para se manter acordado no trabalho. A rotina tediosa do porto é quebrada pela chegada de um novo vigia, Wanderley, interpretado por um inspirado Lourinelson Vladimir. Enquanto isso, a visita do seu zeloso irmão faz Justino rememorar a vida na aldeia, de onde partiu há 20 anos. Entre a opressão da cidade e a distância de sua aldeia na floresta, Justino já não pode suportar uma existência sem lugar.

Estou muito feliz que “A Febre” esteja participando da Competição Internacional. Meu filme anterior, “Terras”, também estreou em Locarno. É um festival que conta com uma seleção de filmes muito interessante, sempre apostando em um cinema arriscado e autoral ao mesmo tempo em que também exibe filmes de amplo diálogo com o público“, diz a cineasta. “Apresentar o “A Febre” aqui abre não apenas uma série de portas para a trajetória futura do filme como, principalmente, chama a atenção da comunidade internacional para a realidade atual do nosso pais, num momento em que o meio ambiente, os direitos dos povos indígenas e a cultura estão tão ameaçados“.

Neste sábado, a atriz Hilary Swank conversa com a imprensa sobre o prémio honorário que recebeu na noite de sexta, de Locarno, pelo conjunto de sua carreira, duplamente oscarizada. O festival chega ao fim no dia 17, com a exibição do drama japonês To the Ends of the World, de Kiyoshi Kurosawa.

Últimas