Adeus Jean-Claude Brisseau, o importante cineasta social que se tornou num realizador “maldito”

(Fotos: Divulgação)

O cineasta francês Jean-Claude Brisseau, responsável das obras como Céline, Coisas Secretas e Os Anjos Exterminadores, morreu este sábado (11/05) num hospital em Paris, na sequência de uma doença prolongada. A sua morte foi revelada pela família ao jornal Le Monde. Tinha 74 anos.

Figura controversa do cinema francês devido à sua condenação em 2005 por assédio sexual a duas atrizes durante a rodagem do seu Coisas Secretas (2002) – filme que abriu a sua trilogia Tabu e que um ano depois o impulsionou a ver a sua carreira recompensada através do Prémio France Culture -, Brisseau teve dificuldades depois desse episódio em financiar as suas obras. Mesmo com uma tentativa de regresso com Anjos Exterminadores (2006), o filmes seguintes do cineasta obtiveram orçamentos cada vez mais reduzidos. Em 2017, em consequência do movimento #metoo, protestos levaram a Cinemateca Francesa a cancelar uma retrospetiva planeada à sua obra.

Anjos Exterminadores (2006)

Sobre esse cancelamento e as consequências que se viam do #metoo, Brisseau viria a declarar que os tempos atuais de “delação” revoltavam-no e que viviamos novamente numa “histeria mccartista“: “Confesso que o caso da minha retrospectiva cancelada na Cinemateca escandalizou-me (…) Quando vemos o que acontece nas artes, onde abordamos um conto de fadas e dizemos que o príncipe da Bela Adormecida é um predador sexual, sinto que estamos a caminhar de forma irracional. Entrámos numa época de caça às bruxas”.

Porém, muito antes dessa aura negra que de certa maneira silenciou o seu óbito em muita imprensa, Jean-Claude Brisseau assumiu-se como um dos importantes cineastas da França contemporânea. Declarou-se cinéfilo “à moda antiga”, como se comprovou nos seus dois últimos filmes (A Rapariga de Parte Nenhuma e Que o Diabo nos Carregue), os quais foram rodados no seu apartamento em Paris. Aí, as prateleiras preenchidas com DVDs e livros de todo o tipo de Cinema refletiam essa aura quase eremita de Brisseau, mais do que as referências que o próprio colocara nas suas narrativas com espaços para filosofias e discussões meta que sobretudo remetiam ao seu interesse pelo desejo feminino.

A trilogia Tabu é o culminar dessa sua tese que persegue o derradeiro desejo da Mulher. 

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