Estar indignado é uma condição natural das pessoas nos últimos tempos. Um exemplo bem recente é a indignação de grande parte do público com os 90 mil espectadores em quatro dias de «Morangos com Açúcar – O Filme», algo que transformou a obra na maior estreia de sempre (nos primeiros quatro dias) em Portugal (dados apenas desde 2004).
Há que notar que este resultado é apenas o 8º melhor do ano, ou seja…se em termos de cinema português é fabuloso, em termos globais não passa de um valor bem conseguido, mas nada mais. Será assim um grande problema o filme ter conseguido esta marca? Pessoalmente acho que nem por isso. Vergonhoso é sim que todos os outros filmes portugueses tenham sido espezinhados pelo público ao longo dos anos. Admite-se que «Sangue do Meu Sangue» tenha tido só 21 mil pessoas? Ou que «Tabu» ficasse pelos 20 mil? Tem algum nexo Manoel de Oliveira, o nosso cineasta vivo mais famoso e consagrado, ter conseguido cerca de 29.315 pessoas nos seus últimos seis filmes em exibição? Sim, «Morangos com Açúcar – o Filme» conseguiu mais no primeiro dia que Manoel de Oliveira em seis obras. Isso sim é algo que se devia pensar. Debater mesmo, sem os fundamentalismos que parecem assolar a nossa sociedade – não só em crise financeira, mas profundamente cultural.
Filmes de Manoel de Oliveira
Estar aqui a dizer que «Morangos» é o maior mal que veio ao mundo e que é uma novela de TV no cinema – que o é – torna-se assim completamente irrelevante, pois a verdadeira situação com que nos devíamos focar é na ausência de público no cinema nacional, e não o excesso que esta telenovela/série teve no grande ecrã.
Esta mensagem é também importante numa altura em que se fala tanto de serviço público da RTP em Portugal. Como bem se viu, a TVI entupiu a sua programação com a promoção à obra, levando mesmo atores ao seu telejornal. Lembro-me de quando saiu «O Crime do Padre Amaro» – que para já é o maior sucesso de sempre do cinema nacional desde 2004 – a SIC ter usado a mesma fórmula de o promover em toda a linha na sua programação. Com «O Filme da Treta», idem. Antes mesmo de haver os dados de audiência do ICA, «Adão e Eva» e «Zona Jota» tiveram sucesso à conta da SIC.
Por isso, aqui fica uma crítica ao dito serviço público português, na figura da RTP. Fazer meia dúzia de spots publicitários a horas absurdas, é simplesmente esgotar recursos. A RTP precisa de um plano para realmente saber promover uma obra, pois nessa sua vertente tem falhado redondamente. Não basta ser co-produtor. A maior ajuda que podem dar é na promoção.
Já os portugueses, em vez de se queixarem do resultado dos «Morangos», canalizem essa indignação para ajudar outros filmes a conseguirem melhores resultados. O cinema português agradece e seria bom os nossos filmes deixarem de ser apenas sucessos da crítica e festivais e começassem a ser também sucessos de bilheteira.

