Depois de termos mostrado no dia 26 os melhores do ano para o C7nema [ver aqui], vamos à lupa ver as escolhas individuais de cada um dos colaboradores do c7nema que contribuíram para esse top. Aqui ficam as escolhas de Roni Nunes.
Febre Do Rato (passou no Festin)
Se quem tem de mostrar as partes bonitas do Recife (Brasil) é a Secretaria de Turismo, como diz Cláudio Assis, por outro lado o seu retrato dos bairros de lata da cidade tão pouco se resume a desfiles de misérias e de estereótipos de um certo cinema de cunho social. Ainda mais realista, a obra é um mergulho na visceralidade deste mundo, na violência das suas paixões, aqui sublimadas pela poesia de cordel do poeta Zizo (Irandhir Santos, numa das grandes interpretações do ano), tudo enquadrado por um trabalho de grande maturidade estética.
Para Roma Com Amor
Daqueles raros exemplares de cinema para “massas” que consegue reunir acessibilidade com inteligência e emoção. Ao mesmo tempo extremamente cómico, consegue repassar o universo temático do autor sem parecer repetitivo e, como tal, pôr-se uns bons furos acima de qualquer concorrência.
Elena
Sob plácidas manhãs iluminadas pela soberba fotografia desfilam as mazelas da Rússia pós-comunistas, repleta de capitalistas gananciosos, desempregados crónicos, jovens ricos mimados e jovens pobres violentos, todos sem rumo – ambos os grupos sem rumo. Um pouco acima disto tudo paira Elena, uma dona-de-casa aparentemente inofensiva. Da economia de recursos e da precisão dos pequenos estratos sociedade, “Elena” obtém a força de um grande filme.
O Substituto
Abordagem social onde a decadência do ensino escolar nos bairros degradados cruza-se com a pungente trajetória pessoal do professor vivido por Adrien Brody (com grande atuação). A enorme qualidade técnica de Tony Kaye serve aqui à medida para um retrato intenso e passional.
Rust’n’bones (passou na Festa do Cinema Francês)
Marion Cotillard vai espalhando seu talento por Hollywood fora, mas é no arthouse europeu que tem realmente hipótese de mostrar o que vale, o que o faz aqui com uma atuação magistral. Seu partner Mattheus Schonaerts está igualmente bem, num filme intenso e inesquecível, ancorados em como binómios saúde/doença, compaixão/indiferença, amor/sofrimento.
Dans La Maison (passou no Lisbon & Estoril Film Festival)
O professor de literatura vivido por Fabrice Luchini diz que os “bárbaros” já invadiram o Ocidente e estão dentro das salas de aula francesas. Para o contrariar encontra um jovem prodígio que vai apoiar e cuja relação servirá para François Ozon se mostrar, num poético e intenso labirinto metalinguístico, o poder e a beleza da criação artística.
Michael
Impressionante tratamento dado ao temível tema da pedofilia. Um discípulo de Haneke que só pode orgulhar o mestre, que conseguiu aqui uma abordagem e um alcance a milhas do melodrama, onde a tentativa é de dissecar a mente do agressor e não da vítima. O que definitivamente não lhe retira a força dramática.
Holy Motors
A transgressão é um objeto do passado na mesma medida que o mundo das máquinas cujo fim Leos Carax pretendeu representar. Este retrato à beira do dadaísmo beneficia-se ainda da grande qualidade técnica do cineasta francês e de uma atuação magistral de Denis Lavant.
Terraferma
Belíssimo retrato sobre a travessia desesperada dos imigrantes africanos no Mediterrâneo, que vão dar às costas de Itália. Proibidos pelo governo italiano de lhes dar refúgio, os pescadores movidos pelo velho código dos homens do mar recusam-se a deixá-los morrer no mar. É sob esse cenário que se dá o processo de entrada na vida adulta do jovem Filippo (Filippo Pucillo).
O Moinho E A Cruz
Registo histórico do cineasta polaco que une pintura e os tempos cruciais da civilização do Renascimento, cujos novos valores iniciaram a construção do mundo moderno. Partindo da animação de um quadro de Brueghel, Majewski vai expandindo o seu tema para um belo panorama de uma época.