Cineastas unem-se contra os novos planos para a Cinecittà

(Fotos: Divulgação)

Um dos espaços mais importantes da história do cinema mundial, a Cinecittà, está em risco. De acordo com a imprensa internacional, o complexo de teatros e estúdios situados na periferia oriental de Roma, que foi privatizado nos anos 90, pondera uma reestruturação e a transferência para outras empresas de diversas funções asseguradas pelos estúdios. Entre as ideias que foram avançadas, pensa-se construir um complexo hoteleiro recheado de espaços “economicamente viáveis e rentáveis”, como ginásios de fitness e SPA’s.

Como seria de esperar, e dada a importância deste espaço no património mundial (especialmente em termos cinematográficos), as reacções contrárias a esta ideia fizeram-se sentir um pouco por todo o globo. Se localmente os trabalhadores da Cinecittà ocuparam na segunda-feira, com apoio dos sindicatos, os históricos estúdios em protesto contra os planos de reestruturação – que podem levar ao desmantelamento das atividades cinematográficas no local, em termos globais diversos cineastas e instituições ligadas ao cinema apelam ao governo italiano para que tome uma posição de força contra estas medidas. Uma das primeiras associações a apoiar a greve dos trabalhadores foi a ANAC, a associação italiana de realizadores. A voz do lendário cineasta italiano Ettore Scola foi também ouvida bem alto e chegou rapidamente em França, onde a ARP, a associação francesa de autores, realizadores e produtores, se juntou aos protestos.

Rapidamente foi criada uma petição contra estas medidas e Claude Lelouch, Costa-Gavras, Michel Hazanavicius, Cédric Klapisch e Coline Serreau foram dos primeiros signatários. A eles juntaram-se nomes como Radu Mihaileanu, Jean-Jacques Beineix, Jeanne Labrune, Olivier Nakache, Artus de Penguern, Jean-Paul Salomé, Abderrahmane Sissako, Raoul Peck e Bertrand Tavernier, entre outros. Este último mostrou-se mesmo extremamente enraivecido e desanimado com a ideia, afirmando que «existem muitos poucos estúdios no mundo que viram nascer tão bons filmes como a Cinecittà». Continuando, Tavernier acrescenta que «esta evoca o sonho», e remete os problemas atuais com a falta de capacidade comercial da empresa que gere o complexo. «Existem menos filmes a serem filmados que antigamente, mas existem inúmeros filmes que anseiam para ser filmados num estúdio. Por isso, este é um problema de uma política comercial muito pouco inteligente.»

Vale a pena referir que a Cinecittà foi inaugurada em 1937 por Benito Mussolini para estimular o cinema italiano, mas foi nos anos 50  e 60 que se estabeleceu mundialmente com um dos estúdios cinematográficos mais importantes do globo, tendo ocorrido nos seus espaços as produções de obras como «Quo Vadis» (1951), «Ben Hur» (1959) e «Cleopatra» (1963). Os nomes de Federico Fellini, Luchino Visconti, Luigi Comencini e Alberto Lattuada estão também muito ligadas aos estúdios, e até mesmo Martin Scorsese filmou no local a sua obra «Gangues de Nova Iorque». «Um Peixe Fora de Água», de Wes Anderson, «A Paixão de Cristo», de Mel Gibson, e a série de TV «Roma» são outros projetos relativamente recentes que utilizaram o espaço.

Nos últimos anos, e dada a explosão e migração da maioria das produções para os países do leste europeu, a Cinecittà perdeu bastantes “clientes”, especialmente internacionais, que agora preferem – a custos mais contidos – filmar na Republica Checa, Hungria, Bulgária e antigos países que formavam a Jugoslávia, como a Croácia e a Sérvia.

Últimas