Era uma vez em… Karlovy Vary

(Fotos: Divulgação)
Depois de Cannes, Veneza, Berlim e Toronto, o certame que assinala a entrada do Verão europeu é há muito um paragem obrigatória para muita gente do cinema. Cineastas de várias paragens, e não só do centro europeu, jornalistas do meio e muitos cinéfilos dão corpo à mole de entusiastas que se reúne com regularidade na cidadezinha balnear a 90 minutos de Praga. Na 47ª edição, o festival de Karlovy Vary reuniu uma vez mais algum do bom cinema que se faz no mundo e enriqueceu as variadíssimas secções oficiais, em competição e fora de competição, para além dos inúmeros tributos. É obra. Desde logo, obra do presidente Jiri Bartoska e do seu diretor artístico Karel Och. Sempre com salas cheias. É bom ver um festival assim.

Helen Mirren, rainha de Karlovy Vary

A dama Helen Mirren deu a aura de glamour ao certame, no papel honorífico merecedor de mais um prémio de carreira. E será seguramente o motivo da próxima curta hilariante, sempre a preto e branco, em que os diversos homenageados envergonham ao máximo a distinção recebida. É humor do mais sibilino, em pouco mais de um minuto de cinema de parodia em jeito de homenagem. Há exemplos máximos, mas citamos apenas dois, como o de Jude Law a ostentar o prémio devidamente alterado em substituição do emblema roubado do seu Rolls Royce descapotável, de um John Malkovich envergonhado a confessar ao taxista americano que esse prémio não foi nenhuma Palma de Puro, prémio de melhor ator, realizador… Só vendo, mesmo.

Mas Helen Mirren provou que é uma grande dama proporcionando uma fantástica conferência de imprensa, ao lado do marido Taylor Hackford, a propósito do filme The Door, que rodara com o húngaro István Szabó. Na concorrida conferencia de imprensa sublinhou o empenho das mulheres nos diversos processos criativos do cinema e, respondendo à nossa pergunta, não se escusou a referir a forma como ela própria afirmou o seu feminismo, mesmo que tenha frequentemente aceite tirar a roupa no ecrã. Não a  considerou “uma forma de poder feminino”, sublinhando “não compreender porque as mais diversas formas de violência não são consideradas tabu e revelar uma parte do nosso corpo é imediatamente censurado”. Mas adiante, quando o marido referiu que filmara com ela em Lisboa algumas cenas de White Nights (1985), aproveitámos para a questionar sobre a sua estada na nossa capital. E a sua resposta não poderia ser mais categórica: “Apaixonámo-nos em Lisboa!”

Rodrigo Areias deixa marca na competição

Na seleção oficial, Estrada de Palha sublinhou a aliciante proposta do português Rodrigo Areias servindo-se do género western para prosseguir um caminho bem mais ambicioso que o magríssimo orçamento permitia. Ainda assim, a jornada do cowboy interpretado por Vítor Correia, uma espécie de sósia de Lee Van Cleef de The Good, The Bad… and the Ugly, deixou a sua marca no festival. A prová-lo a recomendação recebida pelo júri da secção ecuménica.

Percebe-se que Rodrigo Areias não deseja trilhar os clichés do filme homenagem, mas antes servir-se do género para o impregnar de várias leituras sugeridas pelos significados dos intertítulos de “Desobediência Civil”, o tal tratado anárquico do americano Henry David Thoreau, e os a acordes de The Legendary Tigerman e Rita Redshoes para dar intensidade sonora às imagens deste western em transito da Serra da Estrela para Castelo de Vide. Pode não ser nem o melhor nem o pior western, mas percebe-se que Areias vai no caminho certo para se tornar num grande realizador.

Vimos ainda Camion, o interessante representante canadiano, da região do Quebec, que faz depender de um grave acidente de viação a mudança de vida de um velho motorista de pesados, mas também olhar para a sua reforça e a relação com os seus dois filhos. E estes entre eles. É um daqueles casos de filmes escorreitos, bem feitinhos e com uma noção acertada de cinema. Pena é que parece que nos queria levar mais longe nesta viagem, anda que, infelizmente, nos abandone sem nos mostrar tudo o que desejávamos ver.

Enfoque polaco

Ainda dentro da competição, embora na secção East of the West, vimos um outro western atípico, Yuma, de Piotr Mularuk, que nos mereceu alguma atenção. Neste caso, a mesma comunhão de interesse pelo género, bem como uma experiência de vida prolongada nos Estados Unidos. Na sua estreia em formato de longa, aborda as relações promiscuas entre as fronteira alemã e polaca em plenos anos 90, muito depois da abolição da cortina de ferro. Ainda assim, do lado de lá olha-se para o El Dorado. É esta a história do jovem Zyga (o talentoso Jakob Gierszal) e do seu pequeno gangue de larápios. Em pano de fundo ainda a referencia ao clássico de Delmer Daves, 3:10 to Yuma, de 1957. Um filme de ação agradável para uma estreia interessante. Publicaremos em breve a entrevista.

O outro filme polaco que vimos foi o dececionante Shameless, uma oportunidade de mostrar uma ligação escaldante entre meios-irmãos, invadida por intromissões neo-nazis e de ciganas com pretensões legítimas de quebrar o destino familiar e seguir uma carreira académica. O problema é que a aposta parece estar mesmo no picante da relação entre o jovem Tadzik, um Mateusz Kosiukiewicz, com ares de novo Leonardo DiCaprio, e a “mana” Agnieszka Grochowska. Sabe a pouco. E o cinema que vemos do promissor Filip Marczewski, já premiado, também não altera nada.

Seja como for, o cinema polaco esteve em força em KV, com uma mostra de nove filmes, entre longas, curtas e documentários.

Melville em retrospetiva

Redescobrir Melville, o tal cineasta que recorda com nostalgia os tempos de guerra, quando o cinema lhe ofereceu as personagens mais marcantes. E que bem o conheceu, Rui Nogueira, o tal português de boina e óculos escuros convidado para apresentar os filmes do francês autor de Le Samurai, L’Ármée des Ombres, Les Enfants Terribles, os três filmes que tivemos oportunidade de ver, para alem do documentário Code Name Melville, de Olivier Bohler.

Foi um dos poucos cujo trabalho foi reconhecido durante a revolução da nouvelle vague, em grande pela sua cinefilia, proximidade com os americanos. Seja como for, seria já nos anos 60 que faria as suas maiores obras-primas, como Le Samurai, com Alain Delon a dar espessura a um dos hitman mais glaciais do cinema, mas também com Le Loulos, já com Jean-Paul Belmondo, o seu outro herói, ou O Exército das Sombras, com Lino Ventura.

No entanto, a maior descoberta acabou mesmo por ser Ruo Nogueirrá (como dirão os franceses). Personagem singular da cinefilia que motivou uma saída repentina da sala após a apresentação de Samurai para tentar agendar com ele um encontro. O que acabou por se concretizar gerando uma entrevista antológica que em breve publicaremos. Para se falar mais de Melville, das entrevistas que fez com Godard, Hitchcock, Aldrich, etc etc.

Em suma, foram cinco dias de grande agitação. Entre as sessões, devidamente organizadas, em que tínhamos de requisitar bilhetes com antecedência, pois a maioria deveria esgotar entre convidados e muitos bilhetes pagos. Muitos encontros nos diversos cocktails e festas de filmes, institutos de cinema, etc. Pelo meio, o tempo possível para escrever uma eventual crónica. Não é fácil, mas atenção ninguém se está a queixar.

Entretanto, a vida de um jornalista freelance inspirado pelo cinema vira-se já para Locarno, na Suíça, onde esperamos descobrir novos motivos para reportar por aqui no c7. Vai ser um longo verão, escaldante, com um calendário quase impossível: Locarno, Veneza, Toronto, San Sebastian e… Foz Côa. Até lá.

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