Helen Mirren, rainha de Karlovy Vary
Mas Helen Mirren provou que é uma grande dama proporcionando uma fantástica conferência de imprensa, ao lado do marido Taylor Hackford, a propósito do filme The Door, que rodara com o húngaro István Szabó. Na concorrida conferencia de imprensa sublinhou o empenho das mulheres nos diversos processos criativos do cinema e, respondendo à nossa pergunta, não se escusou a referir a forma como ela própria afirmou o seu feminismo, mesmo que tenha frequentemente aceite tirar a roupa no ecrã. Não a considerou “uma forma de poder feminino”, sublinhando “não compreender porque as mais diversas formas de violência não são consideradas tabu e revelar uma parte do nosso corpo é imediatamente censurado”. Mas adiante, quando o marido referiu que filmara com ela em Lisboa algumas cenas de White Nights (1985), aproveitámos para a questionar sobre a sua estada na nossa capital. E a sua resposta não poderia ser mais categórica: “Apaixonámo-nos em Lisboa!”
Rodrigo Areias deixa marca na competição
Percebe-se que Rodrigo Areias não deseja trilhar os clichés do filme homenagem, mas antes servir-se do género para o impregnar de várias leituras sugeridas pelos significados dos intertítulos de “Desobediência Civil”, o tal tratado anárquico do americano Henry David Thoreau, e os a acordes de The Legendary Tigerman e Rita Redshoes para dar intensidade sonora às imagens deste western em transito da Serra da Estrela para Castelo de Vide. Pode não ser nem o melhor nem o pior western, mas percebe-se que Areias vai no caminho certo para se tornar num grande realizador.
Vimos ainda Camion, o interessante representante canadiano, da região do Quebec, que faz depender de um grave acidente de viação a mudança de vida de um velho motorista de pesados, mas também olhar para a sua reforça e a relação com os seus dois filhos. E estes entre eles. É um daqueles casos de filmes escorreitos, bem feitinhos e com uma noção acertada de cinema. Pena é que parece que nos queria levar mais longe nesta viagem, anda que, infelizmente, nos abandone sem nos mostrar tudo o que desejávamos ver.
Enfoque polaco
O outro filme polaco que vimos foi o dececionante Shameless, uma oportunidade de mostrar uma ligação escaldante entre meios-irmãos, invadida por intromissões neo-nazis e de ciganas com pretensões legítimas de quebrar o destino familiar e seguir uma carreira académica. O problema é que a aposta parece estar mesmo no picante da relação entre o jovem Tadzik, um Mateusz Kosiukiewicz, com ares de novo Leonardo DiCaprio, e a “mana” Agnieszka Grochowska. Sabe a pouco. E o cinema que vemos do promissor Filip Marczewski, já premiado, também não altera nada.
Seja como for, o cinema polaco esteve em força em KV, com uma mostra de nove filmes, entre longas, curtas e documentários.
Melville em retrospetiva
Foi um dos poucos cujo trabalho foi reconhecido durante a revolução da nouvelle vague, em grande pela sua cinefilia, proximidade com os americanos. Seja como for, seria já nos anos 60 que faria as suas maiores obras-primas, como Le Samurai, com Alain Delon a dar espessura a um dos hitman mais glaciais do cinema, mas também com Le Loulos, já com Jean-Paul Belmondo, o seu outro herói, ou O Exército das Sombras, com Lino Ventura.
No entanto, a maior descoberta acabou mesmo por ser Ruo Nogueirrá (como dirão os franceses). Personagem singular da cinefilia que motivou uma saída repentina da sala após a apresentação de Samurai para tentar agendar com ele um encontro. O que acabou por se concretizar gerando uma entrevista antológica que em breve publicaremos. Para se falar mais de Melville, das entrevistas que fez com Godard, Hitchcock, Aldrich, etc etc.
Em suma, foram cinco dias de grande agitação. Entre as sessões, devidamente organizadas, em que tínhamos de requisitar bilhetes com antecedência, pois a maioria deveria esgotar entre convidados e muitos bilhetes pagos. Muitos encontros nos diversos cocktails e festas de filmes, institutos de cinema, etc. Pelo meio, o tempo possível para escrever uma eventual crónica. Não é fácil, mas atenção ninguém se está a queixar.
Entretanto, a vida de um jornalista freelance inspirado pelo cinema vira-se já para Locarno, na Suíça, onde esperamos descobrir novos motivos para reportar por aqui no c7. Vai ser um longo verão, escaldante, com um calendário quase impossível: Locarno, Veneza, Toronto, San Sebastian e… Foz Côa. Até lá.

