Premiação da Mostra de São Paulo celebra estéticas latinas

Ao encerrar as atividades da sua 50.ª edição, na noite desta quinta-feira, 29 de outubro, a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo atribuiu o Troféu Bandeira Paulista a uma ficção colombiana, Cinco Años, Cuatro Meses (Cinco Anos, Quatro Meses), e a um documentário peruano produzido com o apoio dos Estados Unidos e do Qatar, The Hummingbird Paints Fragrant Songs (O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas). Os dois títulos sobressaíram numa celebração de novas vozes autorais da América Latina. Na votação popular, o público consagrou uma vez mais Feito Pipa, do cearense Allan Deberton, já em pré-estreia no Rio de Janeiro. A vitória na categoria de Melhor Filme de Ficção Brasileiro foi partilhada com 100 Dias, de Carlos Saldanha, sobre a trajetória de Amyr Klink no remo, também já em exibição no circuito carioca.

Presente na competição oficial de Karlovy Vary, na República Checa, Cinco Años, Cuatro Meses é realizado por Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio. A protagonista, Martha, é uma mulher de 45 anos que perdeu o rasto do filho durante o conflito armado colombiano. Quando recebe a notícia de que não foram encontrados vestígios ósseos correspondentes aos dele na última exumação em que participou, vê esgotadas as vias institucionais a que pode recorrer. Aproxima-se então de um grupo de mulheres, onde conhece Sandra, que lhe conta um rumor: numa aldeia distante nas planícies, seria possível pedir um favor a um morto. As duas partem numa jornada em busca de respostas.

Já The Hummingbird Paints Fragrant Songs (O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas), selecionado no Festival de Toronto (TIFF), tem realização de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada. A passagem do tempo e a relação com a natureza atravessam o retrato de Sara Flores, artista indígena de 75 anos que, depois de uma vida marcada por dificuldades, emerge da Amazónia peruana para conquistar espaço no panorama artístico internacional. Enquanto enfrenta as consequências e o impacto do reconhecimento, transforma o seu trabalho num gesto de resistência em defesa do povo Shipibo. A obra aproxima a afirmação artística individual da preservação de uma identidade cultural e de uma comunidade.

Com nacionalidade mexicana, Chicas Tristes, de Fernanda Tovar, também saiu da Mostra com distinções importantes: venceu o prémio do Júri para Melhor Realização e o Prémio da Crítica de Melhor Filme Internacional. A escolha da Crítica para Melhor Filme Brasileiro recaiu sobre Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco. No filme de Tovar, Paula e La Maestra, duas amigas de 16 anos, são inseparáveis e as nadadoras mais fortes da sua equipa, que se prepara para o Campeonato Pan-Americano Júnior. A rotina muda durante uma festa, quando Paula fica sozinha com Daniel, a sua antiga paixão. Entre música e bebidas, os dois acabam juntos na casa de banho. Nos dias seguintes, La Maestra percebe a tristeza e o afastamento da amiga. Depois de muita insistência, Paula revela o que aconteceu naquela noite. A tentativa de dar nome ao sucedido conduz a uma constatação devastadora.

Chicas Tristes, Cinco Años, Cuatro Meses e The Hummingbird Paints Fragrant Songs integravam uma seleção que incluía ainda A Convidada, de Mads Mengel (Dinamarca); Adeus, Verão!, de Diego de Jesus; American Doctor, de Poh Si Teng (Estados Unidos, Palestina, Qatar, Malásia e Dinamarca); Aos Treze em Gaza, de Hosam Abu Dan (Palestina); Brasas, de Sun Aoqian (China); Crónicas do Cerco, de Abdallah Alkhatib (Argélia, França e Palestina); Edward Said: Entre Mundos, de Maiken Baird (Estados Unidos); Horizonte, de Jessica Candal; Meu Semba, de Hugo Salvaterra (Angola); Mulheres da Revolução, de Mina Akbari (Irão, Alemanha e Estados Unidos); O Julgamento de Hein, de Kai Stänicke (Alemanha); e O Posto, de Sara Ishaq (Iémen, Jordânia, França, Alemanha, Países Baixos, Noruega e Qatar). O júri responsável pela avaliação destes filmes reuniu quatro cineastas: a brasileira Laís Bodanzky, o norte-americano Boots Riley, o iraniano Ali Asgari e o colombiano César Augusto Acevedo.

Entre os documentários brasileiros, a preferência do público foi por Fernanda, de Pedro Waddington, centrado em Fernanda Montenegro. Na categoria internacional de ficção, o vencedor da votação popular foi Soudain (O Sentido da Vida), de Ryūsuke Hamaguchi, reforçando a presença do realizador japonês na edição comemorativa do evento. O filme, uma coprodução europeia, integra também a programação do Festival de Cinema Francês no Rio de Janeiro.

A premiação contemplou ainda diferentes segmentos da produção audiovisual. O Julgamento de Hein, de Kai Stänicke, venceu o Prémio Brada de Melhor Direção de Arte. Talismã, de Thais Fujinaga, recebeu o Prémio Netflix, enquanto A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr., foi distinguido com o Prémio Projeto Paradiso.

Na seleção Prisma Queer, Eu Planto Minha Mão no Jardim, de Boris Hadžija e Hoda Taheri, venceu como Melhor Filme Internacional. O Prémio Especial do Júri foi atribuído a A Paixão Segundo G.H.B., de Gustavo Vinagre e Viva Couto, enquanto London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, conquistou o reconhecimento de Melhor Filme Brasileiro.

No encerramento da cerimónia, no Teatro Cultura Artística, a Mostra exibiu You Can See Everything, documentário de Nathan Fielder e Lance Oppenheim produzido pela A24, que se tornou um fenómeno de bilheteira. O filme acompanha os últimos dias de liberdade de Elizabeth Holmes, fundadora da empresa Theranos, condenada por fraude depois de prometer revolucionar os exames clínicos através de uma tecnologia capaz de realizar testes a partir de uma única gota de sangue. Com uma receita de bilheteira superior a 50 milhões de dólares nos Estados Unidos, o documentário tem sido apontado como possível candidato ao Óscar de Melhor Filme em 2027, uma perspetiva pouco habitual na história das escolhas da Academia para a categoria.

Palmarés

Prémio do Júri | Melhor Filme de Ficção
Cinco Años, Cuatro Meses (Cinco Anos, Quatro Meses), de Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio

Prémio do Júri | Melhor Documentário
The Hummingbird Paints Fragrant Songs (O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas), de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada

Prémio do Júri | Melhor Realização
Fernanda Tovar, por Chicas Tristes

Prémio Especial do Júri
Edward Said: Entre Mundos, de Maiken Baird

Prémio do Público | Melhor Documentário Brasileiro
Fernanda, de Pedro Waddington

Prémio do Público | Melhor Filme de Ficção Brasileiro
Feito Pipa, de Allan Deberton; 100 Dias, de Carlos Saldanha

Prémio do Público | Melhor Documentário Internacional
The Hummingbird Paints Fragrant Songs (O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas), de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada

Prémio do Público | Melhor Filme de Ficção Internacional
Soudain (O Sentido da Vida), de Ryūsuke Hamaguchi

Prémio da Crítica | Melhor Filme Internacional
Chicas Tristes, de Fernanda Tovar

Prémio da Crítica | Melhor Filme Brasileiro
Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco

Prémio Brada | Melhor Direcção de Arte
O Julgamento de Heim, de Kai Stänicke

Prémio Netflix
Talismã, de Thais Fujinaga

Prémio Paradiso
A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr.

Prémio Prisma Queer | Melhor Filme Internacional
Eu Planto Minha Mão no Jardim, de Boris Hadžija e Hoda Taher

Prémio Prisma Queer | Prémio Especial do Júri
A Paixão Segundo G.H.B., de Gustavo Vinagre e Viva Couto

Prémio Prisma Queer | Melhor Filme Brasileiro
London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli

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