Diáspora é a palavra que serve de leme e de motor para o barco lançado pelo franco-senegalês Alain Gomis nas águas das ancestralidades africanas em Dao, o seu terceiro filme a disputar o Urso de Ouro nos últimos 14 anos. Antes vieram Aujourd’hui (2012) e Félicité (2017), vencedor do Grande Prémio do Júri em Berlim, narrativas livres, mas algo mais ortodoxas do que o seu novo trabalho, descrito por algumas vozes mais academicistas como “um não cinema”. O cineasta não perde tempo com essas alfinetadas.
“A equipa que tive em Dao teve de se adaptar ao que havia de mais traiçoeiro para o som e reagir e registar o que se ouvia como se fosse um documentário. O som direto quebra uma rigidez da ficção ao trazer o inesperado”, disse Gomis ao C7nema na conferência de imprensa da Berlinale. “A emoção tem no desenho sonoro um diapasão. Fiz um filme de escuta, que parte de um pacto de respeito entre as suas atrizes e os seus atores, quebrando uma hierarquia civilizacional e mostrando como diferentes gerações de África tentaram procurar uma identidade”.

A mistura de ficção, exercício documental, ritual e aula de geografia começa com uma definição do título: “DAO é um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une o mundo“. Em seguida, o filme leva-nos ao casting de Gloria, uma personagem cuja filha está prestes a casar. Uma voz fora de campo, que dirige a sessão, diz: “o primeiro passo é formar esta família“. Atrizes, atores e não profissionais são selecionados e reunidos para se tornarem parentes que celebrarão um casamento em Paris e assinalarão a morte do patriarca na Guiné-Bissau. As suas histórias individuais e os seus traços comuns de herança entrelaçam-se com factos e ficção enquanto viajam entre estes dois mundos; amor, riso, rituais, dor e história entrecruzam-se num movimento circular que enquadra a realidade.
“Não faço sociologia nem folclore nos meus filmes, faço dramas humanos, falando de pessoas que têm a capacidade de aceitar a vida como ela é, com todas as suas dificuldades, contornando limitações em busca de alegria e prazer”, disse Gomis ao C7nema antes das filmagens de Dao. “Não trabalho com dados numéricos, trabalho com gente, com mães e filhas, pais e irmãos, procurando identificação com o público e levando-o a conhecer as contradições”.
Ao explicar o processo de realização de Dao, Gomis referiu que teve apenas dez dias de filmagens em França e outros dez na Guiné-Bissau. “Para criar os membros da família, trouxe parentes e amigas e amigos, e essas pessoas adaptaram-se ao que procurávamos, num filme de estrutura aberta que mantém a memória sempre presente”.
A Berlinale decorre até 22 de fevereiro.


