007, Marco Bellocchio e Pamela Anderson agitam a passagem de filme de Karim Aïnouz por Berlim

(Fotos: Divulgação)

De regresso à competição oficial da Berlinale, 12 anos depois de disputar prémios alemães com Praia do Futuro (2014), o cearense Karim Aïnouz revelou um desejo profissional íntimo durante a conferência de imprensa do cálido drama Rosebush Pruning, longa-metragem em língua inglesa que pode valer-lhe o Urso de Ouro.

Um dos meus sonhos é realizar um filme de James Bond“, afirmou o cineasta, com humor, ao ser associado a 007 por contar no elenco com Callum Turner, um dos nomes apontados, ainda que não oficialmente, ao papel do icónico espião. O filme pode ser descrito como uma sátira melancólica (e sensual) ao conceito monolítico de família.

Se Karim fizer o seu 007, o seu James Bond serei eu“, brincou o dramaturgo Tracy Letts, que integra o elenco da nova obra do realizador brasileiro distinguido em Cannes com o Prix Un Certain Regard por A Vida Invisível (2019).

Entre colaboradores que se destacam no seu Cinema, Hélène Louvart, directora de fotografia dos seus últimos trabalhos, foi peça-chave na construção da atmosfera sinestésica de Rosebush Pruning. “A Hélène e eu temos um casamento longo e movimentado. Amamos pessoas e gostamos do que um bom argumento nos revela sobre elas“, explicou Karim ao C7.

Além de Callum Turner e Tracy Letts, o elenco conta com Pamela Anderson, Jamie Bell, Elle Fanning, Riley Keough, Lukas Gage e Elena Anaya. “Há muita rebeldia na minha personagem“, afirmou Pamela, que apenas verá o filme na sessão de gala.

Ambientado numa mansão na Catalunha, o filme acompanha uma família americana privilegiada e excêntrica, envolta em conflitos absurdos. As personagens Jack, Ed, Anna e Robert vivem isoladas do mundo, usufruindo da fortuna herdada. Ignoram as exigências do pai cego e procuram amor e validação entre si, enquanto se ocupam das mais recentes peças de alta-costura. Quando Jack, o irmão mais velho e eixo central da família, anuncia que vai abandonar o pai e as restantes personagens para viver com a namorada Martha, os laços de sangue implodem. Ed começa a descobrir a verdade por detrás da misteriosa morte da mãe. Mentiras vêm à superfície, a família desagrega-se brutalmente e as personagens mergulham numa espiral de violência.

A experiência de filmar além-fronteiras vem sempre acompanhada de curiosidade. Veja-se o que está a acontecer hoje com os Óscares, com tanta diversidade. As coisas estão a mudar para melhor“, declarou Karim.

Na base deste novo exercício autoral está a primeira longa-metragem de Marco Bellocchio, I pugni in tasca (1965), que Karim reviu à luz da força revolucionária do mestre italiano.

Foi como ver Os Irmãos Grimm sob ácido. A questão do patriarcado interessava-me, mas quis que o eixo aqui fosse a figura do pai, não a mãe, como em I pugni in tasca“, explicou o realizador, que, em declarações recentes ao C7nema, citou ainda outras influências. “Fomos inspirados também por Pier Paolo Pasolini e o seu Teorema (1968), e por Killer Joe (2011), adaptação ao Cinema da peça de Tracy Letts realizada por William Friedkin. O meu empenho é dialogar com o nosso tempo.

A trama apresentada em Berlim conta com dramaturgia de Efthimis Filippou, argumentista de The Lobster (2015). “Fico feliz que exista um traço de comédia. É um trabalho de observação em que Karim e eu tivemos o cuidado de não sublinhar excessivamente as coisas“, afirmou Filippou.

Em entrevista via Zoom ao C7nema, aquando do anúncio da sua indicação ao Urso de Ouro, Karim destacou o tempo que teve para ensaiar com o elenco. “Esse tempo permite uma relação mais íntima. O que temos é quase uma peça de teatro“, afirmou o cineasta brasileiro, recentemente chegado aos 60 anos.

A Berlinale termina a 22 de Fevereiro.

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