Cria de Rabat, no Marrocos, a realizadora Meryem Benm’Barek entra na disputa pela Estrela de Ouro de Marraquexe, em 2025, como prata da casa, amparada pelo conjunto de sensações que a sua nova longa-metragem, Derrière les Palmiers (2025), desperta ao atacar moralismos, deslealdades afetivas e padrões históricos projetados em torno do verbo amar. Em 2018, Sofia (2018) valeu-lhe o prémio de Melhor Argumento no Festival de Cannes, na secção Un Certain Regard. Ali iniciou uma carreira que avança para além das fronteiras marroquinas, empenhada em compreender as verdades inauditas das relações sociais.
“Comecei esta história com uma referência que poderia parecer um bocadinho esmagadora: as minhas referências cinematográficas para este filme eram as longas romanescas de Hollywood dos anos 1950 e 60. Trazia algo de Elia Kazan e até do Hitchcock da sua fase outonal, até por carregar algo de thriller no meu trecho final”, disse Meryem ao C7 em Marraquexe.
O seu guião decorre em Tânger, onde o jovem Mehdi (Driss Ramdu) vê a sua relação com Selma (Nadia Kounda) abalada quando conhece Marie, uma francesa rica (Sara Giraudeau) cujos pais compraram uma luxuosa vivenda no Norte de África. Atraído pela sua vida mundana, o rapaz afasta-se de Selma e finge ignorar que as suas escolhas terão consequências.

“Sinto que todos temos em nós um sítio de solidão que se constrói… ou que nasce… talvez de coisas que nos faltaram, de coisas que não tivemos, e começamos de repente a fantasiar o que poderíamos ter. Para a personagem do Mehdi, há uma dimensão solitária. Ele é melancólico. Viu a sua vida passar, deixou-se arrastar por algo. E o filme conta como encontramos alguém, de repente, e essa pessoa vem reactivar o nosso desejo profundo. Vem reativar algo em nós que tínhamos posto de lado. Para a Marie, entretanto, o que lhe falta é amor. Ela também vive numa forma de solidão onde deixou cair os sonhos de ser artista. Subitamente, encontra alguém que a olha e que a vê. E isso é o que acontece no encontro amoroso: vemos a vulnerabilidade do outro”, explica a cineasta.
Driss Ramdu, marroquino que vive em Paris e planeia um espectáculo de humor, afirma que Derrière les Palmiers (2025) é um estudo sobre os males da classe média. “Ele é um jovem como muitos, que vivenciam mudanças súbitas perante um cenário pessoal de frustração, com a pobreza sempre a fazer-se notar ao seu lado”, disse o actor ao C7.
Aplaudida em Marraquexe sobretudo pela elegância da sua montagem, Meryem Benm’Barek celebra a ligação de Derrière les Palmiers às batalhas culturais da sua pátria.
“É um compromisso fazer filmes em Marrocos. É um país que amo profundamente, ao qual estou muito ligada, e que quero questionar, porque sei que há coisas que funcionam e outras que não funcionam”, explica a cineasta. “Ter a estreia mundial em Marraquexe é algo muito precioso, porque sei que, aqui, o filme será realmente compreendido no seu sentido mais profundo. Para os estrangeiros que não conhecem a cultura marroquina, viver a experiência de ver o filme com o meu povo na plateia será uma vivência forte”.
O Festival de Marraquexe decorre até ao dia 6.

