Laureada com a Palma de Ouro Honorária de Cannes em 2021, Jodie Foster tem hoje 63 anos de vida e… sessenta (!) de carreira, já que começou ainda miúda, a fazer filmes para a Disney. Foi distinguida com dois Óscares, construiu uma trajetória paralela como realizadora, tornou-se mãe e, no ano em que celebra seis décadas de profissão, regressa ao ecrã — a falar francês — em Vie Privée. Com uma leve veia cómica, a longa-metragem estreou em Cannes e integra agora a programação do Festival de Marraquexe, fora de concurso, com uma visibilidade internacional que a coloca entre as potenciais nomeadas aos Óscares de 2026. A produção realizada por Rebecca Zlotowski é vista, inclusive, como um possível blockbuster. Daniel Auteuil, de quem Foster confessa ser fã, é o seu parceiro em cena.
“Tinha a sensação de estar a trabalhar com um irmão, pela impressão de o conhecer muito bem. Essa sensação vem do facto de eu ter passado os últimos 40 anos a ver e a admirar os seus filmes”, afirmou Jodie numa entrevista de uma hora e vinte minutos organizada pela secção Conversas — uma das atrações mais concorridas do festival.
Em Vie Privée, ela interpreta Lilian Steiner, uma psiquiatra que suspeita de um possível assassinato envolvendo uma paciente (Virginie Efira). Daniel Auteuil assume o papel de um oftalmologista com quem Lilian foi casada, mas entre ambos perdura ainda um mútuo interesse… e desejo. É ele quem a apoiará na investigação que procura determinar se houve ou não crime ligado ao seu divã.
Seguem alguns dos pontos de maior destaque do diálogo entre a crítica e curadora Andréa Picard e Jodie Foster.

O que é que tornava tão estranho — mas ao mesmo tempo tão acertado — o facto de a terem escolhido para interpretar uma prostituta em Taxi Driver?
O que era estranho… e maravilhoso… naquele casting, naquela altura, e porque é que não sou “eu”. Estou a interpretar uma personagem hiperssexualizada num trabalho que tem a ver com sexualidade. E, ao mesmo tempo, há nela uma humanidade total, uma “coisa de miúda”, e uma força de caráter, a mostrar que essas duas coisas podem coexistir. Eu tinha 12 anos, andava numa escola francesa com uniforme, com um emblema que dizia “penso, logo existo”. Um blazer azul, meias até ao joelho. Andava de skate. Não sei bem o que fiz para me preparar. Foi uma altura pré-consciente no meu trabalho, e houve muitos problemas em contratar-me. Na altura, a Brooke Shields tinha sido escolhida para Pretty Baby, do Louis Malle. Houve muito escândalo, e os EUA estavam revoltadíssimos com uma criança num filme com grande conteúdo sexual. Tive de passar por vários testes psicológicos. Contratámos um advogado para tentar que eu pudesse assinar o filme. E as pessoas perguntavam sempre: “Sabes o que é uma prostituta?” E eu pensava: vivo em Los Angeles, a cinco quarteirões de Hollywood Boulevard, e já vi filmes do Visconti. E Antonioni. O meu mundo era enorme por causa dos filmes. Mesmo vivendo de forma muito protegida, o meu mundo era realmente grande.
Porque é que o seu mundo cinematográfico era tão vasto?
Isso era responsabilidade da minha mãe. Ela foi a minha escola de cinema. Ela adorava cinema, claro, mas acho que muito do seu interesse pelos filmes estrangeiros vinha do facto de nunca ter viajado. Cresceu no Meio-Oeste dos EUA e nunca tinha saído da América até passar dos cinquenta. O cinema era a forma de ela sonhar. Comprámos um Peugeot, ela pôs-me numa escola francesa, pintou a casa de cor terracota como em Roma. Essa era a maneira dela viver uma vida mais ampla.
Onde viam cinema em Los Angeles?
Como não havia DVD nem VHS, íamos a festivais. Havia o FilmX, um festival internacional. Lembro-me de ver um filme alemão de seis horas e meia com marionetas. Muito sério, muito sombrio. Vimos tudo do Fassbinder. Ela era grande fã do Marlon Brando, então íamos ao festival Brando e víamos tudo, repetidamente. Muitas vezes, ela buscava-me à escola e levava-me a ver um filme estrangeiro, porque queria que eu aprendesse línguas. Se gostássemos, víamos outra vez. Ficávamos na sala e voltávamos a ver. Levávamos jantar e víamos outra vez.
Taxi Driver ganhou a Palma de Ouro em 1976. Como foi ir a Cannes nessa altura?
Não sei se alguém viu o novo documentário do Scorsese da Rebecca Miller, que está na Netflix — é um tesouro. Conta-se muito desse episódio ali. Eles foram todos a Cannes… Marty, De Niro, Harvey Keitel. Ninguém queria levar-me porque não queriam gastar dinheiro comigo. Eu estava a filmar Freaky Friday nessa altura. A minha mãe insistiu: “É importante. Ela fala francês. Isto é Cannes.” Então pagámos as nossas próprias passagens. Fomos as duas. Estavam todos muito paranoicos em relação à recepção que o filme teria, porque ainda não tinha estreado. Havia muito falatório sobre violência, a possibilidade de levar classificação X. Fizemos a conferência de imprensa juntos. Depois disso, ficaram todos com medo e não saíam dos quartos no Hôtel du Cap. Então acabei por fazer todas as entrevistas em francês por toda a equipa de Taxi Driver.
A sua mãe sempre disse que a carreira acabaria cedo. Isso influenciou-a?
Sim. Ela dizia: “Quando tiveres 18, acabou-se. Nenhum actor infantil trabalha depois dos 18.” E perguntava: “Queres ser médica? Queres ser advogada?”, como se houvesse só duas opções. Então, quando fui para a universidade, queria realizar filmes, mas não conhecia realizadoras americanas. Existiam europeias — Lina Wertmüller, Margarethe von Trotta, Agnieszka Holland — mas nos EUA não havia. Pensei: “Tenho de escrever. Tornar-me escritora. Depois, talvez um dia, possa realizar.”
Depois de Taxi Driver, recebeu guiões que tentavam encaixá-la no mesmo tipo de papéis?
Fiz dois filmes da Disney logo depois. Freaky Friday foi um sucesso. Tudo voltava à minha mãe — eram as escolhas dela, não as minhas. Eu lia os guiões, mas não tomava decisões. Ela queria que eu fosse respeitada, que tivesse peso, que não fosse um objeto. Desenvolveu a minha carreira com esse objetivo. Dizia que acabava aos 18. Depois passou para os 40: “Quando fizeres 40, acabou. Nunca mais trabalharás.” E vejam no que deu.
Como foi chegar aos 40 com essa profecia na cabeça?
Quando me aproximei dos 40, fiquei nervosa. Fiz muitos filmes de seguida, convencida de que ia acabar de um momento para o outro. E depois… continuei.
O seu primeiro Óscar, conquistado por The Accused (1988), mudou a sua vida?
Sim, mas é estranho porque eu não gostava da minha performance. Sabia quem era Sarah Tobias, mas não consegui interpretá-la como queria. Os produtores pediram refilmagens. Eu não sabia fazê-la de outra maneira. Achei que era má atriz. No primeiro corte, tinham eliminado toda a minha sequência no tribunal. Toda. Inseriram um flashback. Pensei: “Fui horrível.” Eu não suportava ver-me — aquele lado difícil e agressivo dela deixava-me desconfortável. Depois remontaram o filme, recolocaram tudo e ganhei o Óscar. Achei que ia para a pós-graduação, ser professora. Pensei: “Acabou.” E depois… não acabou.
Uma má crítica afeta-a?
Provavelmente, se eu não tivesse começado tão nova, não leria críticas. Mas sempre li. A minha família lia tudo. As críticas más também — às vezes concordávamos com elas. Como comecei cedo e tenho esta visão estranha de mim — dentro e fora do corpo — não levo a peito. Há muito para aprender com críticas. Os americanos são bons colaboradores. Cresci num ambiente onde o ator ajuda o realizador. Por isso, tenho de ouvir críticas e decidir o que faz sentido.
Muitas das suas personagens enfrentam mundos masculinos — The Accused, Taxi Driver, Silence of the Lambs. Via Clarice Starling como uma heroína feminina desde o início?
Sim. Escolhi esses filmes conscientemente. Eram questões feministas reais para mim: “Eu sobreviveria intacta aqui? Como se mantém alguém inteiro contra todas as probabilidades?” Cresci em sets onde não havia mulheres. Maquilhadores? Quase sempre homens. Script supervisor? Às vezes uma mulher. De resto, ninguém. Fui criada por pais e irmãos adoptivos cinematográficos que me ensinavam tudo e acreditavam em mim — mas nunca pensavam em mulheres, simplesmente não fazia parte do horizonte deles. E eu também não questionava. Era assim. Foi uma época de transição: eles queriam a tomboy, a mulher forte, e apoiavam-me. Claro, havia microagressões — todos da minha idade as tivemos. Mas, no geral, tive sorte. Só muito tarde comecei a fazer filmes realizados por mulheres. Isso mudou — Vie Privée é um exemplo.
Qual foi o maior desafio ao realizar o seu primeiro filme, Mentes que Brilham, com um ator infantil?
Representar e realizar ao mesmo tempo é difícil. E para um primeiro filme é muito difícil. E ainda por cima ter um miúdo de sete anos que nunca tinha representado um único dia… complicado. Talvez tenha sido uma escolha parva. Mas correu surpreendentemente bem. No segundo filme, fiz questão de não representar. Depois veio The Beaver, em que represento. E Money Monster, em que não represento. Alterno.
Muitos dizem que, numa fase, fez mais “filmes de ação”. Concorda?
Eu não vejo assim. Não lhes chamaria “filmes de ação”, mas tinham muita ação. E eu adoro. Adoro mesmo. Gosto de correr, saltar — gosto de chegar ao fim do dia a sentir que fiz algo físico e não só falei.
Quer fazer mais filmes?
Quero, sim. Vou fazer filmes até morrer. Não se livram de mim tão depressa.

