Esquecer o totalitarismo é o temor que levou a polaca Kasia Adamik a recriar a Varsóvia do início dos anos 1980 ao filmar Winter of the Crow, thriller que encerrará o 73.º Festival de San Sebastián na noite deste sábado, após a entrega da Concha de Ouro. “Nós acreditávamos estar vacinados contra regimes totalitários, mas o efeito da vacinação parece estar a chegar ao fim, pois o mundo parece estar a esquecer-se dos efeitos de viver sob um governo controlador”, alertou a realizadora na última conferência de imprensa do evento basco de 2025, antes de afirmar ao C7 que procurou dar à esperança um lugar de honra na sua narrativa eletrizante. “É anti-noir, um anti-thriller da Guerra Fria, influenciado por longas como Brazil – O Filme, que tenta criar uma conexão emocional com o público”.
Filha da realizadora Agnieszka Holland (em concurso com Franz, sobre a vida de Kafka), Kasia construiu a sua carreira em projetos de séries para televisão, com pontuais incursões no grande ecrã, em colaborações com a sua mãe. Para tirar Winter of the Crow do papel, convocou uma diva do teatro e da teledramaturgia inglesa, Lesley Manville. “Faço uma personagem que se leva na mais alta conta, mas viaja para Varsóvia sem ter ideia do que vai encontrar lá. Não diria que as suas ações sejam heroicas, mas ela envolve-se com o contexto que encontra diante de si”, disse Lesley ao C7nema.
Habitualmente, Donostia opta por um potencial sucesso de bilheteira de cunho europeu para fechar as suas maratonas cinéfilas anuais num tom mais pop, o que levou a direção artística de José Luis Rebordinos a convocar um thriller com uma estrela. Rodado parcialmente no Luxemburgo, Winter of the Crow é uma produção meio polaca, meio inglesa, que evoca o tom das aventuras de 007 na sua montagem frenética para um contexto de conspiração e espionagem. “Queria uma experiência que tirasse o fôlego ao público”, respondeu Kasia ao C7.
Apoiada na literatura da prémio Nobel Olga Tokarczuk, no conto Professor Andrews Goes to Warsaw, o febril Winter of the Crow transporta-nos para a Varsóvia de 13 de dezembro de 1981, quando a lei marcial é imposta e, da noite para o dia, o país fica paralisado. Tudo acontece quando a professora de Psiquiatria, Dra. Joan Andrews, chega como docente convidada à universidade daquela cidade. Os táxis foram substituídos por tanques; os cidadãos são tratados como criminosos. Em pleno caos, Joan pega na sua câmara e regista um assassinato brutal cometido pela polícia secreta. “As câmaras Polaroid eram instrumentos generalizados naquele momento no Ocidente”, lembra Leslie. “Nós vemos o conflito pelo olhar de Joan”.
San Sebastián termina com uma cerimónia às 21h deste sábado.

