Chamada Made in Spain, a secção de Donostia dedicada a produções de cidades ibéricas que não entraram na corrida pela Concha de Ouro, por terem vindo de outros festivais ou por terem uma natureza mais comercial, concentra-se em ampliar as hipóteses de Sirât chegar à disputa pelo Óscar de 2026. Não houve espaço para o grande acontecimento comercial do audiovisual espanhol – El Cautivo, biopic do mítico escritor Miguel de Cervantes realizado por Alejandro Amenábar, atualmente em exibição em Madrid e arredores – na programação de San Sebastián, que se debruça sobre a prata da casa. Dar voz e vez a Oliver Laxe fazia mais sentido. Esse destaque tornou-se ainda mais urgente depois de a sua longa-metragem ter sido escolhida para representar Espanha junto da Academia de Hollywood. Ao seu lado, tiveram maior visibilidade Romería, que levou Carla Simón a Cannes, e o potencial blockbuster Mi Amiga Eva, de Cesc Gay, cineasta que é um verdadeiro íman de bilheteira. O drama transcendental de Laxe acaba agora de ser confirmado como o título de abertura da Mostra de São Paulo, a 15 de outubro. As atrizes Stefania Gadda e Jade Oukid, que integram o elenco, estarão presentes na sessão.
Desde a sua primeira exibição mundial, a 15 de maio, no Festival de Cannes, apoiado pela participação dos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar como produtores, Sirât conquistou o estatuto de filme obrigatório por apostar num casamento raro entre transcendência espiritual e experimentação formal ao falar de perdas e reconfigurações. É político na radiografia da falta de pertença entre as populações da Europa que não se rendem às regras históricas do capitalismo. Considerado desde logo um dos favoritos à Palma de Ouro de 2025, deixou a Croisette com o Prémio do Júri, atribuído ao seu realizador, galego nascido em Paris. Laxe venceu em Cannes num empate com o filme alemão Sound of Falling, de Mascha Schilinski.
Sirât atravessa Donostia como um trator. Há quatro meses, uma sondagem organizada pelo jornalista Christian Blauvelt para a IndieWire, com 48 críticos internacionais, elegeu-o como o melhor filme de Cannes. Depois de ter interrompido o ciclo de longas em Marrocos (Mimosas; Todos Vós Sodes Capitáns) para filmar O Que Arde (Prémio do Júri na secção Un Certain Regard de 2019) na sua Galiza natal, Laxe regressou aos desertos do norte de África para um périplo que começa numa rave de música eletrónica e passa por um campo de minas explosivas, numa cartografia de violências históricas. Insiste, contudo, que a sua visão não é de desesperança, mas de aliança.
“Parece que temos um horizonte duro, mas ele, no fundo, é protetor, o que exclui a solidão: estamos sempre acompanhados. O filme mostra que, quando o indivíduo se fratura, instaura-se num lugar do coletivo”, disse o realizador ao C7 em Cannes.
Capaz de ser radical e melífluo ao mesmo tempo, numa realização ousada, Sirât é batizado em referência a um percurso de fé: “Esse nome refere-se ao caminho que liga o Inferno ao Céu, como se fosse um espaço de transformação”, explicou Laxe na conferência de imprensa de Cannes. Tudo começa com uma rave em Marrocos, num espaço desértico de rocha e areia. Fundida com a fotografia de Mauro Herce, a engenharia de som transporta o público para aquela paisagem numa fricção sinestésica. “Amo a cultura rave e queria partir dela para cruzar o limite do que é humano, seguindo uma figura que confronta o abismo. Tenho uma equipa fiel, que é uma família, e que está sempre comigo na construção dos meus filmes. Eles são, sim, difíceis de fazer”, confessou Laxe ao C7. “É um filme que se desmaterializa ao passar do bate-estacas da música techno a uma instância quase celestial de esoterismo.”
Na trama de Sirât, um pai (Sergi López) e o filho chegam a uma rave perdida nas montanhas do sul de Marrocos. Procuram Mar – filha e irmã – desaparecida há vários meses numa dessas festas intermináveis. Imersos na batida incessante e numa liberdade crua que lhes é estranha, distribuem incansavelmente a fotografia dela, na esperança de que alguém a reconheça. A esperança vai-se esvaindo, mas eles perseveram e seguem um grupo de ravers até uma última festa nas montanhas. À medida que se aprofundam na imensidão escaldante, a jornada leva-os a confrontar os próprios limites.
San Sebastián termina este sábado, quando o júri presidido por J. A. Bayona anunciará as produções vencedoras.

