Em cartaz num punhado de salas pelo mundo, em busca de uma nomeação aos Óscares, Ballad of a Small Player nasceu para ser Netflix, mas encontrou nos festivais — de Toronto (TIFF) a San Sebastián — os palcos ideais para exibir a sua exuberância. A indicação à Concha de Ouro garante ao realizador suíço Edward Berger um selo de visibilidade extra, na sequência do êxito de Conclave, que competiu no certame basco em 2024. Agora, Berger tem Colin Farrell a seu lado — e não é qualquer Colin Farrell, a julgar pela fila formada às nove da manhã à porta do Teatro Kursaal, com fãs ansiosos por uma fotografia do astro. Um astro que vive um momento de apogeu, após a nomeação ao Óscar por The Banshees of Inisherin e a popularidade da série Pinguim, da HBO Max.
“Atuar é multiplicar as nossas experiências pessoais pela imaginação. Conversei com jogadores de Macau para construir a minha personagem, até porque o jogo nunca foi um dos meus vícios. Já destruí a minha cabeça e o meu corpo, mas não a minha conta bancária”, disse Farrell à imprensa.
Berger destacou Macau como personagem central: “É o lugar mais eletrizante do mundo, o mais barulhento e o mais colorido. Levámos tudo isso para o filme, conscientes de que não é uma cidade fácil de filmar — o mesmo aconteceu em pontos da Tailândia e de Singapura onde existem casinos”, afirmou o cineasta em resposta ao C7nema. Sobre a escolha de Farrell, divertiu Donostia ao justificar: “Era curioso ver um irlandês a interpretar um aristocrata britânico.”
Inspirada no livro homónimo de Lawrence Osborne, a trama acompanha Lord Doyle, um aristocrata arruinado que se afoga em dívidas de jogo, levado pelos impulsos da ludopatia. A compulsão é a sua desgraça, mas o filme não se limita a chorar mágoas: endividado até à espinha, Doyle deseja sair de cena de cabeça erguida. “Doyle é uma alma perdida, com uma bússola moral que já não existe, sob a pressão de um vazio na sua existência”, disse Farrell em San Sebastián.
Com credores no seu encalço, Doyle refugia-se em Macau, passando dias e noites nos casinos, a beber vodka e a jogar os trocos que lhe restam. Uma ajuda inesperada surge de Dao Ming (Fala Chen), funcionária da casa de jogo que mais frequenta, reacendendo instintos adormecidos. Mas cada passo seu é seguido por Cynthia Blithe, investigadora privada (interpretada por uma Tilda Swinton mais contida, mas afetuosa), determinada a cobrar-lhe as dívidas.
Apesar da ciranda de perigos, magnificamente amplificada pela direção de fotografia exuberante de James Friend, Doyle não abdica do verbo “tentar”. “Quis dar às plateias uma dimensão propositiva de esperança”, disse Berger. “Usei mais influências de Hou Hsiao-Hsien, Wong Kar Wai e Johnny To do que de filmes sobre casinos. Filmar uma carta pode ser tedioso.”
San Sebastián termina este sábado.

