Dolores Fonzi: “Da imobilidade nasce a claustrofobia”

(Fotos: Divulgação)

Aos 47 anos, a portenha Dolores Fonzi colecionou prémios em diferentes festivais do mundo pela sua atuação em Paulina, um drama de denúncia contra as violências infligidas ao corpo feminino que venceu a Semana da Crítica de Cannes em 2015. Nesse mesmo ano, participou num sucesso de bilheteira espanhol, Trumán, ao lado de Javier Cámara e Ricardo Darín.

No seu currículo já trazia outros títulos de respeito (Esperando al Mesías, Aura) e continuou a emprestar a sua atuação sempre inflamável a produções que reverberaram em mostras de prestígio, como La Cordillera (2017). Estreou-se na realização em 2023, com Blondi, que competiu nos Horizontes Latinos de San Sebastián. Este ano, voltou a marcar presença no festival, assinando aquele que conquistou a maior ovação nas sessões para a imprensa e para o público entre os concorrentes à Concha de Ouro: Belén. O debate que suscita ao abordar o aborto dá-lhe uma natureza polémica que inflama reflexões sobre o conservadorismo da pátria de Javier Milei.

A trama decorre em Tucumán, na Argentina de 2014. Nessa altura, em plena Copa do Mundo, uma jovem é internada num hospital com fortes dores abdominais, sem saber que está grávida. Acorda algemada à maca e cercada por polícias. É acusada de ter provocado um aborto e, após dois anos em prisão preventiva, é condenada a oito anos de prisão por homicídio qualificado devido ao vínculo familiar.

Uma advogada, Soledad Deza (interpretada com ardor pela própria Dolores), lutará pela sua liberdade com o apoio de milhares de mulheres e organizações, que se unirão para mudar o curso da História.

Na entrevista que se segue, a atriz e cineasta explica as convenções estéticas da produção, que só foi viabilizada com o apoio da Amazon MGM Studios.

De que forma construiu a sua narrativa para contornar o lugar-comum das histórias judiciais no cinema e na televisão, evitando códigos já tão desgastados em filmes e séries?

Belén ergue-se a partir da perceção de que quanto mais pessoal, mais universal. Estou exposta ali, com elementos da minha infância, com questões ligadas à maternidade. Todas essas camadas afetam o que entrego, por criarem maior semelhança com os factos na busca pela verdade.

Uma das armadilhas de que o seu guião se esquiva é a tentação de transformar a sua personagem, a advogada Soledad, numa heroína clássica. Como concebeu essa abordagem aos arquétipos?

Talvez não tenhamos heroínas, mas mostremos exemplos que inspirem o público a tornar-se melhor. Houve uma linha inspiracional na dramaturgia. A minha preocupação era não determinar que os homens são maus e as mulheres são boas. O que existe é um sistema que está apodrecido e, nele, as instituições abusam do poder que detêm.

O seu filme sugere um trabalho de investigação rigoroso para a reconstituição dos ambientes onde a trama decorre, em especial nas cenas de reclusão feminina. Como se deu essa recriação da vida na prisão?

Não queria retratar uma cadeia como se fosse uma quermesse, cheia de gente, como geralmente se vê. Quis depurar, mostrar o mínimo. Isso exigiu um trabalho de câmara em que recorri a planos fixos. Da imobilidade nasce a claustrofobia e, com ela, posso transmitir a ideia de um ambiente estéril, de morte.

Apesar de retratar a sororidade, Belén não esconde a solidão que envolve as mulheres na sua luta contra um sistema corroído. Como funciona essa dinâmica de encontro entre vidas solitárias?

Quando duas pessoas solitárias se encontram, surge uma união que gera pressão sobre a sociedade, como aconteceu com o movimento das mulheres na Argentina.

Qual é o simbolismo de ver o Leão da Metro associado a um filme argentino neste momento de crise no cinema do seu país?

A Amazon financiou integralmente este projeto e, quando ele se desenvolvia, não fazia ideia da compra da Metro pela plataforma. É inegável que o simbolismo do Leão da MGM é forte. Cresci com essa imagem. Quando a vi, enviei-a aos meus filhos e amigos, porque faz parte da cultura cinematográfica.

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