Recebido com a ovação mais estrondosa ouvida na competição pela Concha de Ouro de 2025 até aqui, Belén, da atriz e cineasta Dolores Fonzi, dispara com favoritismo na disputa pelo troféu mais cobiçado de San Sebastián, em prol da Argentina. O debate que traz ao falar de aborto confere-lhe uma natureza polémica que incendeia reflexões sobre os interditos ao corpo feminino.
A conferência de imprensa tocou no tema, mas divagou mais pelas veredas do desmonte da cultura de um país presidido por Javier Milei, numa liderança conservadora. “Filmar na Argentina hoje é impossível, pois não há apoio para nada. A produção caiu de cem para um. Parece um milagre que este festival tenha três longas argentinos (Belén, 27 Noches e Las Corrientes) em competição”, disse Fonzi, que contou com o apoio da Amazon para rodar a produção.
A trama decorre em Tucumán, na Argentina, em 2014. Numa noite, uma jovem dá entrada num hospital com fortes dores abdominais, sem saber que está grávida. Acorda algemada à maca e cercada por polícias. É acusada de ter provocado um aborto e, após dois anos em prisão preventiva, é condenada a oito anos de prisão por homicídio qualificado devido ao vínculo familiar. Uma advogada de Tucumán (interpretada com ardor por Fonzi) lutará pela sua liberdade com o apoio de milhares de mulheres e organizações, que se unirão para mudar o curso da História.
“Não importa se é homem ou mulher para se envolver com esta história, e não é necessário ser feminista. Há aqui uma reivindicação da união das mulheres, como a que gerou a lei do aborto”, disse Fonzi.
San Sebastián prossegue até dia 27.

