Kleber Mendonça Filho deixou San Sebastián na manhã desta terça-feira, rumo à capital espanhola, para exibir O Agente Secreto na Cinemateca de Madrid, de olho não apenas em possíveis indicações ao Goya, mas sobretudo na troca com os intelectuais do audiovisual em terras ibéricas, amparado na boa receção que teve em sessões lotadas na secção Perlak do maior festival daquele país. Antes de passar por Donostia, abriu o Festival de Biarritz, em França. É uma excursão das suas imagens eletrizantes pelo Velho Mundo, num momento estratégico, na esteira da escolha para representar o Brasil na corrida por uma vaga na disputa pelo Óscar de Melhor Filme Internacional.
A 98.ª edição dos Óscares será realizada a 15 de março de 2026, no Dolby Theatre, na Califórnia. A 16 de dezembro sai a primeira lista com 15 finalistas de algumas categorias, entre as quais a de Filme Internacional, da qual serão selecionados cinco. Os nomeados oficiais serão anunciados a 22 de janeiro de 2026.
Destaque da América Latina no circuito dos festivais, o thriller pernambucano rodado pelo realizador de O Som ao Redor (2012) deu os primeiros passos em Cannes, onde venceu em quatro frentes: Melhor Realização (para Kleber), Melhor Ator (para Wagner Moura), o Prémio da Crítica FIPRESCI e um prémio da Associação de Cinemas de Arte e Ensaio.
Com estreia comercial no Brasil marcada para 6 de novembro, O Agente Secreto tem fôlego para se tornar um blockbuster — termo aplicado a longas que vendem mais de 1 milhão de bilhetes.
O Agente Secreto foi o título escolhido para representar o Brasil na apreciação da Academia de Hollywood seis meses depois de Ainda Estou Aqui ter vencido o Óscar. Como realizador e antigo crítico de cinema, o que significa essa nomeação?
Essa é uma oportunidade que O Agente Secreto traz e eu, como autor do filme, devo estar do lado dele, a apoiá-lo e a trabalhar com ele. É um momento que envolve muito prestígio, promoção e dinheiro, mas no centro está uma obra de expressão artística. Às vezes surpreendo-me com certas previsões, sobretudo noutras categorias além da de Melhor Filme Internacional. Isso envolve muita conversa com a Neon, a distribuidora nos EUA.
Na narrativa, consegue trabalhar os códigos do thriller sem deixar de lado a discussão política, inclusive sobre a universidade pública. Qual é a raiz desse suspense?
O cinema brasileiro sempre teve pudor quando tentou investir em géneros. Mas quando Hector Babenco fez Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977)… um thriller… a receção foi muito forte porque era um filme brasileiro, sujo, malvado, ágil. O Agente Secreto é extremamente brasileiro, mas também uma devolução a todos os filmes que me formaram. Penso em Babenco, em Nelson Pereira dos Santos, mas também em Brian de Palma, Robert Altman ou Vilmos Zsigmond.
O filme chega à Academia no momento em que Bolsonaro foi condenado e Trump ameaça a liberdade de expressão nos EUA. Como vê esse cenário global?
Como qualquer cidadão: com muita apreensão. Temos vários focos de tensão — Rússia, EUA, Gaza, Europa. Vários observadores americanos que viram O Agente Secreto disseram que o Brasil, neste momento, é uma reserva de alguma sanidade.
O seu cinema sempre fala de arquivos. Qual o papel deles em O Agente Secreto?
O arquivo pode ser um ponto de partida físico, mas o próprio filme pode ser um arquivo em si. Eu fiz Retratos Fantasmas (2023) com imagens de arquivo e, hoje, aquele filme já é ele próprio um arquivo.

