Entrevista a Djimon Hounsou (A Ilha)

(Fotos: Divulgação)

Nasceu no Benim em 1964, foi criado em França, percorreu o mundo como modelo e agora é ator em Los Angeles. Não é fácil encontrar as verdadeiras raízes do ator Djimon Hounsou. Nomeado ao Oscar de Melhor Ator Secundário por In America, tornou-se o primeiro africano a ser nomeado para uma categoria de representação.

Em conversa com o c7nema.net, Djimon Hounsou falou de The Island, onde interpreta o papel de Albert Laurent, do modelo que representa para muitos africanos e até sobre o possível vencedor do próximo Mundial de Futebol.


O que o atraiu em The Island?

A história. É sempre o mais importante para mim, e claro, a natureza do filme. É um reflexo da vida que levamos hoje. Todos queremos parecer sempre bem, novos e viver para sempre. Foi isso que me atraiu neste filme.

Michael Bay disse que o contratou para o filme porque impõe a autoridade de um ex-Seal (e a altura). Como se preparou para o papel?

Bem, há uma história engraçada. Eu e o Michael Bay conhecemo-nos há mais de dez anos. E estávamos a filmar, e o Ewan (McGregor) comentou com o Michael que gostava de ver uma certa lealdade para comigo. E ele respondeu: “Lealdade? Que se lixe a lealdade, só o contratei porque ele estava livre”. A minha equipa do filme era constituída por ex-Seals que me ajudaram a construir de forma mais credível a personagem. E claro, fiz as minhas pesquisas.

No final do filme a sua personagem muda. Teria aceite o papel se ele não tivesse aquela mudança de atitude?

Não. Se não tivesse mudado, era uma personagem sem história e era difícil ir a algum lado com ele.

Mas ele provou ter consciência?

Aquele homem tem de ter uma consciência. Por muito que a integridade do trabalho não lhe permita ter grande consciência, ele tem de a ter. Todos somos humanos e há uma série de questões para as quais temos de ter uma opinião, por muito que não queiramos. Foi isso que aconteceu com Albert Laurent: ele não podia evitar a mudança quando percebeu que não se tratavam de vegetais, mas de seres humanos com emoções.

Consegue fazer personagens diferentes, algumas mais duras e outras mais emocionais como o Mateo de In America. Que personagens prefere?

Gosto de todas e penso que, para avançar com a carreira, é importante ter uma variedade de trabalho. Senão estaríamos sempre a interpretar o mesmo papel.

E a abordagem que faz às personagens?

Em matéria de abordagem são praticamente iguais. Pessoalmente é mais complicado fazer um filme como The Island. É mais fácil conseguir uma conexão emocional em filmes mais pequenos. Aqui é muito mais complicado. Há tanta coisa à nossa volta: o realizador, o helicóptero, uma equipa enorme. Há demasiado a acontecer para se conseguir estar ligado. É por isso que The Island é um filme tão complexo e difícil para nós, atores.

Pessoalmente prefere as maiores produções como The Island ou os filmes mais pequenos como In America?

Nas grandes produções tratam-nos muito bem (risos). Bem, por vezes parecem-me duas coisas tão diferentes. É um luxo ter o dinheiro suficiente para se fazer o que se quer e pôr no ecrã. Quando esse dinheiro não existe, há que ser muito mais criativo. Nesse sentido, todos os filmes são bons para mim. Pessoalmente, tudo tem a ver com a história. O melhor é ter uma boa história e dinheiro para a concretizar.
Mas penso que o mundo do cinema independente é fascinante também, há pessoas com visões maravilhosas do cinema, com uma criatividade única.

Nasceu no Benim, foi criado em França e trabalha na América. Ainda tem as suas raízes? E onde é o seu “lar”?

Claro que ainda tenho as minhas raízes, seria muito triste se já não as tivesse. Tive o privilégio de ter vivido em três continentes diferentes, e na minha formação estão traços desses três locais. Neste momento, o meu lar é Los Angeles, é onde vivo, mas sinto-me igualmente ligado a França, onde cresci, e à África, onde nasci.

Quando chegou a França tinha 14 anos, alguma vez sonhou chegar até aqui?

Não. Queria ser ator sim, não logo aos 14 anos, mas quando terminei os meus estudos em Lyon. Depois comecei a ser modelo quase por acidente e cheguei à representação.

E porque queria ser ator?

Fiz uma peça de escola quando era pequeno, ainda em África. Mas diverti-me tanto em sair da minha pele, que comecei a gostar daquilo. Foi aí que tudo nasceu. Depois comecei a ver filmes sem saber que um dia chegaria àquele mundo, mas foi um gosto e uma vontade que foi crescendo em mim.

Mas sente que é simples para si representar?

Não, não, quem me dera livrar-me do meu stress (risos).

E o que lhe dá esse stress?

Muitos aspetos: o negócio em si, as escolhas que há a fazer como ator. Isto não devia ser stressante, mas confesso que me stressa.

É mais difícil que ser modelo?

Sim, muito mais. Como modelo limitava-me a estar caladinho e a estar ali (risos).

Quem foram as suas fontes de inspiração, como ator?

Dada a cor da minha pele, é complicado não olharmos para certos exemplos com os quais nos sentimos mais conectados… Sidney Poitier, Morgan Freeman, Denzel Washington. Por outro lado, lembro-me de ver filmes com o Gary Cooper e o Sean Connery como James Bond – aquele carisma fascinava-me. Que classe!

O Djimon e a Charlize Theron foram os primeiros atores africanos nomeados ao Oscar. Sente nos ombros a pressão de representar um continente?

Bem, quer queiramos ou não, sim. Ambos representamos o continente africano, e é uma responsabilidade que já vem incluída, mas que sabe muito bem. Imaginem, eu, o primeiro africano nomeado? É sempre ótimo quando somos os primeiros a atravessar uma linha.

Falou na diversidade de trabalho, mas a verdade é que costuma interpretar personagens com grande sentido de dignidade. Em The Island, a sua personagem é uma espécie de vilão durante quase todo o filme, mas como seria ter de interpretar uma personagem genuinamente má?

Ia ser muito complicado. E sinceramente era um caminho que não pretenderia seguir. Não há nada de interessante em ver alguém ser completamente mau, sem razões. Tem de ser justificado de alguma forma.
A personagem tem de ter uma evolução, há sempre uma razão por detrás do mal, e há sempre a possibilidade de ver até pureza nessa pessoa, tem de haver. Acho que, sendo um africano, e vendo como o mundo já tratou os africanos, não devo degradar-me a mim próprio num ecrã sendo um homem puramente mau. Por isso mesmo, se até aqui pude escolher as minhas personagens baseadas numa certa mensagem de dignidade, não penso deixar de o fazer.

Mas encara-se como um modelo para os mais jovens?

Gosto do que fiz até agora, e das opções que tomei, por isso acredito que sim. Nesse sentido, posso ser considerado um “modelo”. Mas a verdade é que, quando se começa nesta indústria, ninguém sabe se será famoso ou não. Deve-se é tomar sempre as opções em consciência.

A indústria de cinema africano está em pleno desenvolvimento. Vê-se a regressar, a fazer parte de um pequeno filme de produção africana?

Sim, eventualmente sim. Chegamos a um certo ponto na carreira em que podemos comandar o que fazemos, quero fazer filmes em África, filmes que envolvam África e falem sobre o continente em si, mas penso que ainda não é a altura. Ainda não estou pronto.

E a seguir? Que projetos tem?

Em outubro começam em Budapeste as minhas filmagens de um filme para a Fox chamado Eragon. É uma história de fantasia, baseada num livro escrito por uma criança.

Tem uma produtora agora?

Sim, estamos a desenvolver algumas histórias. Não só para eu representar, mas histórias que nos agradaram.

É um passo para chegar à realização?

Não. É muito difícil dirigir. Realizar é dedicar vários anos a uma história. Dá muito trabalho. Não me importo de interpretar, até produzir, juntar as pessoas para criar um trabalho. Mas dirigir é uma carga demasiado pesada.

Como foi trabalhar com o Ewan McGregor?

Nunca nos tínhamos conhecido, mas foi divertido, muito divertido. É uma bênção quando podemos trabalhar com pessoas que são encantadoras dentro e fora do ecrã, pessoas com quem nos afeiçoamos. É que às vezes trabalhamos com pessoas que nunca mais queremos ver à frente.

Disse que era muito tímido quando jovem, e agora tornou-se mais descontraído e também calmo. O que é que realmente lhe faz “saltar a tampa”?

Bem, têm de me fazer bastante. Na maioria das vezes, há coisas que me enervam mas eu nem ligo, tento sempre seguir o meu caminho. Chateio-me com o mesmo que chateia toda a gente, acho eu. Coisas simples, não há nada pior que pessoas falsas, ou pessoas malformadas.

Mas deve haver pessoas assim em todos os filmes que faz?

Sim, claro! Já trabalhei com pessoas que nunca me apeteceria acordar de manhã e ver (risos). Mas pronto, temos de trabalhar com eles, por isso mais vale aprender a lidar com eles até ao fim. No final, adeuzinho!

A moda ainda é um mundo pior…

Sim, foi lá que aprendi a ficar quieto no meu canto, porque eles acabam por se enterrar a eles mesmos. Não podemos mudar as pessoas, por isso queremos é fazer o nosso trabalho e pisgarmo-nos dali. A chave é aprender a controlar-se.

Pode acrescentar alguma coisa sobre as sequelas de Gladiator e Constantine?

Gladiator falei sobre isso porque sei que há interesse em realizá-la.

Consigo como personagem principal?

Bem… sei que teria emprego no filme (risos), mas neste momento não sei em que direção está a ir o filme. Quanto a Constantine, nunca ouvi falar em sequela. Mas gostaria bastante.

O Sean converteu-o ao futebol?

Sou africano, fui criado em França, eu “sou” futebol. Era o meu jogo de miúdo, o meu desporto.

E quem apoia? A França?

Nos Estados Unidos não tenho oportunidade de ver jogos do campeonato francês, mas a minha equipa é o Lyon, o clube da cidade onde cresci, e que se tem saído muito bem nos últimos anos. E também gosto do Real Madrid. Basicamente, o que aprecio são os bons jogadores. Por exemplo, gosto de ver o Beckham jogar, independentemente do clube que ele represente.

E o Zidane vai voltar à seleção francesa?

Isso é lindo! O Zidane é daqueles jogadores que têm um toque de bola com graciosidade. É ótimo.

E ainda joga futebol?

Eu costumava jogar às vezes. Mas da última vez que joguei magoei-me bastante num tornozelo e não me posso dar ao luxo de estar sem trabalhar. Eu costumava jogar na Califórnia, junto à praia, com um grupo de brasileiros que se juntam para jogar (risos – há uma jornalista brasileira na “round table” que se queixa por Djimon não ter referido nenhum brasileiro). Eu adoro os jogadores brasileiros, são os melhores do mundo.

E quem vai ganhar o Mundial no próximo ano?

O Brasil. Prevejo sempre que sejam eles. Mas Portugal também tem uma ótima equipa com o Figo e o Ronaldo.
(nr: Os jornalistas informam Djimon Hounsou de que Portugal tem um treinador brasileiro…)
Ahhh, querem mesmo colar-se ao Brasil, espertos. Mas sim, têm uma equipa ótima com jogadores ótimos.

Entrevista conduzida por Carla Calheiros

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