Expressão máxima da poética revolucionária do audiovisual latino dos anos 1960 e 1970, o realizador Glauber Rocha (1939-1981) terá uma retrospectiva da sua obra em película na Cinémathèque Française, em Paris, de 13 a 21 de março. A pesquisadora e professora Gabriela Trujillo, de El Salvador, associada à equipe curatorial da Quinzaine des Cinéastes de Cannes, é a teórica responsável pela apresentação dessa mostra e vai proferir um colóquio sobre o legado do artista brasileiro no dia 20 deste mês. Esse evento será seguido da projeção da produção de locações espanholas “Cabeças Cortadas” (1970), com Francisco Rabal (1926-2001). Integram esse menu títulos pouco citados do repertório glauberiano como “Câncer” (1972), “História do Brasil” (1974) e “Claro” (1975).
“Havia um tipo de fervor que ligava Rocha ao seus mestres: Eisenstein, Ford, Visconti e, acima de tudo, Buñuel. Com cineastas da sua própria idade, ele tinha relações conflituantes e apaixonadas, como ad suas tiradas sobre Pasolini, a sua amizade inflamada com Godard ou com os próprios compatriotas. Se ele declarou ou não, em alto e bom som e com ares de Luís XIV, ‘o Cinema Novo sou eu’, parece pueril, dado seu papel fundamental no movimento que surgiu no início da década de 1960 em torno de Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra e Carlos Diegues, e que se desenvolveu especialmente entre 1964 e 1974, os anos mais ferozes da ditadura militar”, escreve Gabriela na página oficial da cinemateca parisiense, no artigo “O Cinema Intranquilo”, que serve de bússola à imersão da França numa estética nascida na Bahia.

Esse foi o estado natal de Glauber e lá ele abriu o seu histórico de longas metragens, a partir de “Barravento“, em 1962. Antonio Pitanga, que hoje corre o mundo a lançar “Malês“, fez parte do elenco desse filme, que serviu como pedra fundamental para o cineasta estruturar a sua filmografia com um pé na antropologia e outro na alegoria onírica.
Para o abertura da maratona Glauber foi escolhido “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, mundialmente conhecido como “Antonio das Mortes”, que conquistou a láurea de Melhor Realização no Festival de Cannes, em 1969. No próximo dia 14, Paris embarca (ainda que tardiamente) na comemoração dos 60 anos de lançamento de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, exibido na competição oficial pela Palma de Ouro de 1964. Um de seus atores, Othon Bastos, hoje nonagenário, brilha no papel do cangaceiro Corisco, o Diabo Louro.
Integram o ciclo da Cinémathèque Française ainda “O Leão de Sete Cabeças” (1970), com Jean-Pierre Léaud. Definido pela crítica como um dos mais pujantes tratados sobre os jogos de poder na Pangeia de colonização ibérica, “Terra Em Transe” será o título de encerramento do ciclo Glauber. A produção recebeu o Prémio da Crítica de Cannes (votado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, a Fipresci), em 1967.

