
Composta por 17 curtas-metragens oriundas de diferentes cantos do planeta, num perímetro globalizado que vai da América Latina até ao Índico, a seleção competitiva oficial do Festival de Küstendorf, na Sérvia, vai conhecer os vencedores neste sábado, a partir das deliberações de um júri presidido pelo escritor florentino Sandro Veronesi de (“O Colibri”), mas já assegurou os seus favoritos. O finlandês “Duck Roast”, de Jelica Jerinic, que faz uma alusão a Aki Kaurismäki (o mais aclamado realizador daquele país), é o título mais bem falado. Foi apresentado na sala Damned Yard, um dos espaços de projeção do resort na vila de Mokra Gora, na fronteira com a Bósnia, a cerca de três horas de Belgrado, a noroeste. O espaço tem uma sala chamada Stanley Kubrick, localizada no chalé onde vive o criador desta maratona cinéfila eslava: Emir Kusturica, realizador de “Underground” (Palma de Ouro de Cannes em 1995).
Lá, pelas manhãs, ele exibe clássicos, como “Há Lodo No Cais” (1954), que completa 70 anos em 2024. As curtas passam na sala batizada em alusão ao romance “O Pátio Maldito”, de Ivo Andrić (1892-1975), autor vencedor do Prémio Nobel de Literatura de 1961, e encarado como um património artístico dos povos que um dia integraram a Jugoslávia. O filme de Jelica tem DNA sérvio, apesar de se concentrar em elementos da cultura da Finlândia. A trama faz um divertido exercício de metalinguagem a partir de um encontro romântico entre uma finlandesa e um imigrante, no qual um pato assado gera uma guerra de egos e um acirrado debate sobre a dieta vegana. O que parece ser uma situação real se transforma numa jogo de encenação que transforma “Duck Roast” numa ácida comédia.
Outro filme de tom bem-humorado se impõe na competição: o croata “Short Cut Grass”, de Davi Gaso. É um painel de uma tarde de verão, repleta de trapalhadas, estruturada a partir do empenho de um pai para levar a família a um passeio no campo enquanto um menino conta até 3 mil, numa irritada brincadeira.
Exibido na noite de quinta, “The Creature”, de Damian Kosowski, deu à Polónia o aplauso e o apoio de Küstendorf ao analisar os dilemas afetivos de um rapaz deslumbrado pela tia, com quem estabelece uma relação filial x maternal. Mas algo de trágico pode separar os dois.
Da leva final de títulos exibidos no evento, a curta-metragem mais potente é “mise à nu”, de Simon Maria Kubiena e Lea Marie Lembke, sobre uma jovem mulher ligada a um grupo de lutadores de wrestling.
Quem vencer a competição deixará a Sérvia sob os auspícios (e o endosso) de Kusturica, neste sábado, quando Küstendorf fecha as suas atividades exibindo “Disco Boy”, de Giacomo Abbruzzese.

