Numa indústria onde cada vez se fala mais em “conteúdos” e não filmes, onde algoritmos ditam as escolhas do que ver a seguir, e computadores analisam a rentabilidade de um filme lendo o guião, o realizador norte-americano Todd Haynes, responsável por filmes como “Far From Heaven” e “Carol” , confessou ao C7nema em Locarno que permanece com “teimosia da ignorância” perante essas transformações. “Continuo a tentar fazer cada projeto da mesma maneira e métodos de produção do passado”, explicou o realizador, o qual está na Suíça para apresentar uma sessão inserida na retrospetiva a Douglas Sirk. “Confesso que tive uma experiência maravilhosa no passado com a minha primeira e até agora única série que fiz, o “Mildred Pierce”, na HBO. E ainda agora assinei um contrato para fazer uma minissérie outra vez com este estúdio e com a Kate Winslet no protagonismo. Creio que poderemos avançar para ela dentro de ano e meio”.
Admitindo que considera a HBO um estúdio maravilhoso para se trabalhar, Haynes recorreu a Winslet para recolher informações sobre como a plataforma trabalha hoje em dia, pois muita coisa mudou desde 2011, quando trabalhou com eles. “A experiência dela no ‘Mare of EastTown’ foi ótima e isso garantiu-me que as coisas boas do passado mantém-se. Aprendi muito com o ‘Mildred…’ , em especial a diferença entre uma série e um filme, em termos de estrutura narrativa. Por isso estou aberto a trabalhar em todos os formatos, embora reconheça que o meu primeiro amor é o Cinema. Quando fiz essa série, levei comigo para o pequeno ecrã só gente do cinema e a sensibilidade desta arte. A série sente-se como um filme. Filmamos em 16mm e gosto tanto de trabalhar assim que transportei isso também para o ‘Carol’. Por causa disso, posso dizer que hoje em dia continuo a ser o mesmo cineasta teimoso que sempre fui.“
O próximo projeto de Haynes reune no grande ecrã Natalie Portman e Julianne Moore. Esta será a sexta vez que Moore e Haynes trabalharão juntos, destacando-se as colaborações em “Poison” e “Far From Heaven“, pelo qual a atriz foi nomeada aos Oscars.
Com o nome “May December”, o filme começa 20 anos após um notório romance entre Gracie Atherton-Yu e o seu marido Joe. Quando a atriz de Hollywood Elizabeth Berry passa um tempo com a família para entender melhor Gracie, que interpretará num filme, a dinâmica familiar desfaz-se sob a pressão dos olhares externos.
“O que me atraiu tanto no guião excecional do Samy Burch foi como ele navegou num assunto potencialmente volátil com uma espécie de paciência observacional que permitiu que as personagens da história fossem exploradas com uma subtileza incomum”, disse Haynes no passado sobre o projeto.
O cineasta tem ainda na agenda um filme em torno de Sigmund Freud, enquanto o seu projeto sobre Peggy Lee foi suspenso indefinidamente.
O Festival de Locarno prossegue até ao próximo dia 14.

