Havia um monstro a infernizar Tebas: a Esfinge. Surgiu então um aventureiro, vindo do nada — ou da vontade dos deuses —, que a venceu pela inteligência. O feito transformou-o no senhor daquela cidade. O seu reinado desembocaria, porém, numa nova desgraça: a peste. A missão de Édipo passa então por descobrir a origem da maldição e eliminá-la. O problema é que a causa do infortúnio era ele próprio. Tebas fabricou um herói para se livrar do mal, mas a sua forma humana revelou-se igualmente perigosa. Dessa premissa fizeram os gregos uma tragédia. Desse mesmo mote, no século XXI, o mexicano Alejandro González Iñárritu faz o seu filme mais desconfortável — e, por isso mesmo, muito bem-vindo: Digger.
Pode dizer-se que estamos perante uma narrativa de cinema-catástrofe disfarçada de comédia, construída segundo uma lógica muito livre de mise en abyme — imagem dentro da imagem, história dentro da história — e politicamente orquestrada pelo risco de colapso ecológico do planeta. A questão ambiental nunca sai de cena, da mesma forma que nunca se perde de vista a bestialidade da condição humana, encarnada, em dois planos narrativos paralelos, pela figura de Digger Rockwell.
Há um ardil no argumento assinado pelo cineasta com Sabina Berman, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, a partir de uma história de Berman, Iñárritu e Jez Butterworth, para alterar constantemente as certezas do público acerca daquilo que vê — e daquilo que lhe é contado — sobre Digger, magnata herdeiro de uma linhagem ligada à exploração de combustíveis fósseis. “O petróleo é o leite materno da Terra” é uma das frases usadas para ilustrar a sua relação com esse universo, cujo símbolo metonímico é uma pá herdada do avô. Digger enriqueceu a extrair do solo aquilo que alimenta o mundo moderno.
Logo no início, porém, a operação de perfuração da sua empresa na Gronelândia desencadeia uma catástrofe: uma enorme massa de gelo desprende-se e começa a avançar em direção à Europa. Caso atinja o continente, aquilo que durante décadas sustentou negócios altamente rentáveis poderá transformar-se num apocalipse geográfico.
O presidente dos Estados Unidos — um John Goodman caricatural, saído quase de um desenho animado dos Looney Tunes — exige que Digger resolva o problema. As notícias trazidas por Ganesh (Riz Ahmed), cientista que o magnata trata com xenofobia, apontam para consequências potencialmente incontornáveis. Os russos rapidamente entram no radar como possíveis responsáveis por uma hecatombe que ameaça ainda desencadear uma resposta nuclear.
A certa altura, Digger é obrigado a responder perante representantes europeus, como Édipo diante dos oráculos de Apolo ou Jor-El, na pele de Marlon Brando, perante os sábios de Krypton no Superman de Richard Donner. É nessa sequência que Tom Cruise faz jus ao peso que colocou sobre este exercício autoralíssimo de sátira política do realizador de Birdman. Brilha como Michael Keaton brilhou naquela joia de Iñárritu.
Emmanuel Lubezki, colaborador habitual do realizador na fotografia, entrega uma paleta esbatida, próxima do “cinema de sonhos” do sueco Roy Andersson, de About Endlessness, talvez como expressão visual de um pesadelo do qual ninguém consegue despertar. É o pesadelo de confiar o destino do planeta a um indivíduo execrável como Digger, figura que faz lembrar Argan, protagonista de O Doente Imaginário, de Molière, na sua decadência moral e na obsessão consigo próprio.
Molière ria-se de um mundo capaz de transformar a velhacaria em troféu civilizacional. Digger é um velhaco num mundo prestes a ficar submerso. E a lenda que se constrói à sua volta emerge de um corpo e de uma mente também doentes. São sintomas de um presente que agoniza à sombra do trumpismo e de uma morte anunciada das inteligências não artificiais.
Digger é, assim, uma parábola de assombro, assustadoramente hilariante, um presságio de um cancro civilizacional em metástase que encontra em Cruise uma estrela em supernova.
O caminho épico escolhido por Iñárritu na sua obra-prima, The Revenant (2015), cede aqui espaço a uma arquitetura narrativa mais complexa, em que o conto se confunde com aquilo que é contado, quem narra se mistura com a própria narrativa e nós nos transformamos em espectadores de outros espectadores, a aplaudir um rasgo de esperança numa realidade afundada na desordem.
Grita alto — e lindamente — a impressão de que, mesmo no pior dos tempos, ainda haverá teatro. Édipo, de alguma forma, viu mais longe. E talvez nos tenha livrado de algumas miopias. E talvez nos tenha livrado de algumas miopias.
















