A Comédia Francesa: dos bastidores do teatro ao cinema

A Comédia Francesa, de Martin Darondeau e Bertrand Usclat, passou pela Festa do Cinema Francês e estreia em Portugal a 22 de outubro

Fundada em 1680 por Luís XIV e conhecida como a “Casa de Molière”, a Comédie-Française é uma das instituições centrais do teatro francês e mantém a mais antiga companhia permanente de atores ainda em atividade no mundo. Organizada num sistema de alternância que permite apresentar várias peças numa mesma semana, a instituição localizada em Paris atravessou mais de três séculos de história sem perder o seu estatuto .

É precisamente esse peso histórico, e o contraste entre a imagem solene do teatro e o quotidiano de quem trabalha dentro dele, que Martin Darondeau e Bertrand Usclat exploram em A Comédia Francesa (De la Comédie-Française), filme em que a ação decorre nas três horas que antecedem a estreia de uma nova encenação de Macbeth. Nina, interpretada por Pauline Clément, prepara-se para apresentar o seu primeiro espetáculo como encenadora, mas atrasos, problemas técnicos, crises de ego e imprevistos sucessivos ameaçam impedir que o pano se levante. Só que, na Comédie-Française, existe uma regra: o espetáculo tem sempre de continuar. 

Na entrevista que se segue, realizada em Lisboa por ocasião da Festa do Cinema Francês, Martin Darondeau fala-nos do acesso aos bastidores da Comédie-Française, da escolha de Macbeth para a peça central em preparação, da influência de Birdman (2014), além da importância do ritmo da comédia e do poder da palavra.

Martin Darondeau | Fonte: Unifrance

Antes deste filme, trabalhou em Broute, uma série que parodiava os códigos dos vídeos informativos difundidos nas redes sociais. Nessa série colaborou com a Pauline Clément, atriz da Comédie-Française. Que imagem tinha dessa instituição antes de fazer um filme sobre ela?

Eu e o Bertrand tínhamos uma visão um pouco enviesada da Comédie-Française, porque conhecíamos bastantes atores da companhia. Sabíamos que, por detrás da imagem que a Comédie-Française pode ter, talvez um pouco elitista, de grande teatro, estavam atores e atrizes formidáveis, cheios de humor, autodepreciação e muito simples. Pessoas que gostam de rir.

Portanto, sabíamos que isso existia por detrás daquelas paredes. Não ficámos surpreendidos com aquilo que encontrámos. Em contrapartida, durante as filmagens percebemos realmente — já o sabíamos, evidentemente — até que ponto estes atores são formidáveis e generosos. Fazer o filme e trabalhar com eles confirmou aquilo que já sabíamos.

Na Comédie-Française fala-se também de egos. Ao mesmo tempo, imagino que fosse importante não cair numa caricatura ou em clichés. Como trabalharam isso?

Na verdade, não há assim tantos egos. Sinceramente, a equipa funciona como uma trupe. Eles vivem juntos. Claro que existem histórias internas, mas isso não sei. Quando estamos de fora e trabalhamos com eles, não é de todo isso que sentimos. Não sentimos atores que tentaram prejudicar-se uns aos outros. De maneira nenhuma.

Sentimos uma companhia que gosta de viver em conjunto, que está bem junta, e isso é bastante agradável.

Vem de Broute, que trabalha muito o formato do sketch, e agora fez uma longa-metragem sobre teatro. Como pensaram o filme como cinema? Por exemplo,  Birdman foi uma inflência’

Foi. Pelo menos, é um filme que voltámos a ver para perceber um pouco como Iñárritu tratava os ensaios de teatro, mesmo não sendo uma comédia e apesar de haver um pouco de fantástico. E, nesse caso, Birdman é realmente um filme construído em plano-sequência. Evidentemente que o vimos.

Depois, em relação às ideias de realização… Eu frequentei uma escola de cinema, gosto de procurar ideias de realização, fiz curtas-metragens, séries, por isso tinha muita vontade de fazermos uma comédia, mas, apesar disso, queria que existissem ideias de realização. Não queríamos pensar simplesmente: “Vamos pousar a câmara e filmar as pessoas a falar.” Queríamos movimento.

Bertrand Usclat | Fonte: Unifrance

E porquê a escolha de Macbeth como a peça ensaiada?

Por duas razões. A primeira é que não queríamos uma comédia. A ideia mais óbvia teria sido dizer: esta é a Casa de Molière, portanto vamos escolher uma peça de Molière.

Mas, se tivéssemos feito isso, como o filme é uma comédia e Molière fazia comédias, teria sido um pouco comédia sobre a comédia. Precisávamos de algo muito austero, muito frio, para que o contraste funcionasse com a comédia do filme. Portanto, pensámos que tinha de ser uma tragédia.

E, já que íamos escolher uma tragédia, mais valia ir buscar Shakespeare, que toda a gente conhece. E Macbeth talvez seja a peça mais negra de Shakespeare. Sobretudo, Macbeth tem a reputação de ser uma peça amaldiçoada. Diz-se que, sempre que Macbeth foi representada, aconteceram catástrofes.

Contaram-me que, em Lisboa, um teatro ardeu num ano em que Macbeth foi representada. Foi por isso que escolhemos Macbeth.

Nos créditos finais temos também uma entrevista com Shakespeare em que ele fala de Molière. Como surgiu essa pequena ideia?

Na verdade, é uma ideia bastante parva. No filme, sabes, há o elevador. E, no elevador, ouvimos a Radio Molière e por aí fora. Quem faz essa voz é o Denis Podalydès, que é talvez um dos atores mais emblemáticos da Comédie-Française.

Como já o tínhamos usado para aquilo, pensámos que seria divertido voltar a fazer a Radio Molière nos créditos finais e criar uma entrevista. A partir daí, eu e o Bertrand começámos a brincar com a ideia e pensámos que seria engraçado fazer uma entrevista a Shakespeare, que falaria de Molière.

Antes, o projeto tinha sido pensado como uma série. Acha que funcionaria melhor como série do que como filme?

Sim, pensámos como série porque achávamos que fazia sentido contar uma história assim. Tínhamos coisas para contar. Inicialmente, devia ser realmente a história de uma encenação ao longo de seis meses ou de um ano. Portanto, tínhamos imensos episódios para contar.

Mas nunca conseguimos vender a série. Por isso, tornou-se uma longa-metragem.

O filme foi rodado muito depressa, em apenas três semanas. Acha que isso foi importante para o ritmo da palavra e da câmara?

Sim. Também foi porque não tínhamos dinheiro nem tempo. Sinceramente, não teríamos recusado mais uma semana de filmagens.

Mas, apesar de tudo, isso trouxe uma grande energia. Deu-lhe um impulso. Fez com que estivéssemos muito concentrados e trabalhássemos depressa. 

Qual foi o maior desafio que encontraram?

O maior desafio foi mesmo conseguirmos fazer este filme em três semanas. E, sobretudo, escrevê-lo em dois meses. Na verdade, foi isso.Foi tudo muito rápido.

Em Broute e aqui, a palavra e o texto são muito importantes. É muito minucioso na escrita dos textos?

Sim, a palavra é bastante importante porque a comédia é, acima de tudo, ritmo. Portanto, temos de perceber como fazer com que uma frase não seja demasiado longa, que seja compreensível, incisiva, para que a ideia passe e para que a comédia funcione.

Às vezes, a mesma ideia escrita de duas maneiras diferentes pode ser muito engraçada, enquanto, se houver palavras a mais, a frase torna-se pesada. Portanto, eu e o Bertrand tentamos, tanto quanto possível, ser rigorosos nesse aspeto.

E como foi a receção do público e da crítica em França?

Ótima! Desde o início, desde as primeiras projeções em festivais, em janeiro passado, foi uma loucura. E, assim que o filme estreou, foi um enorme sucesso. Fez mais de um milhão e trezentas mil entradas. Portanto, é realmente incrível, é imenso. Estamos muito contentes.

Pauline Clément em A Comédia Francesa

Trabalhou em Broute com o Canal+. O que pensa da questão que envolve agora o Canal+ em França, depois de terem dito que vão reduzir o financiamento do cinema se for aprovado o orçamento que aumenta o imposto de 10 para 20% no on demand?

Sinceramente, isso surgiu quando cheguei a Lisboa e ainda não estudei devidamente o assunto. Sei que Maxime Saada, o responsável do Canal+, deu recentemente uma entrevista na rádio. Tenho de a ouvir. Ainda não analisei os detalhes da questão, portanto não vou dizer coisas sem ter estudado o assunto.

Mas uma coisa é certa: precisamos do Canal+ para financiar o cinema francês. São eles que mais financiam o cinema. Sem eles, há muitos filmes que não poderiam ser feitos.

Não teria existido Comédie-Française, não teria existido, no ano passado, L’Attachement, de Carine Tardieu, nem L’Histoire de Souleymane, no ano anterior. Precisamos do Canal+.

Vai continuar na comédia ou pensa mudar de registo?

Nunca é certo, mas o próximo filme que vou fazer será uma comédia. É mais a minha linguagem.

O que me interessa é contar histórias. Estou mais à vontade na comédia, mas talvez um dia saia da minha zona de conforto e vá explorar territórios desconhecidos.

E o que pensa da comédia no cinema francês atual?

Penso que há espaço para toda a gente. Sinceramente, temos comédias muito populares, como as que Philippe Lacheau faz, como Marsupilami. É um tipo de comédia. Podemos gostar ou não gostar. Mas uma coisa é certa: são filmes que têm um enorme sucesso e, neste momento, é o filme francês mais visto do ano.

E ver as pessoas irem ao cinema deixa-me sempre contente, independentemente do filme, se assim posso dizer. Portanto, é ótimo que isso exista.

Depois, há pessoas que fazem outros tipos de comédia. Por exemplo, estreou este ano La Vénus électrique, de Pierre Salvadori, que é outro tipo de comédia. Há o filme que fizemos. 

Existe uma grande diversidade?

Sim. Existe a comédia popular e a comédia um pouco mais de autor. Penso que aquilo que fizemos com o Bertrand se situa talvez entre as duas. Continua a ser popular, mas talvez não tanto como Tombé du ciel, por exemplo, que foi um enorme sucesso este verão. 

Existe espaço para toda a gente. Francamente, é ótimo. É preciso que tudo possa continuar a existir. O que seria triste era fazermos apenas comédia popular ou apenas comédia de autor. Isso seria triste. Temos de conseguir financiar estes dois subgéneros.

Falou de vários nomes da comédia francesa. Tem alguma figura que podemos dizer que o influenciou?

Sim, claro. Fui muito, muito influenciado pelos filmes da trupe do Splendid, como Le Père Noël est une ordure e Les Bronzés, pelos filmes de Alain Chabat, como Astérix & Obélix: Mission Cléopâtre e o Didier. O Didier é talvez o filme que mais vezes vi na minha vida.

Também pelos filmes de Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri, porque a escrita é extremamente precisa e gosto muito da complexidade das histórias.

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