Realizador do filme de abertura do último Festival Veneza, a comédia dramática de amor “Lacci”, sobre as idas e vindas de um casal, Daniele Luchetti é partidário de uma tese, muitas vezes contestada pelos radicalismos acerca do cinema de autor, de que as potenciais visuais inerentes à narrativa cinematográfica brotam do simples gesto de contar histórias, sem necessidade dos “ismos” políticos (marxismos, pós-modernismos, “ismos” de géneros…) pensados a priori como teses. O cinema que lhe interessa é sentimento, o que torna a palavra muito bem-vinda ao templo da imagem em movimento.
Foi o que disse na véspera da estreia italiana da sua penúltima longa-metragem, “Momenti di trascurabile felicità”, “A Felicidade das Pequenas Coisas”, lançado agora em solo português. “Se conto uma história que nasce da literatura, que vem de uma prosa capaz de brincar com a ideia de autoajuda, para estabelecer uma ponte com uma tradição das comédias tristes de Itália, que discutiam os nossos costumes, porque teria que rejeitar a potência que a palavra oferece no diálogo? É uma comédia, é um feito sobre a aceitação do dia a dia. Posso resolver a comicidade através de situações físicas, como se via em Chaplin, ou posso levar ao riso a partir de uma fala que desafia as expetativas do espectador“.

E foi esse o caminho que o italiano fez dos anos 1940 para cá. “Cresci nos anos 1970, a época áurea do cinema político italiano, com Elio Petri, Francesco Rosi e Marco Bellocchio. Quando comecei a filmar, havia quase uma exigência em irmos por essa rota. Mas havia o neorrealismo antes dele, como uma bandeira de ação pelas vias do humanismo que era, sim, politizado, mas não se limitava a questões do poder. Fui por aí. Fui pelo ‘neoirrealismo’ e pelo afeto”, disse Luchetti ao C7nema numa conversa em 2019, quando já esboçava o projeto de “Lacci”. “Existe um certo pudor em querer ser popular, como se isso diluísse a força estética. Gosto do entretenimento e sinto que ele pode levar as plateias a muitas libertações”.
Centrada num enredo metafísico marcado pelo regresso ao mundo dos vivos, após uma estadia no Além, a trama de “A Felicidade das Pequenas Coisas” nasce de um best-seller de Francesco Piccolo, de olhos atentos na ideia moral de “uma segunda chance” para viver. Paolo, papel vivido por Pif (pseudónimo de Pierfrancesco Diliberto) é um sujeito de pouca crença nas belezas do dia a dia. Ele morre de uma maneira estúpida, mas, graças a um erro burocrático no Paraíso, ganha o privilégio de ter 92 minutos a mais entre os mortais. Agora, é obrigado a refletir sobre a vida que levava na Terra e a própria existência. “Há uma variedade de sentimentos ainda pouco discutidos diante de nós que nem sempre o realismo documental silencioso consegue traduzir. É preciso falar e deixar falar. Só assim compreendemos as vivências ao nosso redor. E isso já era parte do projeto dos neorrealistas. Gostei desta história porque ela permitia-me trabalhar num contexto nas franjas da fantasia a partir de um olhar realista. Prefiro os corações livres às ideologias e amarras criativas. E construí esse filme como uma comédia, em conexão com as cartilhas de género que, os pudores políticos desvalorizaram aqui em Itália”, diz Luchetti, que lutou pela Palma de Ouro de 2010 com “La Nostra Vita” (A Nossa Vida), que deu a Elio Germano um prémio de melhor ator, e que pelo caminho ainda realizou “Io Sono Tempesta“. “Sou um realizador intuitivo, sem métodos, apoiado no humor. O que procuro nos meus parceiros atores é a emoção”.
Para a novíssima leva de realizadores da Itália, Luchetti é um parâmetro de autonomia plena a ser seguida para quem quer fazer filmes populares, mas com alma. Só que ele não parece envaidecer-se com isso. “Penso mais nos compromissos de trabalho que tenho do que em ser uma referência ou em utilizar os cineastas que gosto como parâmetro. Gosto muito do Ken Loach, por exemplo, por ficar encantado com o facto dele construir uma dramaturgia viva, sem medo de ser palavroso, sem a necessidade de uma estetização da imagem. A fotografia é realista, simples, sem adereços. O apreço que tenho por ele ilumina-me, mas não tento reproduzir o seu caminho. É difícil criar uma imagem original no cinema contemporâneo, mas isso não me obriga a reproduzir passo a passo os enquadramentos dos cineastas de que gosto. É a dramaturgia que me oferece o caminho”.

